UOL Notícias Internacional
 

23/02/2010

Como a espionagem israelense matou o líder do Hamas

El País
Juan Miguel Muñoz
Em Jerusalém

Mahmud al-Mabhuh atravessa a porta giratória do hotel Al Bustan Rotana, na opulenta Dubai, às 20h24 do dia 19 de janeiro. O dirigente do Hamas toma o elevador. Sai dele olhando para os lados, costume arraigado nesse homem de 49 anos, que já tentaram matar mais de uma vez. Segue pelo corredor e a câmera de segurança perde seu rastro.

20h27. Dois homens seguem a trilha que o palestino acaba de percorrer rumo ao quarto 230. Dezenove minutos depois, os dois sujeitos voltam rapidamente para o elevador. Outros dois indivíduos, segundos depois. Os quatro usam gorros; provavelmente perucas, e caminham cabisbaixos. Acabam de assassinar Al Mabhuh. "Big Brother" estava lá para captar, pela primeira vez com precisão, uma operação mortal de uma agência de espionagem. "É responsabilidade do Mossad", reiterou no último sábado (20) o chefe de polícia de Dubai, Dhahi Jalfan Tamim.

Durante dez dias, e depois que o gerente do hotel encontrou o cadáver de Al Mabhuh, 17 horas depois de seu assassinato, nada transcendeu. Mas a polícia de Dubai examinava as gravações dos hotéis, dos shoppings, ruas, estacionamentos... Um rastreamento que teve de envolver boa parte de seu plantel para amarrar cabos. As fitas mostram os membros do comando -Michael, Gail, Kevin e James- chegando ao aeroporto de Dubai nos primeiros minutos do dia 19, cada um por sua conta. Seu registros nos hotéis, e como vigiavam na ampla sala do aeroporto durante a chegada da vítima, cinco horas antes de morrer. Os assassinos não tiram o olho do fundador da milícia Hamas nos salões do hotel. Emparelhados, vestem roupa esportiva, de raquete na mão. Disfarçam-se novamente nos lavabos do hotel... Entram junto com Al Mabhuh no elevador... Observam-no na recepção.

"Os membros do comando que mataram Al Mabhuh demonstraram profissionalismo e sangue-frio. Estavam conscientes de que havia câmeras. E o que parecem contratempos - a mudança de disfarce de um deles - eram provavelmente riscos calculados", opina o analista Yossi Melman. É inconcebível que não estivessem sempre maquiados para ocultar qualquer sinal delator. Usam chapéus, sempre óculos. Os nomes usados em seus passaportes são conhecidos, mas seu aspecto físico provavelmente pouco tem a ver com as fotografias divulgadas pela Interpol.

Asfixiado, eletrocutado, envenenado ou uma mistura de tudo isso? Os exames forenses vão esclarecer. Mas ninguém abriga dúvidas, nem em Israel: a marca do Mossad está impressa em um crime que agora salpica em qualquer direção. Nunca será a operação sem pistas que esse serviço secreto adora. Está em todos os círculos, até nos mais inesperados. Diplomatas israelenses brincavam esta semana no Twitter da embaixada em Londres: "Tenista israelense dá um golpe em um alvo em Dubai". Têm justificativa: a tenista Sahar Peer disputava o torneio internacional da cidade.

Os agentes falsificaram passaportes de 11 cidadãos israelenses que ao mesmo tempo têm passaportes de outros países, o que provocou um atrito diplomático com Reino Unido, Irlanda, Alemanha e França. O governo israelense não teme os protestos oficiais de Londres, Paris, Dublim ou Berlim, que no sábado indicou que o documento de Michael Bodenheimer, um dos agentes, é autêntico. A Áustria também é investigada, porque os 18 envolvidos não telefonavam entre si, mas o faziam para números de telefone desse país. E os EUA indagam a utilização de cartões de crédito emitidos por seus bancos.

Na opinião pública árabe há suspeita sobre a conivência dos serviços secretos israelenses com os europeus, por mais que suas chancelarias desmintam. Em Israel preocupa outro assunto: a imposição dos dados biométricos nos passaportes causará problemas consideráveis para o deslocamento dos comandos.

Em histórias desse tom não poderia faltar a figura do traidor. Dois palestinos de Gaza estão nas mãos das autoridades de Dubai. Anuar Sheibar e Ahmed Hassanain eram membros dos corpos de segurança leais à Al Fatah, hoje inimiga encarniçada do Hamas. É fácil que conhecessem bem Al Mabhuh, natural do populoso campo de refugiados de Yabalia, também em Gaza. O movimento islâmico acusou com nomes e sobrenomes: ambos trabalham para Mohamed Dahlan, natural da Faixa de Gaza, ex-chefe dos corpos de segurança desmantelados em Gaza pelo Hamas, famoso pela repressão que desencadeou contra os fundamentalistas há mais de uma década, e o líder político mais detestado pelos islâmicos.

Não são muitos os assassinatos atribuídos ao Mossad ou a comandos militares. E os especialistas se perguntam sobre o benefício dessas aventuras nas quais caem dirigentes de organizações de países árabes crivados de balas, destruídos por explosivos colocados nos veículos, sob um míssil ou asfixiados. O Hamas ou o Hezbollah não estão mais frágeis hoje por terem sofrido essas perdas. O governo israelense nunca confirma nem desmente. Cala-se.

Mas as perguntas brotam. Valia a pena arriscar o uso de passaportes falsificados de países aliados europeus? Era necessário incomodar desse modo Dubai, o único país do Golfo que mantém relações com Israel? A peça era tão cobiçada? Mahmud al-Mabhuh esteve envolvido no sequestro e assassinato de dois soldados israelenses nos anos 1980, e em 1989 emigrou de Gaza para viver em Damasco. Mas Israel lhe atribuía agora o papel de ligação com o Irã para a compra de armas. Sempre só, sem qualquer proteção, Al Mabhuh não se esforçou para preservar sua identidade nem para ser cauteloso. "Reservou sua passagem através da Internet e informou a sua família por telefone sobre o hotel onde se hospedaria em Dubai", admitiu no sábado, o deputado do Hamas Salah Bardauil.

Meir Dagan, o chefe do Mossad - que, segundo opinião unânime, conseguiu que a agência que dirige há sete anos volte a ser vista com temor no estrangeiro, para gozo de seu país, que comemora os golpes contra o inimigo -, também nunca falará. "Entre vocês e eu, de que nos orgulhamos mais, dos tomates-cereja que produzimos aqui ou dos assassinatos?", escreveu com mordacidade o jornalista Gideon Levy. O general Dagan, 32 anos de serviço no exército, duas vezes ferido em ação, é a única pessoa do Mossad conhecida por seu nome e sobrenome - inclusive as identidades de seus primeiros assessores são secretas -, e ganhou a confiança de três primeiros-ministros. Entre os seus infunde respeito (já são quatro os subchefes do Mossad destituídos sob seu mandato). Nos inimigos, algo mais que temor.

 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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