UOL Notícias Internacional
 

22/01/2010

"Vinham caminhões cheios de cadáveres", relata um coveiro do Haiti

El País
A. Jiménez Barca Enviado especial a Porto Príncipe
Dois coveiros colocaram centenas de corpos sem identificar em uma vala comum. O governo calcula que 75 mil pessoas já tenham sido enterradas

Em uma rua íngreme de Porto Príncipe, cheia como todas de lixo e de escombros, há um cemitério não muito grande denominado Route Frère, com algumas tumbas inclinadas pelo terremoto. Uma cabra sinistra bale sem dono ao longe entre as sepulturas. Um grupo de homens fecha com gesso um nicho aparentemente recente. Dois deles são irmãos. Um veste uma bota furada, o outro tem um boné de beisebol velho e sujo. Trabalham no cemitério. Comem o que as famílias lhes dão depois dos funerais.

Na quarta-feira passada, um dia depois do terremoto, eles enterraram mais de 600 pessoas com suas mãos, atirando-as em uma vala comum que encheram há pouco com os mesmos dejetos de cimento e pedras que brotaram das tumbas destruídas.

  • Michael Appleton/The New York Times

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"Chegavam caminhões-caçamba, desses que se usam nas obras, cheios de mortos, com montanhas de mortos", explica Agoustin Jean Charles, o do boné, pondo as mãos na cabeça como se com o gesto quisesse abarcar um fenômeno incompreensível e diabólico. O caminhão freava na entrada do cemitério e ali, como se fosse um monte de terra, levantava o basculante e descarregava os cadáveres, que ficavam empilhados. Então Agoustin e seu irmão André, ajudados por outros homens, os atiravam em um buraco cavado a poucos metros, sem anotar o nome, sexo, idade ou procedência.

"Nesse buraco há 680." "Exatamente?" "Sim." "Como sabe?" "Porque os contamos. Pelo menos os contamos."

Outras valas comuns foram abertas e cheias de mortos de maneira ainda menos humana. Na região de Titayen, à base de pás escavadeiras, criaram-se buracos imensos que os caminhões logo abarrotaram de cadáveres misturados com entulho, lixo e detritos, uma mistura recolhida assim na rua. Ali nem sequer houve um número de ordem para levar ao além. Por isso ninguém sabe - e nunca saberá - quantos mortos foram enterrados em Porto Príncipe nos dias posteriores ao terremoto. Ninguém sabe tampouco o número exato de valas comuns que minam o centro e os arredores dessa cidade desmoronada.

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Alguns enterraram a filha e a mulher no jardim da casa destruída, sem perguntar a ninguém e sem confiar em ninguém. E há o contrário: há pessoas que vão à emissora de rádio Signal FM em busca de informação sobre o marido, o filho, a mulher ou o amigo, desaparecidos sem deixar rastro desde o dia 12. Talvez tenham acabado em alguma das cinco fossas que os irmãos Jean Charles cavaram esta semana ao redor dos túmulos.

Os dois contaram nesta quarta-feira, com a naturalidade surpreendente de quem está familiarizado com o espanto, que transportaram os cadáveres sobre uma porta quebrada ou uma prancha de plástico encontrada no resto de uma casa em ruínas.

O governo haitiano calcula que em poucos dias foram enterrados cerca de 75 mil cadáveres encontrados na rua. Ainda faltam os que permanecem embaixo dos edifícios ou de suas casas. Em uma rua central há um supermercado de vários andares achatado como um sanduíche que continha uma barbearia, um posto de fotocópias e uma concorrida loja de comestíveis.

Cada vez que alguém passa por ali põe a mão na boca, se aplica uma máscara ou se cobre com a parte de baixo da camiseta, para afastar o odor adocicado dos cadáveres que dormem ali embaixo há uma semana. Há muitos edifícios assim. Ninguém os contou.

O cemitério Route Frère parece tranquilo. O hospital enviará logo dois cadáveres, mas avisa antes. Acostumados a receber propinas, os irmãos Jean Charles ainda não ganharam nada por ter enterrado tanta gente sem nome. E esperam que o conselho da região se aproxime um dia destes para lhes agradecer com um pouco de dinheiro por seu trabalho de coveiros em série.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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