UOL Notícias Internacional
 

11/03/2010

Contatos de aproximação entre israelenses e palestinos começam sem esperança

El País
Lluís Bassets
  • Palestinos protestam contra o plano de colonização de Israel em Jerusalém

    Palestinos protestam contra o plano de colonização de Israel em Jerusalém

A técnica é bem conhecida. É preciso sentar os dois adversários que mantêm posições de impossível conciliação e buscar acordos sobre assuntos às vezes marginais ou menores para que sirvam de estímulo a sucessivos acordos de maior calibre. Trata-se de pôr em ação o círculo virtuoso em que cada passo que se dá, por menor que seja, é um estímulo para o seguinte.

A negociação total, em que nada é acordado até que todo o acordo esteja fechado, nunca funcionou entre israelenses e palestinos: no final se rompe ou nem sequer há energias para construí-lo. O atual ponto de partida não pode ser mais frágil. Os dois lados estão há 14 meses sem se falar. Israel é governado por um governo extremista, no qual os colonos que ocupam ilegalmente as terras palestinas sempre acabam pesando além da conta.

Os palestinos estão divididos territorial e politicamente, entre o terrorismo do Hamas que governa a Faixa de Gaza em condições de miséria crescente e a frágil Fatah, sem legitimidade eleitoral, com um comando na Cisjordânia. Qualquer progresso anterior, e os houve nos últimos meses de Bush com a conferência de Annapolis, ficou em nada com a guerra de Gaza e a trabalhosa formação de um governo israelense no qual não faltam xenófobos e antiárabes, mas que se destaca pela presença de um ministro das Relações Exteriores de origem russa, como Avigdor Lieberman, que é um autêntico antidiplomata e em todo caso o pior rosto internacional de toda a história de Israel.

Barack Obama chegou à Casa Branca em janeiro de 2009 com muita determinação e esplêndidas promessas sobre a paz no mundo e, naturalmente, no Oriente Médio. Fez promessa solene de amizade inquebrantável com Israel e de garantia de segurança nada menos que diante de um público árabe no Cairo. Em contrapartida pediu que Netanyahu congelasse os assentamentos como passo prévio para a negociação direta para a criação de um Estado palestino ao lado do Estado israelense.

Isso foi em 4 de junho passado; pois bem, em 14 de junho Netanyahu não teve remédio senão recolher a luva em um discurso tão solene quanto cheio de condições e de cautelas, no qual apoiou à boca pequena a fórmula dos dois Estados, mas rejeitou o congelamento dos assentamentos. Depois corrigiu o tiro e também decretou o congelamento por dez meses da construção de novas moradias em território palestino, mas com mais envoltórios de cautelas e condições do que substância: a ampliação das atuais colônias, por conta do crescimento vegetativo, não está incluída; Jerusalém também não. Resultado: as colônias continuaram crescendo sem freios.

A estreita amizade entre Washington e Jerusalém é hoje uma briga de família. São como um casal em crise que jamais desejará se divorciar e se excede em brigas e discussões. Obama viajou para a Turquia e o Egito, mas ainda não a Israel. Não teve pressa de receber Netanyahu na Casa Branca e antes recebeu o vizinho rei Abdallah da Jordânia. Agora manda o vice-presidente Joseph Biden, de inconfundíveis simpatias por Israel, para inaugurar esta fase de contatos de proximidade; mas evita assim a solene visita que represente esse amor inquebrantável tantas vezes pregado. Por isso a resposta que obtém é uma dupla bofetada.

Na segunda-feira foi anunciada a autorização para construir 112 residências no assentamento de Beitar Illit, e na terça a construção de 1.600 moradias em Jerusalém Oriental, em territórios dentro da cidade destinada a ser a capital palestina. Biden ia fomentar a confiança. Queria caldo e lhe deram duas xícaras. Mas de desconfiança. Sua resposta em campo foi a mais contundente que se poderia esperar. Primeiro se comportou com Netanyahu como um xeque árabe: o fez esperar uma hora e meia.

Enquanto isso redigiu o comunicado de condenação, ao qual não faltou uma letra: "Condeno a decisão do governo israelense de promover a construção de novas moradias em Jerusalém Oriental". Na realidade, não aconteceu nada que não tivesse acontecido antes. Netanyahu já desafiou a autoridade de Washington com a formação e composição de seu governo, e desde então tudo foi confirmando a apatia israelense diante das negociações de paz e dos argumentos dos palestinos em relação à zombaria dos assentamentos.

Ontem receberam Biden em Ramallah compungidos, mas mais cheios de razão que nunca. Assim começa essa nova rodada de negociações. Com a modéstia de um método que nem sequer exige dos negociadores que se cumprimentem e se olhem nos olhos. Sem esperança alguma, porque uma parte só pensa no Irã e a outra desconfia absolutamente de todos, inclusive de suas próprias forças. Talvez essa seja a única luz no fim do túnel: quando nada se espera, pode-se obter algo, por menor que seja.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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