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05/03/2010

Cidade Sáder estreia a paz

El País
Ángeles Espinosa
Enviada especial a Bagdá

As milícias do Exército do Mahdi desaparecem do grande feudo xiita de Bagdá

Cidade Sáder já não é o bairro sem lei que costumava ser. Soldados e policiais substituíram os esfarrapados milicianos do Exército do Mahdi. Também desapareceram os restos das mil e uma batalhas que estes travaram contra o ocupante americano. Nas principais ruas deste setor em que Saddam Hussein confinou os xiitas que migraram para Bagdá do sul do Iraque, o movimento cotidiano dá uma aparência de normalidade. Mas sobressaem as carências de um bairro onde se amontoam 2 milhões de pessoas, das quais a campanha eleitoral quase não se ocupou.

"É claro que estamos melhor sem os tiroteios", resmunga um vendedor de frutas em uma esquina. "Agora é preciso que o governo nos dê serviços. Não temos água corrente nem eletricidade, só durante algumas horas." Um penetrante odor de esgoto salienta suas palavras. Na calçada em frente, alguns meninos brincam entre o lixo. Dos cartazes eleitorais pendurados dos semáforos, os candidatos parecem alheios à sua sina. Aqui só os xiitas se aventuraram para fazer campanha. Não há nenhum pôster de Saleh al Mutlaq (o líder sunita desqualificado, cuja única menção é respondida com um significativo "terrorista"), nem do vice-presidente Tareq al Hashemi, ou de qualquer candidata de cabeça descoberta. O mesmo na rua, onde as poucas mulheres visíveis vestem túnicas pretas até os pés e lenços. O radicalismo, como a miséria, continua no ambiente.

E os milicianos do Exército do Mahdi? "Alguns partiram, outros se alistaram no exército ou na polícia", afirma Abbas, sem ocultar o receio que provoca a curiosidade da estrangeira.

Soldados e policiais votaram antecipadamente na quinta-feira (5), junto com médicos, doentes e presos, para estar disponíveis no domingo. Ao todo, 700 mil potenciais eleitores. Em Cidade Sáder, um dos lugares habilitados para isso é a escola Shomaie. "Com todos os colégios que há, precisavam escolher exatamente este?", indaga o oficial à frente do controle de polícia. "Não posso proibir que vão, mas para uma estrangeira não é aconselhável", adverte o motorista. Embora faça alguns anos que não se tem notícia de sequestros, é melhor não se arriscar.

Mas no centro as ruas que cercam a escola Marjayun em Karrada parecem tomadas pela polícia. Dezenas de agentes controlam os acessos e estenderam arame farpado para impedir que algum terrorista se infiltre. Nenhum veículo pode se aproximar menos de 500 metros. Os moradores se resignam ao trânsito de policiais e soldados, que, transportados de suas unidades, vão chegando para votar em grupos e desarmados. Também há pessoas à paisana. "É que não estão de serviço", explica o oficial encarregado da segurança.

Os que saem fazem o sinal da vitória com o dedo marcado com tinta indelével, a prova de que votaram. Um pouco mais a leste, na rua Sinaa, uma patrulha tem o rádio a todo volume com uma gravação que diz: "Terrorista, venha se for homem, estamos esperando. Os baathistas não voltarão".

Não há toque de recolher, mas o feriado decretado animou as pessoas a ficar em seus bairros. O ambiente domingueiro e preguiçoso de Karrada e outras áreas de maioria xiita desaparece ao se cruzar o Tigre e entrar nos bairros sunitas de Yarmuk, Yihad ou Adel. As ruas estão desertas e a camada de barro deixada pela tempestade de areia da véspera dá um toque fantasmagórico aos poucos carros que circulam.

Ao chegar a Mansur, as sirenes da polícia expulsam os motoristas da rua, depois passam uma ambulância e um caminhão de bombeiros. Apesar das medidas de segurança empregadas, um suicida conseguiu se explodir em um colégio eleitoral. Sete soldados morreram e 15 ficaram feridos enquanto esperavam na fila para votar. Apenas uma hora antes, outro terrorista havia matado quatro soldados em uma escola de Bab el Muadham, no centro da capital. E na primeira hora da manhã um ataque perto de um colégio preparado para a votação de domingo deixou sete civis mortos, quatro deles crianças, e 23 feridos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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