UOL Notícias Internacional
 

21/02/2010

"Não faço parte do mundo moderno", diz Martin Scorsese

El País
Laura Lucchini
Em Berlim (Alemanha)

Martin Scorsese não parou. Em dez anos realizou seis filmes de gêneros muito diferentes e novos para ele. Em Berlim, acaba de apresentar "Shutter Island", um filme perturbador baseado no romance homônimo de Dennis Lehane, no qual explora o inquietante campo do terror psicológico. Ele chega à entrevista muito bem-humorado. Sorri constantemente e às vezes solta uma gargalhada. Pede um café que não toca. Fala rápido e enfatiza seu discurso com as mãos e com os olhos, que às vezes escancara atrás de seus óculos de armação preta. Aos 67 anos e com uma produção polifacetada, afirma que continua falando do mesmo: sua gente, seu bairro de Queens, as pessoas que encontrou ao longo de sua vida.

  • REUTERS/Christian Charisius

El País: Por que quis explorar um novo gênero?

Scorsese: Por um impacto emocional. Quando terminei de ler o roteiro, o personagem me comoveu tanto que fiquei com lágrimas nos olhos. Nem sequer tinha entendido bem as últimas linhas, não sabia se se tratava de um homem bom ou de um monstro. Voltei a lê-lo e me emocionou ver que sempre parecia ser uma coisa e depois era outra, e depois outra, outra e mais outra. Se eu pudesse conseguir esse impacto e transferir o poder psicológico que havia imaginado para a tela, com os atores, as luzes e a música... tinha certeza de que seria um quebra-cabeça magnífico.

El País: Como conseguiu o delicado equilíbrio que rege esse quebra-cabeça?

Scorsese: Não sei, creio que simplesmente saltamos para dentro. Buscamos a essência, não encontrávamos, então continuamos buscando até que a encontramos. Em alguns momentos me diverti, mas durante a maior parte da filmagem o medo me dominava. Foi perturbador. E a montagem foi inclusive pior.

El País: O senhor ainda se envolve nos filmes que dirige?

Scorsese: Eu acreditava que não mais, mas isso continua acontecendo. De repente comecei a me sentir muito triste pelo sofrimento que cerca essa história. Precisava contá-la. Trata do descobrimento. Qual é a história mais importante do mundo ocidental? Conheça a si mesmo. Creio que existimos para essa busca. Conhecemos a nós mesmos para encontrar a paz. Com nós mesmos e com os demais. Já toquei no assunto em "Touro Selvagem", quando Robert de Niro olha no espelho e pronuncia seu discurso. Nesse momento consegue a paz e certa redenção.

El País: O senhor conseguiu a paz?

Scorsese: Espero consegui-la. Tenho duas filhas mais velhas, de meu primeiro casamento. E agora tenho outra família, com uma filha pequena que acaba de completar 10 anos. Viver com um filho pequeno ajuda muito. E os cachorros também.

El País: Voltemos ao filme. Investiga-se o medo, mas também a perda...

Scorsese: Quando você fica mais velho, há muitas coisas que giram ao redor da perda. Seus amigos começam a morrer. Não há tempo para fazer novos. Sobretudo, aonde irá procurá-los? Os mais jovens não são de seu tempo, não escutaram Elvis Presley em 1953. Talvez o tenham escutado em 2003, mas não há contexto para a discussão intelectual. Quando você fica mais velho, torna-se mais reservado, se tiver uma família se relaciona com a família e tenta fazer bem seu trabalho. Eu não faço parte do mundo moderno, por isso, se a história que vou narrar tem raízes em estilos antigos, abraço esses estilos e se as referências a esses estilos interessarem às pessoas mais jovens, podem ver os originais.

El País: Hitchcock é uma de suas referências?

Scorsese: Hitchcock sempre está presente. Hitchcock, Kubrick e Bertolucci são os diretores que volto a ver de tempo em tempo. Comecei a ver Hitchcock como entretenimento, mas depois descobri algo que tinha a ver com os personagens principais, algo que o fazia sentir-se responsável e o envolvia em coisas que não havia feito. E também sempre me encantou a precisão desse mundo artificial. Eu sou o oposto, minhas raízes têm mais a ver com Cassavetes, mas os movimentos da câmera de Hitchcock expressam sensações. São muito expressivos. Continuo vendo "Um Corpo que Cai" com frequência.

El País: Em uma antiga entrevista publicada no "New York Times", o senhor disse que começou a fazer filmes para falar de sua gente, do mundo em que vivia. Segue essa ideia depois de seus filmes atuais?

Scorsese: Sim, totalmente. Particularmente minha escola. Os professores eram religiosos, dois eram padres, um deles ainda vive, é um ítalo-americano. Quando eu tinha 11 ou 12 anos, ele nos falava, nos conduzia, nos fazia pensar: "Vocês não precisam viver como a maioria das pessoas deste bairro, têm de sair daqui, usar sua cabeça, ler". Continua sendo uma fonte de inspiração para mim na hora de fazer filmes. Depois havia outro nível, o das pessoas do bairro que não eram trabalhadores honestos, mas criminosos organizados, meus amigos. Sempre sentirei atração pelas histórias das pessoas desses níveis sociais, em particular pelos valores do sacrifício e do sofrimento. Se Jesus Cristo tivesse vivido em 1985 em Nova York, não teria vivido na casa do prefeito, mas na 8ª Avenida, entre os viciados em drogas, as prostitutas e os sem-teto, e essa é a sociedade que o rejeitaria. Isso é o que me interessa no cristianismo, e sempre estará presente. Mas depois também conheci mais gente, não só criminosos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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