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24/02/2010

EUA preveem uma guerra longa e difícil no Afeganistão

El País
Antônio Cano
Em Washington
  • Marine norte-americano ferido em ofensiva contra o Taleban em Marjah recebe atendimento

    Marine norte-americano ferido em ofensiva contra o Taleban em Marjah recebe atendimento

O número de soldados americanos mortos no conflito chegou a mil, 60 só este ano

Os EUA travam em Marjah a batalha que gostariam que fosse decisiva na guerra do Afeganistão, uma batalha que se prevê difícil, com muitas baixas por parte das forças da Otan, e longa, com não menos de um ano de duração, mas que também é a última oportunidade para deixar um governo relativamente estável no país e impedir o ressurgimento da Al Qaeda, segundo afirmaram nos últimos dias vários membros civis e militares do governo americano.

O avanço dos fuzileiros-navais em Marjah é muito mais difícil do que se previa no início da ofensiva, em 13 de fevereiro. Os contra-ataques taleban, embora esporádicos, impedem que a Otan possa garantir determinadas áreas para começar a estabelecer nelas uma presença civil. A colaboração das tropas afegãs é menos eficaz que o necessário, o que complica a possibilidade de lhes transferir a responsabilidade nas áreas reconquistadas.

Uma jornalista da Rádio Pública Nacional descreveu uma cena de combate em Marjah nos seguintes termos: "Os fuzileiros põem munição extra em seus cinturões e revisam suas armas enquanto esperam impacientemente os soldados afegãos, que estão com várias horas de atraso".

Os chefes militares americanos em campo se queixaram da falta de disciplina, do despreparo e do pouco compromisso que notam em seus colegas afegãos, que deveriam ter um papel vital para impedir erros como os que estão causando constantemente mortes de civis e desprestigiando o trabalho da Otan.

Uma das tarefas que ocupam mais tempo dos fuzileiros é exatamente a de separar a população civil dos taleban para evitar mortes de inocentes. Na ofensiva de Marjah ela é feita rua a rua, casa a casa. Os fuzileiros explicam a cada família que não vão lhes causar danos e que é preferível que abandonem a área.

Esse trabalho é constantemente interrompido pelos disparos de franco-atiradores e emboscadas, os dois métodos mais utilizados pelos taleban para dificultar o avanço das tropas aliadas. Um correspondente da agência Reuters foi testemunha na terça-feira de um combate de mais de oito horas para dominar um terreno de menos de 5 km de fortificações destruídas. O chefe de um dos batalhões entre os quais trabalham jornalistas americanos, o tenente-coronel Christmas, não acredita que seja possível recuperar uma relativa calma em Marjah em menos de alguns meses. Isso sem contar com o risco de que, uma vez obtida, os taleban continuem atacando esporadicamente a cidade de posições próximas.

Para reduzir esse risco é necessário, portanto, ampliar a ofensiva a toda a província de Helmand e a todo o sul do país. Definitivamente, impedir que os taleban tenham um território "liberado" e que a autoridade do governo de Cabul vigore em todo o país. Em certa medida, algo semelhante ao que se fez no Iraque, onde, apesar das bombas e dos ataques esporádicos, os insurgentes não controlam nenhuma área.

O general David Petraeus, chefe do comando central dos EUA - responsável por toda essa região -, previu que para chegar a esse ponto ainda é necessário muito trabalho no Afeganistão. "Isto é só o início do que será uma operação de 12 a 18 meses de campanha", declarou o militar em entrevista à televisão no domingo.

Essa longa duração provavelmente se somará a uma longa lista de mortos, o que poderá pôr em risco em médio prazo a colaboração de alguns países da Otan. "Eu não gosto de usar as palavras otimista ou pessimista", disse Petraeus, "prefiro ser realista, e a realidade é que vai ser duro."

O tipo de guerra que está sendo travada em Marjah corresponde ao cânone mais clássico - lento avanço terrestre, um certo apoio de helicópteros, mínimo uso de artilharia moderna - e exige a suposição de um alto número de baixas, principalmente se os soldados afegãos não puderem atuar no avanço. Os EUA alcançaram na terça-feira o número de mil soldados mortos. Só este ano o país já perdeu cerca de 60 homens.

Aparentemente, tudo está dentro dos planos esboçados. Richard Holbrooke, o enviado especial do Departamento de Estado ao Afeganistão, declarou ontem que, se o avanço militar prosseguir no ritmo atual, antes de um ano haverá no país mil civis americanos trabalhando nas necessidades mais imediatas da população: luz elétrica, água corrente e escolas.

Enquanto se desenvolve a ofensiva, Holbrooke é o encarregado de lidar com dois ingredientes dos mais delicados dessa estratégia: a colaboração do Paquistão e a reabilitação do presidente afegão, Hamid Karzai. Holbrooke esteve em Islamabad um dia antes da detenção do chefe militar taleban Abdul Ghani Baradar e qualificou essa operação como "um momento decisivo para a cooperação do Paquistão". Quanto a Karzai, sua fé em transformá-lo em uma figura para a reconciliação nacional é notavelmente menor.

Essa combinação de esforços políticos e militares representa, em todo caso, a estratégia mais consistente implementada desde o início da guerra. Seu objetivo, como disse Petraeus, é "garantir que o Afeganistão não volte a ser um santuário para ataques como os de 11 de Setembro". Prazo: o verão de 2011.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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