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13/03/2010

Gregos se irritam com brincadeira alemã de vender Acrópole para salvar a economia em crise

El País
Álvaro de Cózar
Em Madri
  • Templo do Partenon, na Acrópolis de Atenas. Deveriam os gregos pendurar a placa vende-se?

    Templo do Partenon, na Acrópolis de Atenas. Deveriam os gregos pendurar a placa "vende-se"?

Os gregos não acharam muita graça na ideia proposta por dois parlamentares alemães para tirar seu país da crise. Os deputados Josef Schlarmann e Frank Schäffler, da coalizão de centro-direita de Angela Merkel, sugeriram ao jornal sensacionalista "Bild" que, em vez de receber ajuda financeira dos alemães, os gregos poderiam vender algumas das quase 6 mil ilhas desabitadas que possuem. "Vendam suas ilhas, gregos quebrados! E a Acrópole também", foi o título do jornal "Bild".

"Não, não creio que seja engraçado e tampouco que fosse uma piada. É absurdo", respondeu na sexta-feira o ministro do Turismo grego, Pavlos Geroulanos.

Desfazer-se de território para obter dinheiro foi algo comum no passado; nunca uma ideia muito boa. A história ensinou aos governantes que a ilhota que hoje passa por terreno estéril pode se transformar no futuro em uma fonte de inesgotáveis recursos ou em um destino turístico onde estourar o cartão de crédito.

Os descendentes também têm o costume de lembrar como se vendeu mal uma parte da pátria. Na maioria das vezes, o negócio foi uma ruína. Em 24 de maio de 1626, um colono holandês chamado Peter Minuit comprou dos índios carnasie a ilha de Manhattan (onde hoje se situa o centro de Nova York). Minuit pagou com tecidos, colares e uma quantidade de quinquilharias, no valor total de 60 florins, US$ 24 na época, segundo afirma o site da cidade na web. Ambas as partes fecharam o acordo pensando que haviam saído ganhando: Minuit porque o terreno saiu barato e os indígenas porque conseguiram passar por nativos de uma terra que na realidade pertencia à tribo dos lepane.

Também não obtiveram muitos benefícios os franceses, quando em 1803 venderam para os EUA o território da Luisiana. O preço da venda foi de US$ 11,2 milhões da época, mais que o dobro do que a Espanha recebeu pela venda da Flórida. Sim, foi rentável para os russos a venda do Alasca em 1867, não porque se encheram os bolsos com os US$ 7,2 milhões que custou aos americanos, mas porque então era um terreno improdutivo e difícil de defender. Na época ninguém entendeu bem a operação. A imprensa americana ironizou sobre o assunto, chamando o território de Icebergia, "a geladeira nacional" ou simplesmente "a estupidez de Seward", nome do secretário de Estado que mais insistiu na compra. O acordo não foi nenhuma idiotice: os novos proprietários encontraram primeiro ouro e cem anos mais tarde, petróleo.

A venda de territórios se fazia passar quase sempre como uma indenização pela guerra que o país comprador havia ganho. "Que os países fizessem negócio com parte de seu território era normal, no passado", salienta Carlos Malamud, historiador do Real Instituto Elcano. "O México perdeu assim a metade de seu território (que passou para os EUA e continua em suas mãos) depois da independência. Se algum dirigente pensasse hoje em ceder a pátria dessa maneira acabaria fuzilado."

Os governantes gregos não estão interessados, e também não parece que era à venda de territórios entre Estados que se referiam os deputados alemães, e sim a particulares, talvez turistas alemães, que tem interesse e experiência na compra de ilhas. "É isso que estão fazendo com Mallorca, comprando-a pouco a pouco", comenta o catedrático de Geografia Humana Pere Salvà, que apresenta o dado de 75 mil alemães em Palma, entre recenseados e residentes há mais de seis meses.

Pode ser uma brincadeira, mas a ideia foi sugerida há 20 anos por outro político alemão, o deputado conservador Dionys Jobst, que propôs que o governo federal comprasse a ilha da Espanha e a transformasse no estado número 17 da República Federal Alemã.

Quanto custa Mallorca? E uma ilha grega? Taxá-las é possível, mas para dar uma quantia seria preciso levar em conta muitos fatores, como patrimônio histórico, a quantidade de solo original e a possibilidade de construir. Mais fácil é dar um preço para a venda de ilhas privadas. As 16 ilhas que são vendidas no site Private Islands Online custam entre 581 mil e 11 milhões de euros. Segundo o fundador dessa empresa, Chris Krowl, os milionários devem ter cuidado ao comprar porque os países costumam impor muitas restrições ambientais. "Em algumas nem sequer se pode construir", explica.

Em todo caso, hoje é difícil que os Estados possam perder a soberania sobre seu território. "As constituições costumam ser rígidas sobre isso. Pode-se vender um terreno desocupado, mas não a jurisdição sobre ele", salienta Antonio Remiro Brotons, catedrático de Direito Internacional. Diante dessa impossibilidade, e descartada a opção pouco estética da invasão militar, alguns países se inclinaram pelo chamado " land grabbing" (apropriação de terras em inglês), uma modalidade criticada por seu caráter neocolonialista. China, Índia e Coreia do Sul vêm acumulando terras na África há dez anos.

Tanto nesses casos como na venda de ilhas habitadas, ninguém costuma perguntar à população se está de acordo. Em 1899, depois de perder as ilhas Filipinas, a Espanha vendeu as ilhas Carolinas e as Marianas para a Alemanha por 25 milhões de pesetas. A única voz que se levantou contra a venda foi a do ex-presidente da Primeira República espanhola, Francisco Pi y Margall: "Devo rejeitar toda a cessão de territórios que se faça sem o consentimento explícito de seus habitantes, porque é uma coisa contrária à dignidade e personalidade dos povos". Sua opinião não soa tão antiga hoje.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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