UOL Notícias Internacional
 

10/03/2010

Censura do regime cubano impede que população conheça as ações de dissidentes

El País
Mauricio Vicent
Em Havana
  • Cubanos prestam homenagem ao dissidente Orlando Zapata Tamayo, em Havana, Cuba

    Cubanos prestam homenagem ao dissidente Orlando Zapata Tamayo, em Havana, Cuba

"Zapata? Que Zapata?" - a pergunta de Yairis González, uma estudante de Havana de 20 anos, pode chocar quem vive fora de Cuba, mas reflete o que acontece na ilha. Amanhã completam-se duas semanas da morte do preso de consciência Orlando Zapata. Até a televisão oficial deu sua versão da greve de fome de 85 dias que custou a vida do opositor - um simples "criminoso comum", segundo o governo cubano. No entanto, Yairis e muitos de seus compatriotas continuam totalmente alheios ao escândalo internacional, concentrados em seus numerosos problemas cotidianos.

Sabe-se que a mídia em Cuba é controlada pelo Estado e que o acesso à internet é limitado. Seja por falta de informação ou por desconfiança, ou porque há outras prioridades e a vida já é bastante dura, a maioria dos cubanos sabe pouco ou nada sobre a dissidência.

Além disso, a propaganda oficial há meio século acusa todos os opositores de estar ligados de um modo ou de outro ao governo dos EUA, e isso pesa.

Seja qual for a razão, quando alguém pergunta na rua por Oswaldo Payá, Elizardo Sánchez, Héctor Palacios ou qualquer dos opositores da velha guarda, quase ninguém os conhece. A mesma coisa acontece com a blogueira Yoani Sánchez, com as Damas de Branco e com os 200 presos políticos que cumprem pena, segundo dados da oposição.

A morte de Zapata afetou como nunca o movimento dissidente. Mas não representou uma mudança substancial na situação antes descrita: a maioria dos cubanos está longe do movimento de oposição. Outra coisa é o descontentamento popular. Nunca como agora se criticou tanto o governo na rua devido à situação econômica desastrosa e à falta de vontade do governo de promover mudanças que a sociedade exige a gritos.

"Sem dúvida este é o principal partido de oposição", afirma Elizardo Sánchez, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CDHRN). Sánchez é um dos dissidentes mais antigos, com quase 25 anos de militância. Ele lembra que quando começou "podia-se contar toda a dissidência nos dedos das duas mãos". Hoje o panorama é muito diferente. Ele apresenta os dados: "Há dez dias a polícia teve de deter mais de 110 opositores para evitar uma homenagem a Orlando Zapata durante seu enterro em Banes". Em segundo lugar, indica que "em 2002 o projeto Varela, de Payá, conseguiu reunir 25 mil assinaturas para pedir um referendo".

Sánchez calcula que hoje os ativistas do movimento de oposição sejam "entre 5.000 e 8.000 em todo o país", além dos simpatizantes. O número de organizações é difícil de calcular, talvez uma centena, talvez duas, em sua maioria pequenas e divididas, representando todas as tendências políticas.

O Movimento Cristão de Libertação, de Oswaldo Payá, e a União Liberal, de Héctor Palacios, são os grupos mais numerosos. A este último pertence Guillermo Fariñas, o opositor que se encontra em greve de fome em Santa Clara para exigir a libertação de 26 prisioneiros políticos doentes. Também há históricos da linha-dura, como Marta Beatriz Roque ou Vladimiro Roca, e social-democratas moderados como Manuel Cuesta Morúa, fundador do Arco Progressista, e Eloy Gutiérrez Menoyo, líder do Cambio Cubano [Mudança Cubana].

Junto à dissidência tradicional e a grupos de direitos humanos como a CDHRN, em 2003 surgiu o movimento das Damas de Branco, integrado pelas esposas, mulheres e familiares dos 75 dissidentes encarcerados na primavera deste ano. Elas, junto com os presos políticos, foram quem conquistaram maior solidariedade internacional.

Há alguns anos apareceu no cenário a "blogostroika", ou "ciberdissidência", revolucionando o panorama de oposição. Seu líder indiscutível é Yoani Sánchez. A esta radiografia deve-se acrescentar uma colagem de jornalistas dissidentes, roqueiros e rapeiros alternativos, acadêmicos de esquerda e paraquedistas circunstanciais.

Segundo o economista Óscar Espinosa Chepe, membro do Grupo dos 75, é evidente que "a realidade é cada vez mais opositora". "O que mais pesa hoje é o grande descontentamento popular", diz. Ele conta que há algumas semanas assistiu a um espetáculo humorístico no Teatro Carlos Marx: "Os jovens aplaudiam furiosamente cada piada crítica". Do mesmo modo, ele pensa que o mal-estar é cada vez maior dentro do Partido Comunista e também há setores críticos nas alturas.

Concorda com ele Elizardo Sánchez, embora recomende que se deve manter os pés no chão: "A situação da dissidência em Cuba parece com um estádio de futebol: nas arquibancadas está o povo, olhando o que acontece. Abaixo estamos nós, alguns opositores, e o governo, que nos persegue".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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