UOL Notícias Internacional
 

17/02/2010

"Se a Grécia aceitasse dinheiro do FMI, uma parte seria nossa, da China e da Rússia", diz Amorim

El País

Celso Amorim é a voz do Brasil da era Lula no exterior. Aproveitou a popularidade do presidente do Brasil e sua experiência como representante brasileiro perante a OMC (Organização Mundial de Comércio) durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso para lançar o gigante sul-americano na liga das grandes potências emergentes. O G-20 original, capitaneado pelo Brasil, pela China e pela Índia nasceu no seio da OMC e hoje é o grupo de referência para as grandes decisões mundiais.

A política externa brasileira, respaldada por seu êxito econômico, ajudou o país a entrar no páreo de um possível posto no Conselho de Segurança da ONU, a formar um grande bloco político sul-americano (Unasul), a conseguir uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, a deixar de receber e passar a dar dinheiro ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e a ter muito o que dizer na cúpula do clima de Copenhague. Entretanto, as crises de Honduras e do Haiti, onde os Estados Unidos ditaram o passo, semearam muitas dúvidas sobre até onde o Brasil está disposto ou quer exercer seu papel de líder mundial. Por outro lado, o poder brasileiro desperta certa desconfiança na América do Sul, como demonstraram os atritos por razões econômicas com a Bolívia, o Equador e o Paraguai.

El País: Em Honduras os golpistas venceram, e no Haiti desembarcaram os fuzileiros para dividir a ajuda. Não acha que em ambos os casos a poderosa diplomacia brasileira foi tímida?

Celso Amorim: Nós estamos no Haiti. Não podemos competir com a CNN, que mostra mais o ex-presidente Bill Clinton do que o comandante brasileiro encarregado da segurança do país. Seria um erro pensar que são os EUA que estão resolvendo a crise no Haiti. As forças americanas estão ajudando diante de uma emergência, como todos. Não é uma competição. O Brasil já decidiu aumentar suas forças de 2.200 para 2.600 efetivos. Eu já visitei o Haiti, e Lula vai ao país no dia 25. Queremos respaldar o papel do governo haitiano. Ele não somente deve estar à frente das coisas, como deve parecer que está, é importante que as pessoas vejam isso. Temos um projeto com o Chile para construir uma sede, de forma que o governo do presidente René Préval tenha onde trabalhar de forma conjunta. Uma vez terminados os trabalhos de emergência, o melhor é que permaneçam somente as forças da ONU. Quanto a Honduras, ali fizemos o que achamos que deveríamos fazer, alinhados com as decisões da OEA. O diálogo não resultou naquilo que queríamos, no que toda a América Latina queria, a volta de Zelaya ao poder.

El País: Reconhece a presidência de Porfirio Lobo?

Celso Amorim: o Brasil não reconhece governos, e sim Estados. Não se trata de reconhecimento, mas sim de intensificar a relação. Mas há duas questões. A primeira é uma questão de decência. Os golpes de Estado na América Latina são algo grave, e não se pode passar uma borracha nisso. Por outro lado, o processo de reconciliação não está fechado, e uma boa medida seria permitir que (o presidente deposto Manuel) Zelaya pudesse voltar a participar da vida política em seu país.

El País: Haverá um acordo de livre comércio União Europeia-Mercosul para a cúpula de maio em Madri?

Celso Amorim: Para maio creio que podemos ter as bases de um acordo comercial com cifras, incluindo detalhes em algumas áreas. Algumas questões já estão decididas desde 2005, mas naquela época a UE queria primeiro terminar as negociações para uma maior liberalização do comércio mundial, iniciadas em Doha, e fechar logo o acordo com o Mercosul. Isso mudou. Com a crise e a paralisação da Rodada Doha, cerca de 60 ou 80% do que se deseja tem mais valor hoje do que alguns anos atrás. Dificuldades como o sistema de subsídios agrícolas europeu continuam existindo, mas podemos chegar a um acordo deixando de lado problemas como este, que devem ser resolvidos no contexto da OMC.

El País: O vice-ministro uruguaio das Relações Exteriores, Nelson Fernández, declarou recentemente que o acordo será fechado em dois anos...

Celso Amorim: Creio que estará pronto antes.

El País: Não teme que as diferenças dentro do Mercosul destruam o acordo?

Celso Amorim: É verdade que temos problemas no Mercosul, como o imposto externo comum. Mas acredito que justamente a negociação com a UE nos ajudará a resolver essa questão com a Argentina.

El País: O senhor acredita que a aliança do Brasil com outras potências emergentes pode prejudicar a relação com os vizinhos sul-americanos?

Celso Amorim: De forma alguma. O Brasil é grande, mas não o suficiente, ele precisa da integração com a América do Sul. A Unasul (União das Nações Sul-Americanas) conseguiu que problemas sérios não terminassem em um conflito, como aconteceu em outras épocas (Amorim se refere à mediação, sobretudo brasileira, para evitar um conflito entre a Colômbia e a Venezuela ou um confronto interno na Bolívia). A Unasul é importante, e o Mercosul... Mas também queremos intensificar nossas relações com a China, a Rússia, a Índia e a África do Sul. Não somos só exportadores de matéria-prima. Hoje o Brasil produz aviões na China e a Índia fabrica medicamentos em nosso país. Existe um impulso para que o sistema de governabilidade mundial mude. O G-20 substituiu o G-8. Em temas de segurança acontecerá o mesmo. A reforma do Conselho de Segurança acabará acontecendo, e também nos organismos de supervisão financeira. O FMI já está mudando. O Brasil, a Rússia, a Índia e a China contribuem com fundos para o FMI. Dez anos atrás dependíamos do que o FMI dava, e agora lhe emprestamos dinheiro. Se a Europa tivesse permitido que a Grécia aceitasse dinheiro do FMI, uma parte seria nossa, da China e da Rússia.
 

Tradução: Lana Lim

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