UOL Notícias Internacional
 

26/01/2010

Ainda resta presidência?

El País
Francisco G. Basterra
El País
Obama será julgado por sua capacidade de reconstruir os EUA, e não o mundo

Um ano depois da explosão mundial de entusiasmo provocada pela vitória de Barack Obama, as enormes expectativas causadas pelo primeiro presidente afro-americano se transformaram em decepção. A radiante manhã gelada no Mall de Washington, diante do Capitólio, em 20 de janeiro de 2009, com a promessa do novo presidente de mudar o mundo, parece algo muito distante e inclusive irreal. Da obamania, pelo menos nos EUA, só restam as cinzas. Em um cruel paradoxo, Obama acabou de enterrar os Kennedy, com a fragorosa derrota em Massachusetts para o lugar de Ted no Senado de Washington, um Estado medularmente democrata. A reforma da saúde ainda não nascida, chave da abóbada da revolução doméstica do presidente, corre perigo. A progressiva indigenização de Obama constituiu sem dúvida um dos traços mais relevantes do ano passado. O ressonante "Sim, podemos" é hoje quase inaudível. O presidente, abandonado pela corrente central do país e também por seu próprio partido, parece desconcertado e contra-ataca utilizando o mesmo populismo de seus detratores para pôr a banca em seu lugar.
  • Larry Downing/Reuters

    Primeiro ano da gestão Obama
    é decepcionante, afirma analista


Cabe perguntar, no início de seu segundo ano no governo, se ainda resta algum Obama. Há apenas um ano era uma afirmação, e não uma interrogação. E, embora a realidade tenha feito trapos das expectativas, a resposta deve ser positiva. Em um ano muito difícil, obscurecido pela Grande Recessão, o 44º presidente dos EUA se saiu bem, sem nota, e seu haver pesa mais que o devido. Ele contornou o desmoronamento do sistema financeiro, evitando uma grande depressão. Fez os EUA voltarem ao mundo, limpando sua imagem e aplicando o efeito Obama à marca global do país, novamente transformado em uma nação admirada. Foi capaz de restaurar o equilíbrio perdido entre segurança e liberdade, voltando ao império da lei.

Mas faltaram-lhe resultados concretos para melhorar a vida dos americanos. Quando derrotou Hillary Clinton nas primárias, Obama subiu aos céus e chegou a dizer o seguinte: "Tenho certeza de que as futuras gerações poderão dizer que este foi o momento em que começamos a administrar tratamentos aos doentes e empregos aos desempregados; o momento em que a subida dos oceanos começou a recuar".

Essa retórica voltou-se contra ele como um bumerangue. A reforma da saúde continua encalhada e, no mínimo, será aguada se não sofrer pior sorte. Os cidadãos estão lhe dando as costas, sobretudo os independentes, que foram chaves em sua vitória eleitoral (36% dos americanos se identificam nessa categoria), pelo aumento do desemprego, de 8% para 10% desde que Obama assumiu a presidência. Esse dado, que não surpreende na Europa e é a metade do desemprego espanhol, é demolidor nos EUA.

São maioria os que pensam que Obama e os democratas fizeram mais pelos bancos e pela General Motors do que pelas famílias trabalhadoras. É o desemprego, estúpido!, estão lhe gritando as classes médias frustradas. A história se repete. O presidente, que chegou ao poder aproveitando essa mesma onda de mal-estar econômico que prometeu corrigir, agora é submerso por sua ressaca. Seu relembrado slogan - "Uma mudança na qual possamos crer" - lhe falhou. Os americanos começam a duvidar.
Parece inexplicável, sobretudo do exterior, o surgimento de uma maré anti-Obama tão forte e em tão curto espaço de tempo. Com os óculos europeus, lemos mal os EUA. Não é um país majoritário de caipiras arrogantes, dominado pela extrema-direita e pátria do fundamentalismo. É simples demais acreditar que a onda populista é unicamente fruto de uma conspiração dos conservadores atiçada pelas rádios extremas e a rede Fox de televisão.

Em uma América profunda e majoritariamente individualista, Obama é considerado um esquerdista que saiu do armário. Charles Krauthammer escreve no "Washington Post" que a vitória de Obama foi um referendo sobre seu antecessor e o colapso financeiro posterior à quebra do Lehman Brothers, e "não uma aprovação da social-democracia à europeia".

Como também Paris, ainda nos resta Obama e nos restam os EUA, cujo declínio parece ainda uma notícia prematura. O ressurgimento da única superpotência ainda existente com as tropas americanas ao resgate humanitário do Haiti, país próximo de suas costas e no qual também defendem seus interesses nacionais, é um exercício estimável de poder brando e uma notícia positiva em um ano que começa de maneira catastrófica. Devolve-nos o rosto do americano bom. Mas afinal Obama será julgado por sua capacidade de reconstruir os EUA, e não o mundo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,11
    3,339
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,30
    61.087,14
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host
    Obama será julgado por sua capacidade de reconstruir os EUA, e não o mundo %>