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06/03/2010

"Não quero que o Iraque seja um campo de batalha entre o Irã e os EUA"

El País
Ángeles Espinosa
Enviada especial a Bagdá
  • Político iraquiano xiita Ahmed Chalabi

    Político iraquiano xiita Ahmed Chalabi

Ahmed Chalabi voltou à primeira fila da política iraquiana. O homem que ajudou o governo Bush a se carregar de argumentos para a invasão do Iraque e depois perdeu sua confiança quando a CIA o acusou de estar passando informação para o Irã, renasceu das cinzas. Aos 65 anos, o controvertido político fez do expurgo de antigos baathistas o eixo de sua atuação. Na manhã do próximo domingo, quando os iraquianos forem às urnas, se saberá se esse empenho conseguiu compensar sua falta de base popular. Por enquanto, marcou a agenda da campanha.

A Comissão de Responsabilidade e Justiça, presidida por Chalabi, vetou cerca de 500 candidatos acusados de militância ativa no Partido Baath de Saddam Hussein, provocando temores de um novo boicote da comunidade sunita e acusações de estar atuando por conta do Irã.

"Não queremos que o Iraque se transforme no campo de batalha entre Irã e EUA", ele afirmou horas antes do encerramento da campanha. No entanto, reconhece que seu trabalho se choca com a política que Washington promoveu nos últimos anos. "Para os iraquianos, os baathistas são como os fascistas ou os nazistas", explica.

El País: O que está em jogo nas eleições de domingo?

Ahmed Chalabi: Um Iraque independente, que trabalhe pelo desenvolvimento de um governo limpo e eficaz, ou a continuidade da interferência nos assuntos iraquianos e a corrupção.

El País: O senhor foi criticado porque, sendo candidato, manteve a presidência da Comissão de Responsabilidade e Justiça. Não teria sido melhor se demitir?

Chalabi: Não fui eu quem escolheu. O governo não conseguiu que o Parlamento aprovasse um novo presidente. Não vou renunciar. Trabalhei com honestidade. Não participei do processo de seleção ou exclusão. Para isso, segue-se um critério objetivo aprovado pelo Parlamento e referendado pelo Tribunal de Cassação. Alguns candidatos foram reintegrados. É um processo legal e constitucional. Não vou permitir que exista um vazio.

El País: Saleh al Mutlaq, o candidato sunita mais relevante entre os vetados, afirmou que havia sido reintegrado...

Chalabi: Não é verdade. Al Mutlaq tem diarreia verbal.

El País: Muitos sunitas são da opinião que o senhor tenta bloquear sua participação política.

Chalabi: Não creio. Ninguém boicotou as eleições, apesar de toda a propaganda que houve a respeito. Iyad Allawi (um xiita laico que é o principal adversário político de Chalabi) vai participar. Inclusive os membros da chapa de Al Mutlaq que não foram vetados vão participar.

El País: O general Ray Odierno, chefe das tropas americanas no Iraque, o acusou de estar sob a influência iraniana...

Chalabi: Não vou levá-lo em conta. Ele capturou Saddam Hussein e estamos agradecidos por isso. Está mal informado sobre minha relação com o Irã. Não queremos que o Iraque se transforme no campo de batalha entre Irã e EUA. Queremos estar em bons termos com os EUA, sem nos submetermos a seus desígnios. E não é do nosso interesse ter más relações com o Irã. Ele está aborrecido porque o trabalho da comissão desafia a política que promoveram nos últimos anos e que queria nos fazer aceitar a participação dos baathistas no próximo Parlamento, para nos colocar em discórdia com nossos vizinhos e poder influir.

El País: Não é contraditório que os senhores vetem várias centenas de oficiais do exército de Saddam e poucos dias depois o primeiro-ministro Nuri al Maliki anuncie que vai readmitir 20 mil?

Chalabi: É um truque eleitoral. Não pode fazer isso. Precisa da aprovação da comissão, e esta recebeu o pleno apoio do Tribunal de Apelações depois de ter sido congelada pelo governo.

El País: Seu trabalho não leva a uma maior polarização da sociedade?

Chalabi: Não, porque nos negamos a equiparar sunitas com baathistas e de fato dois terços dos candidatos excluídos são xiitas.

El País: Não teria sido melhor uma comissão de reconciliação?

Chalabi: Na Itália, depois da guerra mundial, houve comissão de reconciliação para os fascistas? Ou na Alemanha com os nazistas? Para os iraquianos, os baathistas são como os fascistas ou os nazistas. Se não houve vinganças contra eles foi devido à comissão. Não é vingança. Só os queremos fora do governo. Podem ter outros trabalhos no setor privado.

El País: Voltando às eleições de domingo. Tudo indica que nenhum bloco eleitoral obterá a maioria. Com quem o senhor decidirá aliar-se? Com Allawi ou com Al Maliki?

Chalabi: Com quem tiver menos cheiro de baathista.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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