UOL Notícias Internacional
 

26/02/2010

Grande operação policial evita incidentes no funeral do dissidente cubano

El País
Mauricio Vicent
Em Havana

Raúl Castro lamentou a morte de Orlando Zapata e negou a prática de torturas em Cuba; responsabilizou os EUA pelo ocorrido. Na ilha existem cerca de 200 presos políticos, 65 deles considerados prisioneiros de consciência pela Anistia Internacional

Não houve incidentes graves no funeral do prisioneiro de consciência cubano Orlando Zapata Tamayo, na localidade oriental de Banes. Não poderia ser de outro modo: o município, situado a 830 km de Havana, foi tomado pela polícia. Todos os acessos foram controlados, não se permitiu a entrada na cidade de opositores nem de curiosos. Segundo fontes da dissidência, "a operação foi espetacular": mais de mil agentes, entre uniformizados e policiais à paisana, além de oficiais de alta patente que viajaram da capital, vigiaram de perto todos os movimentos desse humilde povoado de 35 mil habitantes, berço do ditador Fulgencio Batista.

"Desde quarta-feira Banes viveu um verdadeiro estado de sítio." Foi como descreveu Berta Soler, uma das Damas de Branco que conseguiu chegar ao lugar vinda de Havana. Pouco depois do funeral, a mãe do opositor, Reina Luisa Tamayo, declarou que até o último instante o cortejo fúnebre sofreu pressões. A família pretendia levar o corpo ao cemitério carregando-o nos ombros, mas as autoridades não permitiram. Teve de ir em um carro fúnebre, acompanhado de dezenas de parentes, amigos e um punhado de opositores que conseguiram entrar em Banes na véspera.

Na quarta-feira já houve tensões consideráveis com a família. Os restos do opositor foram trasladados de Havana em uma caravana escoltada por seis carros policiais. Um trajeto de mais de 12 horas. Ao chegar, a polícia tentou fazer que o enterro fosse realizado imediatamente, mas os familiares se opuseram. Finalmente, o governo aceitou a contragosto que o enterro ocorresse às 7 da manhã.

A tensão e a dor eram grandes, assim como o sensacionalismo de alguns meios de comunicação empenhados em que a mãe arrasada repetisse várias vezes o que sentia pela morte do filho. Em um fato incomum, Raúl Castro lamentou na véspera a morte de Zapata depois de 85 dias de greve de fome, mas negou a prática de torturas em Cuba ("só há na base de Guantánamo", disse) e responsabilizou os EUA pelo ocorrido. "Esta mãe não admite nenhuma mensagem de condolências de Raúl Castro, eles mataram meu filho", disse Reina Luisa.

Enquanto isso, no Brasil

As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a morte do dissidente cubano Orlando Zapata Tamoyo e dos encontros dele com o presidente Raúl Castro e com o ex-presidente Fidel Castro foram criticadas pela oposição no Congresso Nacional. Em nota oficial, a Executiva do DEM disse que o presidente Lula deveria “refletir sobre seu apoio a Cuba”, diante do quadro de barbárie naquele país.

A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado aprovou hoje (25) um voto de pesar pela morte do dissidente Zapata, que morreu após 85 dias de greve de fome. O requerimento foi apresentado pelo senador Heráclito Fortes (DEM-PI), que também pediu que as condolências sejam enviadas à Embaixada de Cuba no Brasil para que sejam encaminhadas à família de Zapata

Banes é uma terra castigada pelos furacões e pela política, disse alguém. Daqui era Fulgencio Batista, o ditador contra quem Fidel e Raúl Castro se levantaram em armas há mais de meio século, e por este território entrou há dois anos o furacão Ike, que causou danos em mais de 70% das residências. Agora, segundo a dissidência, o povoado volta a fazer parte da história de Cuba, pois a morte do opositor marca "um antes e um depois para a dissidência e o governo".

É o que acreditam os opositores de linha-dura, social-democratas e ativistas de direitos humanos como Elizardo Sánchez. "Isto é um divisor de águas, o governo errou nas contas e a coisa vai ficar feia para ele." Sánchez refere-se à repercussão internacional, dizendo que os que apoiam Cuba "agora deverão reavaliar sua política". Também para o movimento de oposição o acontecimento é muito relevante, opina o ativista: "A morte de Orlando Zapata Tamayo serviu para unir a dissidência como nunca antes e para que todos nos mobilizássemos em torno de uma agenda comum". Esta não é outra senão a "liberdade dos presos e o respeito aos direitos humanos". É evidente que dissidentes de todas as tendências deixaram de lado suas diferenças e uniram suas vozes nos últimos dias. "Isto lhes dá um novo fôlego", constata um diplomata europeu, que diz que pela primeira vez viu trabalhar "lado a lado" blogueiros como Yoani Sánchez e dissidentes "da velha guarda" como Marta Beatriz Roque ou o próprio Sánchez.

Na ilha existem cerca de 200 presos políticos, 65 deles considerados pela Anistia Internacional prisioneiros de consciência. Para o governo cubano não existe essa categoria, todos são "mercenários" a serviço de Washington. Sem dúvida, em torno deles vai se concentrar nos próximos meses a atenção da comunidade internacional. Dentro da ilha é outra coisa: a mídia oficial nem sequer publicou a notícia da morte de Zapata, nem as condolências de Raúl Castro ou qualquer coisa sobre a necessidade urgente de reformas. 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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