UOL Notícias Internacional
 

11/03/2010

"No Iraque precisamos separar a política da religião", diz a ministra dos Direitos Humanos do país

El País
Ángeles Espinosa
Enviada especial a Bagdá

"Parece claro que as chapas de Al Maliki e Allawi estão na frente, mas isso ainda pode mudar", responde prudente Wijdan Mijail Salim, ministra iraquiana dos Direitos Humanos e candidata nas eleições de domingo passado na chapa do primeiro. No entanto, não tem problema em apoiar uma coalizão entre os dois, que ela mesma qualifica de "difícil". "Seria bom para o Iraque, porque o Estado da Lei (do primeiro-ministro Nuri al Maliki) quer mudar para uma política separada da religião, e isso é justamente o que propõe o Iraquiya (de Iyad Allawi). Além disso, permitiria que mais iraquianos se sentissem identificados (com o novo governo)", argumenta essa engenheira às vésperas da divulgação dos resultados provisórios.

Salim, defensora militante da separação entre Estado e religião, é um exemplo da fluidez da política no Iraque. Em 2005 se apresentou na lista não confessional de Allawi. Em maio de 2006 aceitou fazer parte do governo - confessional - de Al Maliki, em cuja coalizão concorreu às últimas eleições. "O primeiro-ministro está tentando desligar política de religião, e estou com ele nessa tentativa", justifica essa mulher, uma das quatro que se senta no Conselho de Ministros e a única cristã em toda a mesa. Sua pasta, considerada menor, tinha uma enorme tarefa pela frente e ainda hoje ela reconhece que resta muito a fazer.

"Em 2009 observamos um aumento da violação dos direitos humanos", admite com franqueza quando se menciona o último e preocupante relatório da Anistia Internacional. "Das denúncias de tortura que recebemos, passamos 530 ao promotor, que levou quase a metade delas aos tribunais." A ministra salienta porém que, além do problema de saturação das prisões, "no início do ano passado houve uma intensificação dos ataques contra as forças de segurança, e isso em qualquer país se traduz em uma atitude mais dura da polícia".

"Nesses quatro anos estabelecemos as instituições encarregadas de proteger os direitos humanos, este ministério, nossas equipes de investigadores, escritórios em todas as províncias e departamentos em outros ministérios", afirma, sabendo que é só o princípio. No ano passado o Iraque assinou a Convenção contra a Tortura e acordos com o Comitê da Cruz Vermelha Internacional e a ONU para que visitem suas prisões. Este ano acabam de dar acesso às ONGs. "É algo novo para o Iraque, mas estamos abertos para que venham, vejam e nos ajudem a melhorar", resume.

No entanto, há um tema em que parece difícil que o Iraque vá escutar seus aliados ocidentais. No ano passado o país viveu uma campanha de intimidação, agressões e inclusive assassinatos de homossexuais. Quando pergunto à ministra o que precisa mudar para que os iraquianos aceitem esse coletivo, seu rosto se tensiona. "Nossa sociedade não vai aceitar uma coisa dessas. Mas a lei não aceita o assassinato em nenhum caso. Assim, se alguém comete um crime, vamos processá-lo como tal", responde.

Sua defesa do trabalho realizado não a impede de ser crítica com os muitos desafios que ainda estão pendentes. Enquanto a violência política se reduziu na maior parte do país, está aumentando nas duas províncias cujo controle é disputado por árabes e curdos, Nínive e Kirkuk, e afeta sobretudo as minorias. Nas semanas anteriores às eleições, pelo menos oito cristãos foram assassinados e vários shabak intimidados em Mosul, a capital de Nínive.

Salim também não tem problemas em mostrar-se crítica com a recente atuação da Comissão de Justiça e Responsabilidade, que na véspera das eleições vetou a participação de cerca de 500 candidatos, que acusa de ter colaborado com o Partido Baath de Saddam Hussein, ao que o primeiro-ministro deu sua aprovação. "Alguns afetados estavam há tempo na política, por que são vetados justamente agora?", pergunta-se.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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