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12/03/2010

Ditadura é sempre ditadura

El País
Cristina Galindo
El País
  • Cubanos prestam homenagem ao dissidente Orlando Zapata Tamayo, Havana, Cuba

    Cubanos prestam homenagem ao dissidente Orlando Zapata Tamayo, Havana, Cuba

A morte de Zapata expõe os reféns de seus preconceitos. A dupla moral se impõe em setores da esquerda e da direita

A morte do preso de consciência cubano Orlando Zapata, depois de 85 dias em greve de fome, não serviu para abrandar o regime castrista, mas deixou claro que em política há convicções viscerais que dificilmente mudam. A saída do tom do ator Guillermo Toledo, que afirmou que o pedreiro negro detido em Cuba - um preso de consciência segundo a Anistia Internacional - é um simples "criminoso comum" (versão do jornal oficial cubano "Granma"), voltou a expor as hesitações de amplos setores da esquerda para revisar sua história recente e aplicar aos ditadores comunistas o mesmo critério que aos regimes autoritários de direita, que também não está isenta de preconceitos herdados do passado.

Se Cuba é o grande (e quase último) tabu entre alguns dos considerados progressistas ou de esquerda, para uma parte da direita a besta negra continua sendo o passado franquista. Em um e outro caso, costumam tolerar ou justificar uma ou outra ditadura. Se há uma condenação, é feita de forma ambígua. Ou para justificar a ausência de críticas se joga na cara que a "ditadura do outro" foi pior.

"Justifica-se um regime ditatorial em função da ideologia. Todas as ditaduras, sejam de direita ou de esquerda, têm elementos comuns: um partido único, a negação de direitos políticos e civis, repressão da oposição... Qualquer democrata deveria se opor", afirma Jesús de Andrés, professor de ciência política na Uned. A direita e a esquerda têm temas pendentes para resolver. "Na Espanha ainda temos duas heranças: a soviética, no caso da esquerda, e o franquismo e ditaduras como a de Pinochet, na direita. E às vezes o debate se dá sobre opiniões superficiais e sem muito conhecimento. Neste país houve uma modernização econômica, mas falharam as educações cívicas, não se educou a população nas liberdades", afirma Julián Casanova, catedrático de história contemporânea na Universidade de Zaragoza. "Ainda existem barreiras ideológicas claras."

Para buscar exemplos não é preciso viajar no tempo. Na semana passada Guillermo (Willy) Toledo, que se declara independente de qualquer partido, foi objeto de duras críticas quando disse que Zapata, morto em 23 de fevereiro, era um "preso comum". Agora lamenta ter ferido a memória do dissidente cubano e diz que não pretendia ser depreciativo.

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No fundo da questão ele não mudou de opinião. Perguntado em uma entrevista telefônica se considera Cuba uma ditadura, hesita alguns segundos antes de responder: "É simplificar mais uma vez... prefiro um milhão de vezes o que conseguiu a revolução cubana do que o que fizeram os bancos e Emilio Botín; é pior o embargo dos EUA a Cuba e é pior o que acontece em Guantánamo. O que se aplica é um duplo critério, sobretudo pelo PP [o conservador Partido Popular espanhol], que se nega a condenar uma ditadura fascista, com centenas de milhares de desaparecidos, mas ataca Cuba".

Suas palavras têm uma representatividade social limitada. Mas revelam uma forma de pensar muito comum. Miguel Bosé é um dos artistas que saiu em defesa de Toledo: "Não sei o que crer sobre Zapata. Não tenho informação clara". Um grupo de atores - incluindo Javier Bardem, Alberto San Juan e Luis Tosar - enviou na terça-feira uma carta à imprensa dando seu apoio ao ator e denunciando uma campanha contra ele. Ontem o escritor Eduardo Galeano também deu sua opinião: "Respeito alguém capaz de fazer uma greve de fome e morrer pelo que acredita, mas não compartilho com ele. Em Cuba se aplica uma lupa, se magnífica tudo porque convém aos inimigos da justiça social, mas não aplaudo tudo", informa Elsa Cabria.

A informação da Anistia Internacional não deixa lugar para dúvidas. Zapata era um dos 55 presos de consciência adotados pela organização em Cuba (mais de 200, segundo a Comissão Cubana de Direitos Humanos). Ele foi detido em três ocasiões, sempre por expressar suas opiniões, até que em maio de 2004 foi condenado a três anos de prisão por "desacato", "desordens públicas" e "resistência", enquanto pedia a libertação de outro preso político.

Durante sua estada na prisão sua pena foi ampliada para 36 anos por mau comportamento. "Pomos a mão no fogo por pessoas como Zapata", afirma Olatz Cacho, da Anistia. A organização afirma que Cuba é "um sistema legal repressivo que restringe as liberdades fundamentais em um grau que supera muitas vezes o que permitem as normas internacionais de direitos humanos".

O escritor Antonio Muñoz Molina se considera progressista e, exatamente por isso, crê que qualquer pessoa tem o dever moral de condenar qualquer ditadura, seja de que signo for: "A falta de solidariedade na luta pelos direitos humanos nos regimes autoritários comunistas é uma longa tradição da esquerda; é uma de suas grandes vergonhas. É escandaloso que as pessoas que no Ocidente gozam da democracia se permitam criticar outras que aspiram a conseguir direitos mínimos".

