UOL Notícias Internacional
 

05/02/2010

Salvemos a liberdade científica

El País
Javier Sampedro

O "climagate" revela más práticas de pesquisa, por pressão ambiental e política. O aquecimento não está em questão, mas é necessário mais rigor

O "climagate" está esquentando. Os céticos que negam a mudança climática encontraram alguns erros científicos nas pesquisas sobre o aquecimento global. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC na sigla em inglês) incluiu resultados que previam que as geleiras do Himalaia se fundiriam até 2035 e que foram demonstrados falsos, segundo admite o próprio painel. Também afloraram possíveis erros em dados de medição tomados pelas estações meteorológicas chinesas e incluídos no mesmo relatório do IPCC.

Ban Ki-moon minimiza "climagate"

Mas a Terra também está se aquecendo. Nada do anterior modifica as conclusões gerais do IPCC, que continuam contando com o apoio da maioria dos cientistas. Mas, sim, revela que a pressão ambiental e política sobre a questão da mudança climática levou os pesquisadores a práticas de comunicação científica discutíveis, ou pelo menos discutidas. A dúvida é se essa situação perturba a liberdade intelectual que deve reger o debate científico.

O próprio presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, está recebendo pressões para se demitir. O centro científico que ele dirige, o Instituto de Energia e Recursos de Nova Déli, tem conexões com algumas empresas que podem se beneficiar do impulso dado às energias renováveis. Essas ligações, segundo os "climacéticos", constituem um conflito de interesses.

O "climagate" começou em novembro, quando alguns hackers colocaram na rede dez anos de mensagens eletrônicas internas do Centro de Pesquisa do Clima da Universidade de East Anglia (Reino Unido). Um e-mail do então diretor da unidade, Phil Jones - que depois deixou o cargo por causa do escândalo -, dizia: "Acabo de completar o truque de Mike na 'Nature', de acrescentar a temperatura real a cada uma das séries para os últimos 20 anos, e desde 1961 para as de Keith para ocultar o declínio".

O jornal inglês "The Guardian" afirma agora que a revisão de milhares de mensagens eletrônicas revelou "graves erros" nos dados de medição tomados pelas estações meteorológicas chinesas. Os cientistas de East Anglia tinham incluído esses resultados em um trabalho publicado em 1990, que depois foi usado pelo IPCC em seu relatório de 2007, para apoiar sua tese de um rápido aquecimento da superfície terrestre nas últimas décadas.

O cético Douglas Keenan pediu a Jones os resultados obtidos pelas estações meteorológicas chinesas. Segundo Keenan, Jones não apresentou os dados. A Universidade de East Anglia o nega e afirma que a unidade do clima apresentou "os dados de temperatura e a localização das estações meteorológicas". Mas isso só parece ser verdade para dez dos 105 requerimentos que Keenan fez.

Outros pontos denunciados pelos climacéticos. Segundo estes, o IPCC afirma que o aquecimento global causou um aumento das perdas econômicas devido aos temporais e outros fenômenos extremos, coisa que na sua opinião não está demonstrada. O painel, entretanto, rejeita essa acusação por se basear em uma situação "fora de contexto". Também colocam dúvidas sobre a validade das previsões sobre a reação da Amazônia às mudanças ambientais.

Jones continua afirmando que seus resultados são válidos e nega que seu grupo tenha ocultado dados relevantes. "O trabalho que fazemos nesta universidade é só uma pequena parte da ciência do clima, e há milhares de cientistas em todo o mundo que apoiam nossos resultados", Jones declarou na quarta-feira à BBC. Mas também admitiu sua preocupação por esses escândalos. Ele disse: "Qualquer trabalho que façamos a partir de agora será submetido a um exame muito minucioso".

A revista "Nature", que publicou boa parte dos estudos agora questionados, não encontrou motivos para revisá-los. As conclusões do IPCC se baseiam em milhares de resultados, que incluem fenômenos tão evidentes quanto o retrocesso das geleiras, o degelo acelerado do Ártico ou a mudança na migração das espécies. Os 3.000 principais climatologistas do mundo concordam que a mudança climática existe e apoiam as conclusões do IPCC.

"O assunto está esquentando", diz Manuel de Castro, climatologista da Universidade de Castela-La Mancha, em Toledo. "Eu não posso saber o que Phil Jones fez com as mensagens, nem se reteve informação relevante ou não; o que é óbvio é que há muita gente radicalmente contra o IPCC e o aquecimento global, e que se agarraram um prego em brasa."

Castro não acredita que o climagate afete as conclusões do IPCC sobre o aquecimento da superfície terrestre, e oferece dois argumentos: primeiro, que o artigo de Jones de 1990 "é só um dos 15 trabalhos que o IPCC usa para sustentar suas conclusões sobre o aquecimento da superfície terrestre; e as conclusões são praticamente as mesmas no estudo de Jones e em todos os demais. Há milhares de cientistas do clima. Todo mundo não pode se enganar."

O segundo argumento é mais técnico, mas afeta justamente a base do assunto: os dados das estações meteorológicas chinesas. O climacético Keenan questiona por que algumas dessas estações estavam junto de grandes núcleos urbanos e portanto poderiam estar refletindo o aumento da temperatura local, devido à cidade, e não uma tendência geral da superfície terrestre.

