UOL Notícias Internacional
 

29/01/2010

O pesado lastro dos democratas

El País
Antonio Caño
Em Washington

Obama chama seus correligionários para cumprir sua responsabilidade de governar

O presidente Barack Obama expôs a todo o país no horário nobre da TV suas críticas (sua decepção) ao Partido Democrata, a maior vítima do cataclismo de Massachusetts, onde perdeu um único lugar do Senado mas toda a iniciativa política e toda a coragem exigidas para governar.

"Gostaria de lembrar aos democratas", disse o presidente em seu discurso de quarta-feira diante do Congresso, "que ainda têm a maior maioria que já obtiveram em décadas e que a população espera que nós resolvamos os problemas, e não que faltemos ao compromisso."

O estado de depressão em que entrou o Partido Democrata, embora compreensível por causa de sua recente história de divisões e derrotismo, não corresponde ao revés sofrido nas eleições da semana passada. Perdeu, é verdade, a supermaioria de 60 lugares exigida para impedir o obstrucionismo da oposição, mas continua tendo uma ampla maioria de 59 assentos dos 100 no Senado e de 256 contra 178 na Câmara de Deputados. É uma vantagem mais que suficiente para governar, é claro, do ponto de vista da legitimidade democrática, mas também pelo lado dos instrumentos legislativos a sua disposição, inclusive em um sistema tão exigente quanto este.

Os republicanos não têm 60 lugares no Senado desde 1909, e isso não os impediu de fazer a revolução conservadora com Ronald Reagan e conduzir o país a duas guerras com George W. Bush. Nesse mesmo período os democratas tiveram 60 lugares dez vezes, as mais recentes em 1975 e 1977, sem grandes proezas legislativas que se lembrem nesses últimos anos.

O problema democrata não é de assentos; parece mais de convicções. No Partido Republicano são poucas, mas claras: livre mercado, valores tradicionais e segurança nacional. Podem atravessar momentos como o atual -sempre quando não estão no governo-, nos quais alguns radicalismos produzem dissidências e confusão. Mas esses três princípios se mantêm inalterados e estão permanentemente à disposição dos eleitores quando estes os reclamam.

Mas o que podem esperar os eleitores dos democratas? Conforme quem fala, os democratas podem dar prioridade à defesa do aborto, à justiça social, à defesa do meio ambiente, ao feminismo, aos direitos civis, aos direitos humanos, aos direitos sindicais, ao casamento homossexual, à proteção aos emigrantes, à redução dos gastos militares... a lista é interminável. Cada presidente democrata, em busca da sobrevivência política, adapta essa lista a suas necessidades e tenta governar com uma agenda mais curta, mais realista e desvinculada do partido.

Foi o que fez Bill Clinton -o único presidente democrata reeleito desde Roosevelt- e é o que terá de fazer Obama. Seus primeiros 12 meses já lhe mostraram que seus companheiros de partido com princípios totalmente diferentes podem ser intransigentes e seu apoio pode custar caro. Uma das principais armas que a oposição encontrou contra a reforma da saúde foi o pacto que a Casa Branca teve de fazer com os democratas conservadores e com os sindicatos às costas da opinião pública, simplesmente para silenciar a chantagem.

Não menos dano causou ao presidente a hostilidade de personagens importantes da esquerda, como Howard Dean, que pediu o voto contra a reforma da saúde, ou os gritos de "traição" lançados ao menor desvio -o mais recente, o congelamento de uma parte mínima dos gastos públicos- por eminentes figuras progressistas como Paul Krugman ou Arianna Huffington. Em seu influente site na web, esta última ridicularizou na quinta-feira o discurso do presidente, que chamou de "o último crente no bipartidarismo".

Efetivamente, Obama parece acreditar no bipartidarismo. Ou melhor, deixa-se levar por um instinto que lhe diz que nos EUA, diferentemente de outros lugares, não se pode governar contra a metade do país, nem a esquerda vai ganhar eleições simplesmente pelo mérito de não ser a direita. É possível que os democratas ainda tenham tempo de evitar um fracasso em novembro. Mas se não for assim Obama tentará não naufragar com eles.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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