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09/02/2010

Acordo entre emissoras de tv e Liga Espanhola de Futebol esvazia os estádios e causa polêmica na Espanha

El País
Amaya Iríbar

A Liga Espanhola é cada vez mais um espetáculo televisivo, para o lar ou para os bares, enquanto diminui a participação nos estádios. O horário nobre empurra os jogos até a meia-noite

Se seu parceiro é louco por futebol, prepare-se. No que resta da temporada na Espanha só haverá oito dias sem partidas na televisão. Entre Liga e Copa do Rei, Liga dos Campeões e Liga Europa, o calendário se aperta até a exaustão para os jogadores e, segundo alguns, até a saturação para o espectador. E quando acabar a temporada, depois de um recesso de algumas semanas, a partir de 11 de junho se realizará a Copa do Mundo da África do Sul, o grande evento desportivo do ano, que reunirá milhões de pessoas diante do televisor.

  • EFE/Ballesteros - 06.jul.2009

    O jogador português Cristiano Ronaldo, 24, brinca com bola durante sua apresentação oficial como novo jogador do Real Madrid, no estádio Santiago Bernabéu, em Madri (Espanha). Apesar dos investimentos milionários dos clubes espanhóis, as transmissões dos jogos da Liga Espanhola pela TV estão cada vez mais tarde, contribuindo para o esvaziamento dos estádios e o excesso de jogos transmitidos pelas emissoras locais durante toda a semana

Esse calendário eterno é o resultado do acordo entre a Liga de Futebol Profissional (LFP) e a federação de estender a jornada até segunda-feira (e a sexta-feira para a Segunda Divisão). Mas da agitação do primeiro dia, das queixas dos que detestam o futebol e o comparam a "tele-lixo" e dos que temem que seu informativo noturno de rádio fique reduzido para sempre à expressão mínima, alguns dias depois só restam resmungos em alguns clubes, uma tímida satisfação na hotelaria e a constatação de uma clara tendência nos últimos anos: o futebol se joga cada vez mais nos bares e nas salas de estar, e menos nos estádios.

  • Paul White/AP

    O jogador brasileiro Kaká, uma das grandes estrelas da Liga Espanhola de Futebol, durante vitória do Real Madrid sobre o Rosenborg, no estádio Santiago Bernabéu, em Madri, Espanha, em 24 de agosto. O Real Madrid venceu o Rosenborg pó 4 a zero, mas a bilheteria de um dos maiores clássicos do futebol espanhol já não é mais o mesmo, graças aos acordos de transmissão pela TV e o calendário dos vários campeonatos europeus de futebol

Desde 2005-2006 a participação nos campos espanhóis baixa suavemente a cada ano - 100 mil espectadores por período - e um pouco mais bruscamente no último exercício (300 mil), segundo dados da LFP. Sem ver o efeito do novo projeto milionário do Madrid, com o mega-midiático Cristiano Ronaldo à frente, na última temporada passaram pela bilheteria 9,3 milhões de espectadores, meio milhão a menos que nas quatro anteriores. Isso significa que pouco menos de 250 mil torcedores, quase 80% deles sócios de algum clube, pegam todos os fins de semana seus uniformes e vão apoiar sua equipe no estádio, o que parece pouco, comparado com os 3 milhões de lares assinantes de canais televisivos que têm entre sua oferta o futebol. Ou com os 8,73 milhões de aficionados que viram pela TV o Barça-Madrid do ano passado, a partida mais vista da temporada.

"Não estamos muito preocupados com a queda do número de espectadores que vão ao campo", garante um porta-voz da Liga, reconhecendo que a decisão é econômica. "Precisamos estar sempre procurando fórmulas que permitam uma melhor exploração. É bom para todos. Para as televisões, que terão mais horários; para os clubes, que conseguirão que seus direitos televisivos valham mais, e para os torcedores, que terão mais oportunidades de ver seus times."

Gerardo González Movilla, presidente da Associação de Futebolistas Espanhóis (AFE), também vê isso como uma oportunidade: "Os jogadores terão os mesmos dias de descanso, e servirá para potencializar a Segunda Divisão e os clubes mais modestos da Primeira. O único inconveniente pode ser que diminua o deslocamento de torcedores ou a assistência nos estádios". A experiência não é nova. Em 1996, a Antena 3 já experimentou o futebol nas segundas-feiras sem muito sucesso. A diferença agora é que as transmissões serão pagas. "Isso faz que tenha menos impacto na assistência nos estádios e permite que as televisões, que pagaram muito dinheiro, arrecadem um pouco mais", diz Sandalio Gómez, do Center for Sports Business Management.

