UOL Notícias Internacional
 

19/02/2010

Resistência iraniana recua

El País
Ángeles Espinosa
Em Teerã

Acossada pelo regime, oposição deixa as ruas para lutar na Internet

O regime iraniano se apressou a cantar vitória. A passagem sem distúrbios do 31º aniversário da revolução, na última quinta-feira (11), foi, nas palavras do líder supremo, Ali Khamenei, "uma lição para os inimigos internos e uma decepção para os que pretendem representar o povo". Depois do sucesso dos protestos anteriores, as expectativas eram tão altas que até os opositores sentiram desânimo. Mas, longe de retrair-se, começaram um debate sobre o que falhou e como seguir em frente, mesmo com a crescente repressão.

Manual de clandestinidade
no Twitter e YouTube

Farzaneh olha para os dois lados da rua antes de abrir a bolsa. Então, com a rapidez que confere a prática, tira um punhado de pequenos papéis e deixa que o vento os leve enquanto se dirige para a academia. Na noite anterior, e inclusive esta manhã durante o desjejum, ela rasgou várias páginas nas quais escreveu "Morte ao ditador" ou o nome do líder de oposição Mir Hosein Mousavi. "Quando saio, me dá um grande prazer vê-los espalhados por toda a área", confia em voz baixa.

Seu gesto, que embora inocente não deixa de ser arriscado, é um dos recursos dos iranianos diante da repressão.

De fora pode parecer fútil, mas, confrontados com a impossibilidade de se manifestar de forma pacífica, os iranianos procuram formas alternativas de expressar seu descontentamento. "É verdade que não temos um líder, mas isso não significa que estejamos descoordenados", afirma Farzaneh (nome fictício). De fato, em conversas mantidas com vários jovens simpatizantes da oposição, os marcos de referência coincidem. Todos citam vários sites da web onde se debatem as notícias do dia ou se votam os artigos mais apreciados, e vários dissidentes, tão distantes do governo de Teerã quanto do exílio monárquico ou dos mujahedin jalq, que até agora eram as únicas vozes iranianas no exterior.

Quem são essas figuras de referência? Masoud Behnoud, um proeminente jornalista e historiador que teve de exilar-se em 2002 por causa da perseguição judicial e das ameaças de morte; Ebrahim Nabavi, um escritor satírico também exilado, e os dois Mohsen, o diretor de cinema Mohsen Makhmalbaf e o ex-fundador da Guarda Revolucionária Mohsen Sazegara.

Esse ex-oficial da Guarda Revolucionária, que evoluiu para o reformismo, abandonou o Irã depois de sua detenção em 2003 e emite toda noite um vídeo de dez minutos que inclui desde instruções para evitar ser identificado nas manifestações até propostas de desobediência civil. E são exatamente suas técnicas de protesto pacífico que estão lhe dando popularidade.

Sazegara publica sua gravação no YouTube e a divulga através do Facebook, Twitter e diversas listas de distribuição, inclusive em versões adaptadas para a baixa velocidade das conexões iranianas. Com um enorme V de vitória na parede de seu estúdio improvisado, Sazegara aconselha que, "diante de uma grande presença policial, os manifestantes se dividam em pequenos grupos". Também lançou muitas das ações simbólicas e propôs utilizar as comemorações oficiais para expressar a reprovação ao regime.

"Não devemos deixar de sair à rua, mas deveríamos buscar outras vias de contestação", reflete Maryam M., uma jovem profissional muito comprometida e que mantém a esperança. O desafio é encontrar uma alternativa que consiga reunir os descontentes. O chamado movimento verde, que agrupa desde reformistas do sistema até liberais laicos, tem em comum apenas a rejeição à reeleição para presidente de Mahmud Ahmadinejad.

Nos últimos oito meses o regime esteve na defensiva contra o movimento popular, que ganhava peso em cada confronto. A grande participação nos protestos de Ashura, em 27 de dezembro passado, foi sem dúvida uma chamada de atenção para as autoridades. Desde então, intensificaram a repressão com uma onda de detenções sem precedentes, novas condenações à morte em mais um julgamento sem garantias e duas execuções, justamente na véspera do aniversário da revolução. A mensagem estava clara e, diante do que ocorreu na quinta-feira, afetou os jovens ativistas.

"Os verdes não conseguiram ganhar visibilidade devido a sua desorganização e ao fato de o governo ter aprendido a enfrentá-los", diz a ativista de direitos humanos Shadi Sadr, no exílio. "Não significa que o movimento esteja debilitado, porque nesse mesmo dia o Facebook e outras redes sociais se encheram de gente que perguntava pelo próximo passo. A oposição está viva, só precisa mudar de estratégia."

Viva e queixosa.
O ciberespaço se encheu de críticas às táticas que os dirigentes do movimento haviam lançado nos dias anteriores ao aniversário. Uma das mais atacadas foi a chamada "cavalo de Troia", que recomendava aos opositores ir à manifestação oficial e ali mostrar os laços verdes que se transformaram em seu símbolo.

"Foi impossível. Os pró-governamentais eram muito numerosos, e poucos de nós conseguimos passar pelos filtros de segurança", relata uma universitária. Ela usou uma foto do líder supremo como salvo-conduto, mas logo se viu sozinha entre as dezenas de milhares de fiéis do regime transportados em ônibus da periferia de Teerã.

"Se todos os seus ativos são as massas que levou às ruas, vindos de tantas cidades de todo o país, devemos ficar contentes. Ganharemos... mais cedo ou mais tarde", interpreta Maryam M.

"Temos de reconhecer a capacidade do sistema para mobilizar as pessoas, seja com presentes ou apelando para a sensibilidade religiosa", aponta por sua vez um professor que, apesar de simpatizante dos objetivos da oposição, vê suas atividades com cautela. Como ele, muitos mostram-se convencidos de que não vale a pena o risco. Inclusive os que defendem o esforço admitem que são corajosos, e não temerários.

"Havia dois basijis [milícia governista voluntária] para cada um de nós", indica Ehsan, um jovem manifestante que, como os demais, usa um nome fictício para proteger sua identidade. Ebrahim Nabavi, um escritor satírico que de seu exílio na Bélgica se transformou em uma das referências da oposição, pediu desculpas no site Balatarin por ter proposto algo impossível diante da presença de forças antidistúrbios, policiais à paisana e paramilitares.

Para os ativistas, essa mobilização de forças constitui um sinal inequívoco do medo que o governo tem do movimento verde. Por enquanto, porém, não constitui uma ameaça existencial para o regime. Como dar esse salto é o eixo de muitas das discussões.

"À diferença do que aconteceu em 1979, a oposição não está usando meios violentos e os militares não se mantêm à margem, que foi o que permitiu que a revolução triunfasse apenas um mês depois de o xá deixar o país", lembra Asieh Amini, uma importante ativista dos direitos da mulher que foi obrigada a se exilar.

Também falta o apoio dos bazaris, a classe comerciante, e das greves que então conseguiram paralisar a indústria petrolífera, a rede elétrica, a rádio-televisão estatal ou as principais fábricas do país. Várias convocações de greve geral não chegaram a se concretizar.

"Se o regime continuar empregando seus métodos brutais, as pessoas podem obrigá-lo a se render? Não podemos saber", admite Amini. Mas, na sua opinião, houve uma mudança fundamental. "Os iranianos demonstraram a grande divisão que existe entre eles como nação e um regime corrupto e violento. Adquiriram uma legitimidade que nenhum ditador jamais poderá conseguir."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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