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04/03/2010

Iraque vai às urnas com o desafio de deixar para trás o sectarismo e a guerra

El País
Ángeles Espinosa
Enviada especial a Bagdá

A participação sunita e a maioria do primeiro-ministro Al Maliki são chaves na eleição

Várias mãos fazendo o sinal da vitória com o dedo indicador impregnado de tinta azul animam os iraquianos a votar nas eleições do próximo domingo. Serão as terceiras parlamentares e o quinto encontro com as urnas desde que o exército americano derrubou Sadam Hussein, há sete anos. Dezenas de milhares de cartazes eleitorais inundam Bagdá e as demais cidades iraquianas. Ao todo, 6.172 candidatos concorrem para ocupar os 325 assentos da Assembléia Legislativa, mas resta ver até que ponto vão mobilizar os iraquianos e em que medida conseguirão superar as linhas sectárias que foram a tônica nas eleições anteriores.

Os sorrisos exibidos por Allawi e Tarek al Hashemi em seus cartazes contrastam com a cara de circunstâncias, quase de tédio, que oferece Nuri al Maliki. Talvez porque, como primeiro-ministro, sua situação seja mais comprometida. Para começar, a aliança que o levou ao poder depois das eleições de dezembro de 2005 se rompeu. O eleitor xiita - segundo as municipais do ano passado, o voto continua sendo majoritariamente sectário - pode escolher entre apoiar o Estado da Lei de Al Maliki ou castigá-lo, optando por seus rivais da Aliança Nacional Iraquiana, um curioso casamento entre o Conselho Islâmico Supremo de Al Hakim e os sadristas (nacionalistas), com a concorrência de outros grupos menores, que apresenta o ex-primeiro-ministro Ibrahim al Safari como cabeça de lista e inclui o inefável Ahmad Chalabi.

Além disso, os esforços de Al Maliki para traspassar as linhas sectárias e atrair para seu Estado da Lei outras comunidades apenas conseguiram resultados simbólicos, como a presença em suas chapas da ministra dos Direitos Humanos. Wijdan Salim é duplamente exótica, por ser mulher e cristã, mas a realidade é que o primeiro-ministro não conseguiu atrair os árabes sunitas, a segunda comunidade étnico-religiosa depois dos xiitas.

"Todos os candidatos abandonaram o discurso sectário, mas os iraquianos ainda não superaram o sectarismo", interpreta uma observadora europeia com vários anos de residência no país. Na opinião dela, a mudança de linguagem tem mais a ver com o cansaço dos eleitores e seu temor de que a guerra civil recomece.

De fato, a desqualificação por parte da Comissão de Desbaathificação de 500 candidatos, na maioria sunitas, esteve prestes a reabrir a caixa dos trovões. Saleh al Mutlaq, o líder da Frente do Diálogo Nacional (sunita), anunciou que seu partido se retiraria da campanha e boicotaria as eleições. No entanto, a perspectiva de que, como ocorreu em 2005, os sunitas ficassem quase sem representação, fez o político retroceder. Ele havia feito campanha por outros candidatos de seu partido e do resto do Movimento Nacional Iraquiano, mais conhecido como Iraqiya.

Esta coalizão, dirigida por Allawi (xiita), é a única das grandes alianças verdadeiramente transconfessional. Segundo as pesquisas, o Iraqiya poderá ser a alternativa de voto para muitos sunitas educados e urbanos que já assumiram que os tempos de Sadam não voltarão e não se sentem representados pelo Partido Islâmico do Iraque, o maior grupo confessional sunita. Inclusive uma das principais figuras deste, o ex-vice-presidente Al Hashimi, uniu sua Lista da Renovação ao movimento de Allawi.

Segundo uma pesquisa realizada no mês passado pelo Centro Nacional de Mídia, uma agência governamental, dois terços dos 5.000 pesquisados nas 18 províncias mostraram sua intenção de voto. Os mais inclinados a fazê-lo eram os curdos (67%), seguidos dos árabes xiitas (63%) e dos árabes sunitas (58%).

Os curdos, majoritariamente sunitas, travam sua própria luta política na região semiautônoma do nordeste do país. Ali, o quase monopólio de poder da União Patriótica do Curdistão e do Partido Democrático do Curdistão levou o opositor Movimento pela Mudança e os partidos islâmicos locais a rejeitar uma aliança curda e tentar se transformar em partido "dobradiça".

A luta dos curdos, entretanto, está fora de suas fronteiras reconhecidas, na província de Kirkuk, onde se concentram 40% das reservas de petróleo iraquianas. Na última terça-feira, o Ministério do Petróleo anunciou que as exportações de cru alcançaram em fevereiro passado 2 milhões de barris diários, seu nível mais alto desde 1990, antes da Guerra do Golfo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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