UOL Notícias Internacional
 

19/02/2010

Irã caminha para a ditadura militar

El País
Lluís Bassets

O cerco diplomático a Teerã agora busca a mudança de regime

Hillary Clinton descobriu a "sopa de alho", o óbvio: o Irã caminha para a ditadura militar. Segundo a secretária de Estado americana, o poder está se deslocando em detrimento dos aiatolás, empurrados pela Guarda Revolucionária, a ponto de ela ter feito um apelo aos "líderes religiosos e políticos para que recuperem a autoridade que devem exercer em benefício do povo".

Tudo soa bastante estranho. O Irã é uma ditadura, na qual a dissidência se paga com a prisão ou a execução. Transformou-se também em uma ditadura militar, sobretudo depois da longa guerra com o Iraque (1980-1988), que significou a promoção de toda uma casta guerreira, transformada na elite decisiva em todas as ordens da sociedade khomeinista, na mesma linha em que o foram os partidos comunistas nos regimes socialistas.

  • 16.02.2010 -Raheb Homavandi/Reuters

    O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, durante conferência em Teerã; para colunista do "El País", o país vive uma ditadura, "na qual a dissidência se paga com a prisão ou a execução"

A que vem então essa súbita denúncia do perigo de uma ditadura, onde não havia nem mais nem menos que uma ditadura, militar, é claro?

Clinton não é uma professora de ciência política. Tal como indicou um editorial do "Le Monde", "não estava realizando um exercício acadêmico de tipologia dos regimes políticos". O general David Petraeus, que tem a seu encargo toda a região onde se encontra o Irã, indicou nestes dias que o país persa está evoluindo de uma teocracia para uma cleptocracia, do governo dos teólogos para o governo dos ladrões. Os ladrões são os Guardiões da Revolução, naturalmente, a casta privilegiada composta por cerca de 125 mil homens cujos generais constituem a burguesia do regime, pois têm em suas mãos desde os recursos econômicos até o programa de enriquecimento nuclear que fez disparar todos os alarmes internacionais e sobretudo dos países vizinhos.

O ensaísta iraniano exilado Amir Taheri lembrou nesse sentido o esquema clássico do califado: primeiro alcança o poder, através de uma legitimidade que se supõe divina, o descendente ou representante do profeta; e afinal fica nas mãos dos mamelucos, mercenários detentores do governo efetivo através das armas, que tiram proveito material de seus privilégios ("A emergente ditadura militar iraniana", em "The Wall Street Journal", 17 de fevereiro).

É evidente que o regime se encontra em um momento de mudança, uma involução ou endurecimento diante do movimento de protesto provocado pela enorme fraude eleitoral organizada nas eleições de junho passado. O que mais surpreende é a resistência admirável da oposição, que ainda não amainou, apesar da duríssima repressão que está sofrendo. Uma das chaves de todo esse assunto é que a mão repressora também se abate sobre dirigentes que se afastaram do regime, e pode golpear inclusive parentes de Khomeini. Nada do que acontece é desconhecido para os que se dedicaram a observar todo tipo de ditadura: não esqueçamos a metáfora, cunhada durante o Terror, em plena Revolução Francesa, sobre Saturno que devora seus filhos.

Barack Obama começou seriamente sua ofensiva iraniana. Mas não abandonará sua mão estendida e desprezada por Ahmadinejad. Embora nunca se exclua totalmente, a resposta militar não está no horizonte como aconteceu com Bush, que impôs como condição prévia para qualquer conversa a paralisação do programa de enriquecimento de urânio.

A atual ofensiva é, sobretudo, diplomática: trata-se de construir uma ampla política de alianças que isole o regime na região e permita aprovar uma quarta rodada de sanções da ONU. Trata-se também de dirigi-la ao próprio interior da sociedade iraniana: de forma que as sanções não prejudiquem o conjunto da população e encurralem Ahmadinejad. Para isso, nada mais eficaz que indicar quem são os autênticos inimigos a abater, os Guardiões da Revolução, e favorecer em troca os reformistas.

No Irã, como na Espanha há 40 anos, há uma ditadura com radicais e com evolucionistas. Por isso, os que querem derrubar a ditadura indicam o perigo redundante de que o Irã caia em uma ditadura.

Bush não descartava atacar o Irã. Seu mau exemplo com o Iraque, atacado com a desculpa das armas de destruição em massa sem tê-las, levou o Irã a acelerar seu programa de armas de destruição em massa, para não ser atacado. Obama quis dialogar e convencer o Irã a entrar na cooperação internacional, obtendo a resposta que se viu: nada de conversas e novos desafios sobre o programa nuclear. Por isso a notícia agora é que Washington optou diretamente por favorecer a mudança de regime.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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