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02/02/2010

Sem estrutura, Iêmen luta contra o terrorismo

El País
Ángeles Espinosa
Enviada especial a Shibam (Iêmen)

A polícia iemenita está autorizada a matar sem perguntar. EUA e Reino Unido treinam agentes antiterroristas

"Se eu o tivesse visto a tempo, teria disparado. Sem hesitar. Essas são as ordens", admite Wael. Esse jovem policial iemenita é o oposto do agente 007, mas como o James Bond da ficção tem licença para matar. É verdade que só no caso de haver vidas em perigo. Aos 24 anos, com sete de experiência nas costas, costuma servir de escolta para os estrangeiros cada vez mais raros que visitam o Hadramaut, uma das regiões mais espetaculares e inacessíveis do Iêmen.

Atentados colocam Iêmen na mira da luta antiterrorista

Em março do ano passado, Wael acompanhava um grupo de 14 turistas coreanos quando um terrorista suicida se fez explodir entre eles em Shibam, a cidade que Freya Stark batizou de "Manhattan do deserto". "Havíamos subido até aqui para tirar uma foto", comenta ao pé da caixa d'água situada na colina de Jaba, de frente para a cidade medieval. É o melhor mirante para se apreciar o conjunto de arranha-céus mais antigos do mundo, alguns de até oito andares, construídos apenas com barro e troncos de palmeira.

"Um pouco mais acima havia um rapaz mastigando qat e também quatro turistas espanholas com seu guia local", relata o policial. "Vários coreanos foram para lá e depois ouvi a explosão." Treinado para isso, Wael saiu correndo em sua direção.

"Foi horrível. Os coreanos estavam cobertos de sangue, um deles tinha a mão semiarrancada, o outro o corpo aberto pela metade... o suicida ficou em mil pedaços... seu cérebro bateu contra um muro [que rodeia o depósito]." Seu ato deixou seis mortos -quatro coreanos, seu guia iemenita e o próprio suicida, além de vários feridos com diversas gravidades. As espanholas não sofreram danos físicos.

As investigações posteriores revelaram que o jovem pediu aos coreanos que tirassem uma foto com ele, e quando estavam posando fez explodir seu cinturão. "Antes de detonar a bomba, tinha dado dinheiro aos meninos que pululavam ao redor para que saíssem dali", acrescenta o policial, movendo a cabeça com incredulidade. Não se explica o que passa pelo cérebro dos terroristas.

"Ele não era daqui. Tinha vindo de Sanah de ônibus", explica o agente Wael. Como pôde passar pelos controles que salpicam a estrada? "Levava a bomba em uma sacola, e não um colete explosivo que possa ser detectado em uma revista", justifica. E não percebeu nada estranho em seu comportamento? "Eu não o vi. Se tivesse notado algo, o teria revistado... e em última instância teria disparado para evitá-lo", afirma.

Ele fala com seriedade, como se tivesse pensado muito e sem sombra de bravata em suas palavras. Esse homem, que é pai de uma menina pequena e cujo salário beira os 35 mil riais por mês (cerca de 120 euros), é consciente da importância de seu trabalho, mas também sabe o que está em jogo em cada missão.

"Estamos em guerra contra eles. Não só matam turistas, mas também os membros das forças de segurança", menciona, referindo-se ao ataque a um quartel do qual ele escapou por um fio. "A Al Qaeda é muito forte", afirma com a experiência de seu trabalho e em contradição com algumas fontes oficiais, que tentam minimizar seu perigo. De onde tiram o dinheiro? "Não sei, da Arábia Saudita, do Golfo, do Irã..."

Em contraste com os fundos inesgotáveis dessa multinacional do terrorismo, as forças de segurança iemenitas estão mal treinadas, mal pagas e carecem de meios. Wael, que se veste à paisana, conta apenas com sua argúcia visual, um Kalashnikov desgastado e um revólver russo. "É muito confiável", afirma sobre este, enquanto o mostra com cuidado à jornalista.

EUA e Reino Unido estão treinando 200 agentes iemenitas na luta antiterrorista, mas o programa permanece quase secreto devido à sensibilidade do assunto. A presença de forças estrangeiras no Iêmen não só daria um argumento definitivo para à Al Qaeda na Península Arábica, como se denomina a franquia local, como provocaria um profundo mal-estar entre os iemenitas, muito zelosos da soberania nacional e cujo antiamericanismo disparou devido ao ataque de um avião teleguiado americano a um chefe da Al Qaeda em solo iemenita em 2002.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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