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30/01/2010

"Não sou um ideólogo", afirma Obama aos congressistas republicanos

El País
Antonio Caño
Em Washington

O presidente dos EUA mantém um debate insólito com líderes da oposição

"Eu não sou um ideólogo. Se vocês sabem como podemos fazer o que temos de fazer de melhor maneira e de forma mais barata, o faremos." Com essas palavras, Barack Obama convidou na sexta-feira os congressistas republicanos a trabalhar com ele, superando as diferenças naturais entre os partidos.

Foi um ato insólito e de extraordinária relevância. O presidente americano decidiu participar pessoalmente da conferência que realizaram em Baltimore os membros republicanos da Câmara dos Deputados, para lhes oferecer -e aos eleitores- garantias de que quando invoca o bipartidarismo realmente está disposto a dar os passos necessários para tentá-lo. Foi como se meter na cova do lobo. Nessa conferência estão alguns dos mais reputados críticos do presidente e alguns dos mais furiosos direitistas do país.

  • Charles Dharapak/AFP

    Obama responde a perguntas de congressistas republicanos em Baltimore;

Mas acabou sendo um grande êxito de relações-públicas para Obama e uma grande lição de democracia para a nação. Não é habitual esse tipo de contato nesse sistema político, que mantém o presidente constitucionalmente afastado do trabalho das câmaras parlamentares. Foi, portanto, uma grande oportunidade para uma troca de ideias, às vezes crua e sincera -"Por que o senhor nos despreza em público dizendo que nunca apresentamos propostas?", disse Tom Price-, mas sempre expressas com grande formalidade e respeito. O presidente pronunciou primeiro um breve discurso e depois respondeu a várias perguntas.

Obama e os republicanos expuseram suas duas visões do país. Defenderam suas diversas soluções para atacar o desemprego, conter a dívida, reformar a saúde ou modernizar a produção de energia. Embora fossem evidentes as diferenças, o presidente se comprometeu a levar em conta as ideias escutadas, inclusive em seu mais querido projeto, o do sistema de saúde. "Se vocês me mostrarem propostas que especialistas independentes possam aprovar como benéficas para a reforma de que precisamos, podem estar certos de que vou incluí-las", prometeu.

O mesmo se aplica a outros assuntos, ele acrescentou, como o desemprego, que hoje é a maior preocupação dos cidadãos. Obama salientou que os dois partidos deveriam ser capazes de fazer sacrifícios nessa questão, adotar decisões que podem ter certo custo eleitoral e atuar juntos. "Às vezes nos ocupamos mais de como vão nossas pesquisas do que de fazer as coisas. Não é isso que quer a população americana. A população americana não quer que cuidemos de salvar nossos empregos, mas dos empregos deles", declarou.

Não foi uma reunião fácil. Obama teve de sair em defesa da presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, e interromper educadamente a ovação que se seguiu a uma referência desqualificadora a ela. O presidente teve de suportar duríssimas críticas pelo plano de estímulo econômico, pela reforma sanitária e pelo aumento do déficit. Obama se defendeu com segurança e com simpatia. As críticas eram intercaladas com risos na medida em que os participantes do debate alternavam os argumentos duros com as piadas amáveis. Nesse clima, o presidente queixou-se de que em muitas ocasiões "a oposição se declara antes inclusive de explicarmos nossas ideias".

Mencionou como prova disso a oposição republicana sobre os impostos: "Por que vocês se opuseram a uma lei (a do estímulo) que incluía US$ 300 bilhões de redução de impostos, da qual se beneficiam 95% dos americanos?"

O congressista Mike Pence lhe respondeu que se fosse autenticamente sincero em seu desejo de baixar impostos, porque não propunha, como fez John Kennedy, uma redução indiscriminada, para toda a população? Obama respondeu que não era partidário de baixar os impostos de Warren Buffet, a maior fortuna do país.

Outro campo de batalha foi o da dívida nacional. Um dos participantes o recriminou por elaborar orçamentos federais, que serão apresentados na próxima semana, que triplicam a dívida. Obama disse que uma grande parte desse aumento vai para programas que foram implementados antes que ele fosse presidente - duas guerras, Medicare, Medicaid e previdência social.

"Mas não importam as diferenças que tivemos até agora", concluiu. "Vamos colaborar, sem acreditar, é claro, que só defendemos nossas ideias quando aceitam 100% de nossas ideias."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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