UOL Notícias Internacional
 

12/02/2010

O desafio iraniano

El País
Carlos Mendo

O Irã, em sua corrida incontível para a obtenção da arma nuclear, porá à prova, talvez mais que o Afeganistão, a liderança de Barack Obama. Há um ano, o recém-eleito 44º presidente dos EUA prometia uma política de "mão estendida e não de punho fechado" ao regime iraniano, se conseguisse discutir seriamente o futuro de seu programa nuclear e suspender o enriquecimento de urânio, como exigem nada menos que cinco resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

 

A resposta do Irã foi ignorar olimpicamente o Conselho de Segurança, desprezar o presidente americano e pisar no acelerador em seus esforços para conseguir um urânio suficientemente puro que lhe dê acesso ao armamento atômico. O desafio à comunidade internacional culminou no último fim de semana, com o anúncio do presidente Mahmud Ahmadinejad de que havia ordenado aos técnicos iranianos o início da produção de urânio enriquecido em 20%, em comparação com o índice atual de 3,5 a 5%, suficiente para as necessidades dos reatores civis. Uma decisão que prova mais uma vez a falácia das afirmações do regime teocrático iraniano quando insiste que só pretende desenvolver uma indústria nuclear para usos civis.

Esta última provocação de Ahmadinejad parece ter esgotado a paciência de Obama, que a qualificou de "inaceitável" e prometeu "duras sanções" contra Teerã. França, Alemanha, Reino Unido e Itália, cuja embaixada em Teerã sofreu uma tentativa de assalto na terça-feira, mostraram-se favoráveis à adoção imediata de sanções, como constataram o secretário da Defesa americano, Robert Gates, e a secretária de Estado, Hillary Clinton, em sua recente visita a várias capitais europeias. (Mais uma vez, a UE, com sua atual multidireção, esteve ausente do debate.)

Inclusive a Rússia, farta dos sucessivos desplantes iranianos, parece inclinada a apoiar uma nova resolução do Conselho de Segurança nesse sentido, apesar de seus importantes interesses econômicos no Irã, entre os quais deve-se incluir a construção de um reator para fins civis e a venda de armas, incluindo mísseis terra-ar, por enquanto congelada.

Só a China continua contrária à aplicação de sanções, alegando que poriam em perigo uma futura negociação, como se a via diplomática tivesse conseguido algum resultado positivo. E sem a China, enquanto não se modificar a obsoleta Carta das Nações Unidas em vigor, que atribui aos cinco grandes (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França) o direito de veto no Conselho de Segurança, não se adotará uma nova resolução com sanções verdadeiramente duras para o regime iraniano.

Foi o que se disse repetidamente em Pequim na semana passada, apesar das advertências de Hillary Clinton em Paris de que uma corrida armamentista no Golfo desestabilizaria toda a região e poria em perigo inclusive as vitais exportações de petróleo para a república popular. Porque, além de a China considerar que afinal não é tão ruim para seus interesses que os EUA e seus aliados tenham um problema a mais no Oriente Médio, suas relações com Washington não atravessam exatamente o melhor momento, depois da decisão de Obama de vender a Taiwan armas no valor de US$ 6 bilhões e receber na Casa Branca, antes do fim do mês, o Dalai Lama.

 

O problema de liderança a que me referi antes se apresentará a Obama se não conseguir que o Conselho de Segurança aprove as sanções contra o Irã. Insistirá em seguir adiante com as sanções unilateralmente com a Europa ou, pelo contrário, aceitará uma nova artimanha para ganhar tempo, às quais nos acostumou há anos o regime iraniano? O Senado e a Câmara de Deputados já aprovaram várias resoluções que pedem medidas contra as companhias que vendem gasolina ao Irã ou facilitam a expansão de suas refinarias. (Apesar de sua produção de petróleo, a gasolina está racionada no Irã devido à decrepitude de sua indústria de refino.)

É duvidoso que o governo Obama vá tão longe, porque sanções dessa magnitude prejudicariam a população iraniana mais que a hierarquia do regime, e certamente provocariam a rejeição do movimento de oposição ao atual governo, cuja força e penetração na sociedade crescem dia a dia. Difícil missão para Obama, obrigado pela opinião pública, própria e alheia, a não retroceder diante da nova chantagem iraniana.

Enquanto Teerã anuncia no plano militar a construção de dois novos modelos de mísseis de médio alcance e de aviões não tripulados, Israel aguarda as novas sanções com ceticismo, diante da eficácia que tiveram as anteriores.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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