UOL Notícias Internacional
 

06/03/2010

Talcahuano, coração industrial do Chile, é a cidade mais próxima do epicentro do terremoto

El País
Javier Rodríguez Marcos
Enviado especial a Concepción (Chile)
  • Homem observa destruição causada pelo terremoto em Talcahuano (Chile)

    Homem observa destruição causada pelo terremoto em Talcahuano (Chile)

"Se Talcahuano for para o buraco, o Chile irá para o buraco", diz para si mesmo Fernando Roa, um funcionário da prefeitura dessa cidade que parece um lorde mesmo sem se barbear. Ele ficou mudo ao ver seu escritório cercado por uma fita. "Esqueci o guarda-chuva", acrescenta depois, com uma careta que não chega a ser um sorriso. O edifício continua de pé, mas alguém destacou com tinta laranja as rachaduras e escreveu dentro de um círculo: "demolir". O pior, porém, está duas quadras mais adiante, na Calle Colón, a principal via de Talcahuano, a 13 km ao norte de Concepción.

O porto militar e industrial de Talcahuano é o principal do Chile e o de maior importância estratégica ao sul do Panamá. De fato, aqui atracam antes de cruzar o cabo Horn os navios cujo calado torna impossível a passagem pelo canal da América Central.

O cheiro de farinha de peixe podre aumenta na medida em que se avança para o porto. A Calle Colón é uma piscina de lodo ladeada por edifícios arrasados três vezes: pelo terremoto das 3h29 da madrugada de sábado passado, pelo tsunami que chegou uma hora depois e pelo que chamam aqui de "terremoto social": os assaltos a lojas e supermercados. Na sexta-feira ainda saía fumaça do Santa Isabel, um hipermercado no qual havia gente distribuindo o resto dos restos: algumas latas de cerveja sem álcool, um par de tênis sujos de lama...

O litoral foi o verdadeiro marco zero do terremoto, e Talcahuano o marco zero do marco zero, pelo que representa economicamente em um país no qual vai faltar de tudo, mas principalmente gasolina, cimento e aço. Com 180 mil habitantes, Talcahuano é o coração industrial do país, como admitiu em uma entrevista por rádio Andrés Velasco, o ministro da Fazenda de saída, cuja tentativa de garantir que tudo estava sob controle só se quebrou ao falar da cidade na qual morreram 90 pessoas. O total das vítimas mortais identificadas chegava ontem a 279. O número de mortos em seu município é dado por telefone para este jornal pelo prefeito Gastón Saavedra. Ele o faz pelo celular de Fernando Roa, que conseguiu falar com seu chefe depois de seis dias. "Os estaleiros terão de ser totalmente reconstruídos e 80% dos pesqueiros se perderam", diz Saavedra.

O resumo do prefeito é a legenda trágica do panorama que se vê do que resta do cais. De costas para o oceano Pacífico, junto do mercado central, três barcos encaixados uns nos outros como caixas chinesas e enfiados em uma borracharia. À frente, os estaleiros Asmar, os maiores do Cone Sul. O navio-escola Huáscar, da marinha chilena, continua flutuando. O resto está espalhado pela terra e o mar. Em terra está o que resta do projeto Medusa, um dos êxitos do bicentenário da independência do Chile, o maior navio oceanográfico da América Latina, que hoje não passa de um monte de ferro arrancado violentamente do dique seco por uma onda sobre a qual ninguém avisou. Se em Talcahuano convivem 700 das maiores empresas chilenas, as duas estrelas são a Enap, a companhia nacional de petróleo, e a siderúrgica Huachipato.

Renato Quirós, engenheiro de projeto da refinaria, calcula em sua casa sem luz em Concepción que os dois andares do complexo vão demorar um mês e meio para voltar a ser operacionais. Por enquanto não há luz nem água. Até o momento do abalo eram refinados ali 20 mil litros diários de petróleo: "95% do que se refina no Chile", explica Fernando Roa. "Por sorte", conta Quirós, "não houve vazamentos nem caiu cru no mar." Agora tudo está nas mãos do petróleo importado já refinado.

Os que já estão acostumados à poluição são os habitantes de Población Libertad, um bairro conflituoso de barracos, separado da siderúrgica por uma estrada e uma barreira de árvores que a duras penas impede que o ar se encha de PM10, "material particulado". O pó procede de uma fábrica que gera 1.800 postos de trabalho diretos e 2 mil indiretos. O prefeito de Talcahuano diz que ficou "muito danificada".

Todo mundo concorda que a fundação da Universidade de Concepción em 1919 e a instalação da Huachipato em Talcahuano nos anos 1940 foram os dois grandes motores do desenvolvimento de uma região que durante séculos dependeu do carvão das minas. A usina siderúrgica manipula anualmente 1,2 bilhão de toneladas de aço e vende mais da metade para a indústria da construção, que certamente será uma das mais florescentes no Chile nos próximos anos.

Fernando Roa tinha 10 anos quando ocorreu o terremoto de 1960, o mais grave da história desde que há registros (9,5 na escala Richter; o de sábado alcançou 8,8). "Tudo demorou oito anos para voltar ao lugar", ele diz. E, como que ponderando os anos com os graus da escala sísmica, acrescenta: "Espero que desta vez sejam quatro".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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