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06/02/2010

Terremoto no Haiti deixa eleições presidenciais no ar

El País
Francisco Peregil
Enviado especial a Porto Príncipe

A Constituição obriga a realizar votações para as quais não há recursos

Os haitianos deverão eleger nos próximos meses entre o mal e o pior. Terão de decidir se são capazes de manter a convocação das eleições presidenciais previstas para novembro próximo, com tudo o que isso acarreta quanto a gastos de organização, campanha e infra-estruturas das quais o país não dispõe, ou se preferem prorrogar o mandato de um político em queda livre. Haviam sido marcadas para este mês eleições no Parlamento e de um terço do Senado. Essa votação ficou adiada sem data, mas cabe a possibilidade de que se realize junto com as eleições presidenciais em novembro.

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Alguns analistas temem que o presidente se sinta tentado a prolongar sua gestão. Mas seus colaboradores mais próximos garantem que não o fará. A ministra da Comunicação, Marie Laurence Jocelyn Lassegue, indica que uma prorrogação do mandato seria ilegal e, portanto, "impensável". Além disso, o terremoto veio desgastar ainda mais a imagem do presidente, René Préval, que a população considera um homem pusilânime, que não está à altura da situação.

Três semanas depois da morte de mais de 200 mil pessoas, Préval quase não saiu da delegacia do aeroporto onde situou a sede do governo. Prometeu que transferiria seu gabinete para uma tenda situada nas imediações do palácio presidencial, em solidariedade com as pessoas que perderam suas casas. Mas ainda não se mudou. Também não visitou qualquer acampamento de desalojados, nem qualquer praça ou rua das muitas onde centenas de famílias dormem ao relento.

A Constituição do Haiti, de 1987, prevê que nenhum presidente pode governar durante dois mandatos consecutivos nem se apresentar para um terceiro mandato. Préval é o que nos EUA se conhece com "pato manco", alguém que já não pode ser reeleito e está condicionado pela urgência de seu cargo. Assim que caberá a outra pessoa levantar o país.

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Michèle D. Pierre-Louis, a política de maior prestígio fora do Haiti, já passeou nos últimos dias pelos grandes canais de televisão americanos. Essa economista de 61 anos pertenceu à mesma célula esquerdista de Préval quando ambos lutavam contra a ditadura de François Duvalier. Foi primeira-ministra do Haiti durante mais de um ano, até sua destituição em novembro passado. Além disso, é diretora de uma ONG financiada pelo multimilionário George Soros, que promove programas educativos e goza de uma imagem de pessoa honesta, fora e dentro do país. "Mas ela desprezou o presidente, cuidava mais de manter sua amizade com os Clinton do que em se dar bem com Préval", indica o jornalista George Michel.

O Senado votou a destituição de Michèle D. Pierre-Louis sob a acusação de que não havia justificado o gasto de US$ 195 milhões (cerca de R$ 370 milhões). "Aquilo foi uma calúnia", salienta um diplomata europeu sob a condição do anonimato. "O único erro que Pierre-Louis cometeu foi o de não ter habilidade suficiente para não despertar o ciúme de Préval. E isso um político precisa saber manipular. E a comunidade internacional cometeu o erro de enamorar-se demais dela: é muito inteligente, progressista, mulher e, além disso, lésbica, mas teve que desmentir isso em público para continuar mantendo opções políticas neste país. Mas esse fascínio da comunidade internacional Préval não soube digerir e a afastou."

Préval ganhou suas primeiras eleições (1996-2001) com 88% dos votos e uma abstenção de 75%. Contava então com o apoio de seu carismático mentor, o ex-padre salesiano Jean-Bertrand Aristide. Quando voltou a se candidatar em 2006, sem o apoio de Aristide, venceu só com 48%. Na teoria, Préval deveria ter concorrido em um segundo turno, mas o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu que lhe dessem a vitória para evitar uma onda de violência e os gastos de outras eleições. Desde então o país só pode se gabar de não ter derramado mais sangue. O preço da estabilidade foi a pobreza em que vive a maioria da população. E nestas condições chegou o terremoto.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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