Castro indica, entretanto, que o aquecimento de origem urbana só se reflete nas temperaturas mínimas. E que desde 1980 estas evoluíram paralelamente às temperaturas máximas, que não são de origem urbana. "Portanto, se há um efeito de origem urbana nas medidas do aquecimento da superfície terrestre, é muito pequeno." De modo que, mesmo que as acusações dos climacéticos fossem certas, o fundo da questão não teria muita substância.

 

Miguel Ángel Losada, da Universidade de Granada, é um cientista muito crítico de uma das conclusões mais importantes do último relatório do IPCC: que a principal causa do aquecimento global são as emissões de CO2 e demais gases do efeito estufa. Apesar disso, não vê o menor indício de más práticas nos cientistas de East Anglia.

"Não há nenhum truque na apresentação dos dados por Jones e sua equipe", diz Losada, referindo-se à mensagem eletrônica de Jones que causou escândalo ("Acabo de completar o truque de Mike..."). "Os pesquisadores jogam com os dados para ver como o modelo responde; isto não só é boa prática científica como é imprescindível em um sistema tão complexo quanto o clima." Losada explica que as conclusões do IPCC sobre o aquecimento da superfície terrestre se baseiam em milhares de dados obtidos em condições diferentes. É exatamente o fato de algumas estações estarem perto das cidades e outras não o que força a dar peso diferente a uns dados ou outros. E isto não é feito de forma arbitrária, mas com técnicas estatísticas muito consolidadas. Não há truque no mau sentido.

Michael Schlesinger, climatologista da Universidade de Illinois, disse na quarta-feira ao "El País": "O pior que poderíamos fazer é tomar um esfriamento natural em curto prazo por uma refutação de que a Terra está se aquecendo em longo prazo devido à atividade humana. E que isto nos levasse a abandonar o principal objetivo, que é superar a era dos combustíveis fósseis assim que a economia o permita". Schlesinger acrescenta que renunciar a essas políticas "deixaria um legado de aquecimento global para nossos filhos, nossos netos e muitas outras gerações, que provavelmente não poderão revertê-lo e pelo que provavelmente não poderão nos perdoar".

As incertezas fazem parte de qualquer atividade científica, ainda mais em um sistema com tantas variáveis quanto o clima. Por exemplo, alguns cientistas - entre eles o próprio Schlesinger - discordam do IPCC em que, segundo eles, a corrente do Golfo será uma das primeiras vítimas do aquecimento global. A razão é o degelo das calotas polares e dos glaciares da Groenlândia, que vertem torrentes de água doce no Atlântico Norte. A salinidade da água ali é necessária para que a água superficial da corrente do Golfo (que procede de zonas tropicais) afunde e volte a viajar até os trópicos sob a superfície do Atlântico, fechando o ciclo.

Schlesinger acredita que o comportamento futuro da corrente do Golfo dependerá do ritmo de fusão da camada de gelo da Groenlândia. "O bloqueio da corrente do Golfo foi considerado até agora um fato de grandes consequências, mas escassa probabilidade", disse. "Mas nossa análise, inclusive descontando as incertezas, indica que se trata de um acontecimento de grandes consequências e alta probabilidade."

Segundo os resultados de Schlesinger, a camada de gelo da Groenlândia não sobreviverá ao terceiro milênio, "ou não muito, segundo o futuro cenário de controle das emissões que se escolha".

A Nasa publicou em 2004 medições por satélite que apoiavam a tese de que o fluxo da corrente do Golfo pode ter diminuído em consequência do degelo. "O sistema de circulação oceânica do Atlântico Norte enfraqueceu notadamente nos últimos anos 90 em relação às duas décadas anteriores", concluiu na revista "Science" a equipe do Centro de Voos Espaciais Goddard da Nasa. "Ignoramos se essa tendência faz parte do ciclo natural ou se deve a fatores relacionados ao aquecimento global."

Mas os dados da Nasa foram muito discutidos por outros cientistas do clima. A posição do IPCC em seu último relatório é que não cabe falar no "bloqueio" da corrente do Golfo em um prazo previsível. Poderia ocorrer um "enfraquecimento" de seu fluxo, mas "inclusive nos modelos em que a corrente do Golfo enfraquece a previsão continua sendo de que a Europa se aquecerá".

Mas outras discrepâncias recentes se movem no sentido contrário ao desejado pelos climacéticos. Por exemplo, os climatologistas acreditavam até o ano passado que todo o planeta estivesse se aquecendo, com exceção da Antártida, e que a maior parte desse continente estivesse se esfriando. Mas cientistas da Nasa e da Universidade de Washington mostraram, combinando os dados de satélites e estações em terra, que não é assim. Nos últimos 50 anos, a Antártida esteve se aquecendo a um ritmo parecido com o do resto do mundo,. "Mas as pessoas estavam calculando de cabeça", explicou então Eric Steig, diretor do Centro de Pesquisa do Quaternário da Universidade de Washington. "Nós fizemos as matemáticas com cuidado, em vez de usar o verso de um envelope, e acrescentamos os dados do satélite." Com isso, resulta que a Antártida ocidental esteve se aquecendo 0,1 grau por década desde 1957, ou 0,5 grau em média nos últimos 50 anos.

As polêmicas e as hipóteses refutadas são cotidianas na ciência. Falar de truques em um e-mail não é provavelmente a melhor forma de apresentá-las ao público. Será preciso procurar outras.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,22
    3,142
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,67
    70.477,63
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host