UOL Notícias Internacional
 

28/01/2010

A nova guerra fria?

El País
José Reinoso
Em Pequim

"Caso Google" aumenta a tensão nas complexas relações China-EUA

O surpreendente anúncio do Google de que poderá encerrar seus negócios na China, em reação aos ataques cibernéticos sofridos por seus computadores e os e-mails de dissidentes do país asiático que utilizam seu serviço Gmail, provocou um novo foco de tensão nas complexas relações entre China e EUA.

  • 13.01.2010 - Reuters

    Chinesa leva flores à sede do Google na China, após ameaça da empresa de abandonar o país.

No plano econômico, a crise deixou claras as dificuldades que as companhias estrangeiras enfrentam para trabalhar no mercado chinês -especialmente as que operam em um setor extremamente sensível como o da informática- e o impacto que a crescente ciberespionagem tem sobre a concorrência empresarial em um mundo cada vez mais globalizado. No plano político, o ciberataque atribuído à China é uma chamada de atenção para o crescente poder desse país e o aumento do uso da Internet como ferramenta de espionagem política e militar. A revelação do Google adquire uma dimensão especial devido à identidade de algumas das empresas americanas afetadas, como a Northrop Grumman, uma das maiores fabricantes de armas do mundo.

O governo de Pequim negou qualquer envolvimento no assunto e replicou à empresa californiana que se quiser trabalhar no país asiático terá de cumprir a lei. Refere-se ao anúncio feito pelo Google de que deixará de censurar as informações em sua máquina de buscas chinesa (algo que fazia desde que se instalou na China em 2006, para cumprir as exigências oficiais) e que se o governo não aceitar irá embora.

Com toda a certeza Pequim vai recusar essa exigência porque a censura na Internet -assim como nos jornais, rádio e televisão- é um dos elementos cruciais de seu sistema político de partido único. Mas tentará buscar uma solução, na mais pura tradição negociadora asiática. O abandono da China por parte de uma das empresas tecnológicas mais admiradas do mundo seria um novo revés para a imagem de um país que tem má reputação no Ocidente, e aplicaria um golpe na confiança empresarial estrangeira na China, quando os investimentos estrangeiros continuam sendo um dos principais motores de sua economia.

Por isso as autoridades chinesas estão tentando minimizar o impacto do caso. O vice-ministro das Relações Exteriores, He Yafei, disse na quinta-feira passada que o caso Google não deve ser "interpretado de modo exagerado" nem ligado às relações entre os dois países. Na semana passada Yao Jian, porta-voz do Ministério do Comércio, enfatizou que há muitas formas, que não explicou, de resolver a diferença. Mas insistiu em que todas as empresas estrangeiras, incluindo o Google, devem cumprir a lei; em outras palavras, aceitar a censura. "Qualquer decisão que a Google tomar não afetará as relações econômicas e comerciais entre China e EUA, porque ambas as partes têm muitas vias de comunicação e negociação", disse.

As autoridades de Washington não se mostram tão claras e afirmam que ainda é cedo para conhecer todas as consequências da crise. Há muito tempo estão preocupadas com os programas de ciberespionagem chineses. Um painel de assessores do Congresso afirmou em novembro que Pequim parecia ter aumentado o acesso a computadores americanos para obter informação útil para seus programas militares.

Chip Gregson, subsecretário de Defesa para Assuntos de Segurança na Ásia-Pacífico, afirmou que seu departamento está especialmente preocupado com os programas nuclear, espacial e ciberespacial da China, com quem, segundo disse, as relações são "complicadas" por seu duplo caráter de parceiro e concorrente.

Robert Willlard, almirante chefe das forças americanas no Pacífico, afirmou que a incerteza é um dos maiores obstáculos nas relações mútuas e denunciou o que chamou de inconsistência entre as declarações oficiais e a realidade, já que, segundo ele, por um lado Pequim diz que seu programa militar é só defensivo e que busca um ambiente harmonioso e pacífico no qual sua economia possa crescer e prosperar, mas por outro o Exército Popular de Libertação está aumentando a capacidade para projetar seu poder e suas forças assimétricas e convencionais.

A decisão do Google colocou em uma posição incômoda as outras empresas americanas que trabalham no setor de Internet na China. Mas por enquanto olharam para o outro lado. O Yahoo disse que "se alinha" com a posição de sua concorrente, sem dar mais detalhes, enquanto a Microsoft afirmou que não tem qualquer plano de abandonar esse suculento mercado. "Não entendo de que forma nos ajudaria, não entendo de que forma ajudaria a China", declarou Steve Ballmer, conselheiro delegado dessa empresa. "Todos os dias nos atacam de todas as partes do mundo, e creio que aos outros também. Não creio que tenha ocorrido nada fora do normal." Os ciberpiratas aproveitaram defeitos de segurança do navegador Internet Explorer da Microsoft para os ataques.

O Yahoo controla 40% da empresa proprietária do Alibaba, o maior site de comércio eletrônico da China, enquanto a empresa de Bill Gates possui numerosos interesses no país, que vão da venda de programas de informática a centros de pesquisa e desenvolvimento. Além disso, seu buscador Bing poderia se beneficiar da saída do Google, que detém 31% do mercado de máquinas de busca. A empresa local Baidu, com uma cota de 63%, lidera o setor, que atingiu US$ 1 bilhão em 2009.

As multinacionais estrangeiras aceitaram há muito tempo as restrições governamentais em troca de uma parte do mercado chinês, imenso e em alta. E não só no setor de Internet, onde devem cooperar com a censura. Desde a indústria de automóveis até a de comidas rápidas, as empresas às vezes se viram obrigadas a seguir as sugestões ou imposições oficiais sobre a escolha do sócio local. Poucas falam disso claramente por temor de represálias. O negócio tem primazia.

Mas Pequim não é imune às pressões. No último verão renunciou à obrigatoriedade anunciada anteriormente de que todos os computadores vendidos na China fossem equipados com um programa de filtro de Internet. E meses antes da oposição de Washington fez Pequim abandonar a exigência de que as empresas revelassem o funcionamento de sua tecnologia de segurança informática.

As tensões sobre o caso Google se acrescentam aos habituais atritos entre a maior e a quase segunda economia do mundo, que vão desde as queixas americanas pela supervalorização da moeda chinesa até as acusações de Pequim sobre protecionismo comercial americano, as diferenças sobre direitos humanos e a ira chinesa pela venda de armas americanas a Taiwan. Uma longa lista de contenciosos à qual a ciberespionagem acrescentou agora um novo e moderno elemento.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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