UOL Notícias Internacional
 

13/02/2010

Corrupção enfraquece o governo dos Kirchner

El País
Pedro Cifuentes
Em Mendoza (Argentina)

A popularidade da presidente argentina cai para 20%

Não há lugar para a compaixão na política argentina. Na segunda-feira passada, enquanto o ex-presidente Néstor Kirchner se recuperava de uma intervenção urgente em um hospital de Buenos Aires, a deputada de oposição Margarita Stolbizer espetou que Kirchner se parece tanto com o ex-presidente Carlos Menem que ambos acabaram sofrendo os mesmos achaques.

  • 18.06.2008 - AFP

    A presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, acenam para simpatizantes durante manifestação de apoio ao governo em 2008

Nessa mesma manhã, no popular programa que conduz na Rádio Continental, o jornalista Victor Hugo Morales manifestou sua comoção diante das dezenas de mensagens que os cidadãos tinham deixado na secretária eletrônica da rádio, felicitando-se pelo acidente vascular do ex-presidente e desejando-lhe inclusive um desenlace fatal. Dois dias depois, o ex-corredor de Fórmula 1 e ex-governador de Santa Fe Carlos Reutemann, peronista, até há pouco correligionário de Kirchner, deixou a seguinte pérola sobre o casal K: "Nós, argentinos, ficaremos contentes se quando eles saírem, em 2011, não tiverem roubado a Casa Rosada e a Praça de Maio".

Estas são apenas três demonstrações do crescente cansaço de um setor cada vez maior da sociedade argentina com um governo de discurso progressista, o de Cristina Fernández de Kirchner, que assumiu o poder em 2007 com a promessa de distribuir a riqueza do país e lutar contra a corrupção enquistada. O desprestígio do casal presidencial cresce a cada semana, na medida em que se acumulam denúncias e escândalos de suposto enriquecimento ilícito que ameaçam obscurecer suas iniciativas políticas.

"Há uma visceralidade muito chamativa que se explica pela grande frustração de expectativas nas classes médias", explicou ontem a socióloga Graciela Römer, para quem o "erro garrafal" do governo é "aguçar o mal-estar, em vez de reconhecer seus erros e estender pontes com a opinião pública".

Estado de Nestor Kirchner é bom após a cirurgia vascular

A presidente acusou repetidamente os meios de comunicação de orquestrar um complô informativo contra ela, mas o repúdio ao aumento constante de seu patrimônio (que se multiplicou por sete desde 2003) influi em seu notável declínio de popularidade, que hoje é de apenas 20%.

Na semana passada soube-se que Néstor Kirchner comprou US$ 2 milhões (cerca de R$ 3,7 milhões) em outubro de 2008 para adquirir um hotel em El Calafate, localidade turística de Santa Cruz, a província na Patagônia onde ele nasceu e que governou entre 1991 e 2003. A operação, denunciada na justiça pela opositora Coalizão Cívica, sofreu a condenação moral da Argentina porque se suspeita que o ex-presidente utilizou informação privilegiada para fazer essa compra e venda de moeda.

Chove no molhado: a querela soma-se às que já faz tempo acusam os Kirchner e seu entorno familiar de ter obtido ilegalmente lucros em El Calafate pela venda de solo público "rezoneado" que tinham adquirido a um preço dez ou 15 vezes menor ao de mercado. Os quatro secretários particulares que assistem à presidente também são investigados por suposto enriquecimento ilícito, devido a aumentos patrimoniais comprovados que vão de 750% a 11.000% em cinco anos (um deles, Fabián Gutiérrez, se demitiu na semana passada). Nesta mesma semana soube-se que o ex-secretário do Transporte, Ricardo Jaime, e o atual titular da área, Juan Pablo Schiavi, serão interrogados por um juiz por suposto suborno (aceitar viagens em aviões de aluguel pagos por empresas do setor).

Em outro caso de grande repercussão, o governo teve de admitir há dois meses, depois de negá-lo durante mais de dois anos, que Guido Alejandro Antonini Wilson, o empresário venezuelano-americano que trouxe em agosto de 2007 uma maleta com US$ 800 mil (cerca R$ 1,5 milhão) para supostamente financiar a campanha de Cristina Kirchner, esteve na Casa Rosada e se reuniu com membros do entorno do casal presidencial.

Muitos partidários de Cristina temem que a corrupção oculte alguns êxitos do Executivo, quando falta apenas um ano e meio para as eleições presidenciais. Martín Sabatella, figura emergente da política nacional e presidente do bloco Novo Encontro - aliado do kirchnerismo no Parlamento -, pede ao governo que reconheça os "erros" para defender os "passos positivos" do Executivo em termos de renovação judicial, direitos humanos ou a cota universal por filho, um subsídio recém-aprovado para desempregados e famílias de baixa renda.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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