Entre os que aplaudem o "quanto mais futebol melhor", também estão os bares. "Depende da partida, mas com um Madrid-Barça ou uma boa partida da Champions, podemos dobrar o caixa", afirma o encarregado de uma cadeia de irlandeses em Madri. Há várias chaves, claro. Que a partida não seja transmitida em aberto é a primeira, porque se for assim muita gente prefere vê-la em casa. "Se é em 'pay per view', uma partida normal pode aumentar o negócio em torno de 20%."

Os bares viram a oportunidade e cada vez mais investem em telões e promovem entre seus clientes quase qualquer evento esportivo. "Não é uma coisa só das grandes cidades. O futebol se transformou em um fenômeno televisivo, mais que de estádio, e cada vez mais gente prefere vê-lo em um bar, e não porque não possa fazê-lo em casa, mas porque é um fato social", diz José Luis Guerra, adjunto ao presidente da Federação Espanhola de Hotelaria. "O de segunda-feira também não vai acertar nossa vida porque, como sabemos, a atração das partidas não é muito grande, mas é uma boa notícia", acrescenta.

E ainda mais em tempos de crise. A entidade patronal da hotelaria calcula que o movimento do setor, que reúne cerca de 250 mil estabelecimentos, caiu 14% em dois anos, desde que começou a crise, e que enquanto os restaurantes, sobretudo os de comida rápida, mantêm um pouco o ritmo os bares se afundam ainda mais.

  • AFP/LLUIS GENE

    Torcedores do Barcelona festejam título do Campeonato Espanhol 2008/2009, em Barcelona

Os horários de trabalho também foram contra os estádios e a favor dos bares. Na Espanha o futebol é jogado muito tarde em comparação com outras ligas europeias, porque o horário nobre na televisão manda. Mas se os torcedores já se acostumaram a entregar seus sábados ao entusiasmo desportivo - a última partida é às 22h - e domingos - a jornada começa às 17h e termina por volta de 23h -, não está tão claro que estejam dispostos a fazê-lo na segunda-feira (os encontros também serão às 21h), ainda mais se houver crianças no meio. A Copa e algumas jornadas da Liga que se realizaram durante a semana podem ser uma referência, com muitos estádios com as arquibancadas mais vazias que de costume.

Por isso alguns clubes, embora tenham votado em peso a favor do jogo na segunda-feira, também não acham muita graça na mudança e rezam para que não caiba a eles jogar no primeiro dia da semana (em princípio jogarão no máximo duas partidas até o final da temporada).

Junto com os direitos de televisão e a venda de camisetas e outros merchandisings, a bilheteria continua sendo uma fonte chave de receita. E, tirando os grandes que têm lista de espera para se associar, a classe média do futebol está há anos à caça de sócios, com campanhas mais ou menos agressivas, enfocadas em públicos específicos - o Racing, por exemplo, fez uma para captar mulheres, e o Espanyol conseguiu aumentar em 20% seus abonados neste semestre - para aumentar as receitas na bilheteria.

Mas a televisão manda. Com os milhões comprometidos com os clubes, as redes querem amortizar esse investimento. E quanto mais janelas tiverem para atrair novos assinantes, e os que já têm paguem um pouco mais, melhor. Mesmo que seja com um Tenerife-Mallorca, a primeira partida programada para uma segunda-feira, 15 de fevereiro.

A tendência a estender o futebol ao longo da semana também não é única da Espanha. A Inglaterra está há anos nesse caminho (inclusive no Natal), e nesta temporada o futebol alemão deu uma virada. Se antes o grosso da jornada da Bundesliga era disputado no sábado às 15h30, agora há jogos às sextas, sábados e domingos. A mudança se explica por razões televisivas, como abrir o mercado asiático, e embora tenha havido certa resistência "o futebol se revitalizou e aumentou o número de torcedores em campo", afirma um jornalista alemão. Na Espanha as arquibancadas se ressentem, mas, como no resto dos países aficionados, o futebol é um ingrediente a mais na oferta televisiva. Como o são os filmes e as séries. Quem não gostar, só precisa mudar de canal.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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