"A esquerda democrática no sentido mais amplo, e não só a IU [Esquerda Unida], deve falar claro de uma vez", afirma o escritor, que se mostra indignado pelo fato de que vários atores apoiaram Toledo, mas não demonstraram a mesma solidariedade com Orlando Zapata e os 26 dissidentes cubanos que estão doentes e continuam na prisão.

A condescendência de setores da esquerda com as ditaduras comunistas é histórica. "É um romantismo perverso. A esquerda é herdeira de uma atitude que todos tivemos antes da queda do socialismo real, acreditando que Stalin era o homem mau do filme e Lênin o bom, e que se utilizava a violência era porque estava em uma situação de guerra civil. E o mesmo ocorre com a revolução cubana", opina o catedrático de ciência política Antonio Elorza. "O que não percebem é que na esquerda se pode condenar ao mesmo tempo o embargo, que só prejudica o governo cubano, e a ditadura castrista", acrescenta.

Apesar de essa tolerância ter diminuído com o tempo, o governo socialista espanhol continua recebendo críticas pela suposta brandura com que trata Havana. "Entendemos que ter relações pode ser uma via de abertura", reconhece a deputada socialista Carmen Hermosín. "Conheço pessoas próximas que continuam defendendo os dirigentes cubanos, embora em geral creio que são cada vez mais os que pensam que não podemos continuar tendo relações pseudopaternalistas com países que esmagam os direitos humanos com o pretexto de que sofrem um embargo", diz.

  • AP

    Dissidentes cubanos organizam vigília em Havana (Cuba) em homenagem ao preso político Orlando Zapata Tamayo, morto na terça-feira após 85 dias de greve de fome

Alguns especialistas concordam em que a esquerda deve enfrentar uma revisão profunda, algo que o secretário-geral do PCE [Partido Comunista da Espanha], José Luis Centella, não compartilha: "O partido já fez a revisão da etapa soviética. Na atualidade, concentrar-se no tema dos direitos humanos em Cuba é uma besteira, quando há tantos problemas com direitos humanos no mundo. Não há nenhuma declaração do Parlamento espanhol condenando Guantánamo. Há muito cinismo. Cuba é uma referência para a América Latina".

Enquanto isso, a direita também enfrenta seus fantasmas, embora o porta-voz de Relações Exteriores do PP no Congresso, Gustavo de Arístegui, considere que não são comparáveis. "Uma maioria arrasadora de militantes e simpatizantes do PP condena o franquismo sem nenhum tipo de problema", afirma o deputado. "Mas não podemos admitir que todas as propostas feitas de condenação ao franquismo impliquem que o PP é herdeiro do franquismo, quando somos de centro-direita."

O PP condenou no Parlamento espanhol pela primeira vez a "ditadura" de Francisco Franco em 20 de novembro de 2002, quando se completou o 17º aniversário de sua morte. Mas em 2006 o PP e a extrema-direita foram os únicos partidos que não censuraram o franquismo no Parlamento Europeu, enquanto um ano depois o eurodeputado Jaime Mayor Oreja afirmava que não pretendia condenar o franquismo porque "representava um setor muito amplo dos espanhóis" e qualificou de "disparate" a lei de memória histórica.

Em novembro de 2006 o PP votou no Senado contra a reabilitação da figura de Julián Grimau, líder comunista fuzilado pelo franquismo em 1963. Um dos votos foi o do senador Manuel Fraga, várias vezes ministro com Franco. O PP alegou que não era competência do Legislativo, mas do Tribunal Supremo, revisar um caso já julgado. Mas não é preciso olhar tão para trás, porque no mesmo dia em que o ator Guillermo Toledo fazia suas declarações sobre Zapata as Cortes valencianas discutiam um manual para a integração de imigrantes do governo regional, do PP, que evita definir o franquismo como ditadura.

"É uma lástima que a direita ataque com dureza Cuba e seja tão condescendente com o franquismo, enquanto na esquerda se criticam os crimes franquistas, mas não Cuba, onde claramente há uma ditadura, ou a Venezuela, que está no caminho de se transformar em uma", afirma Andrés. "O grande tabu da direita também é sua origem", argumenta o cientista político, que dá como exemplo Fraga, fundador do partido Reforma Democrática, embrião da Aliança Popular e por sua vez do PP. "O pessoal do PP que esteve no franquismo contribuiu para desmontá-lo", afirma Arístegui, que insiste que é muito mais grave a "distensão" do PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol] em política externa não só com Cuba, mas com Venezuela, Bolívia ou Nicarágua.

O PSOE discorda. "O PP tem uma atitude radical com Cuba, sobretudo pela origem de esquerda da revolução cubana, mas em 30 anos de democracia não foram capazes de condenar de forma clara o franquismo", afirma a deputada Carmen Hermosín.

Muñoz Molina também considera um tabu da direita, uma amostra do fechamento do PP, que não seja capaz de reconhecer o erro que representou a guerra do Iraque. "Na Espanha não há um verdadeiro debate democrático", afirma o escritor, "todos se acusam, e essa é uma lição que têm de aprender, tanto a direita como a esquerda".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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