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16/03/2010

"Gaza é um organismo iraniano", diz Shimon Peres, presidente de Israel

El País
Javier Moreno
  • O presidente israelense, Shimon Peres, durante visita oficial à Brasília, em novembro de 2009

    O presidente israelense, Shimon Peres, durante visita oficial à Brasília, em novembro de 2009

Prêmio Nobel da Paz e referência histórica no Oriente Médio, Shimon Peres reivindica a essência democrática e moral de seu país, defende a solução dos dois Estados e denuncia os planos imperialistas do Irã na região.

1. "Ben Gurion sempre me dizia..."

Quando se atravessa a porta do gabinete de Shimon Peres, é inevitável pensar que quase sete décadas atrás, quando o atual presidente de Israel começou a dar seus primeiros passos na política - em movimentos juvenis de esquerda, depois na Haganah, o embrião do futuro exército israelense -, o Estado de Israel ainda não existia, a Palestina estava sob o mandato dos britânicos e David Ben Gurion, que o havia encarregado do suprimento de armas antes da proclamação da independência e depois o nomearia o mais jovem diretor do Ministério da Defesa, ainda não havia se transformado no legendário primeiro chefe de governo de Israel que viria a ser.

Desde então Peres passou por cinco partidos políticos diferentes, foi quase tudo nos governos e nas oposições, foi a cara amistosa de Israel no exterior, onde em geral foi sempre mais apreciado do que em seu próprio país, e foi deputado de forma ininterrupta (exceto por um breve período de três meses) de 1959 até sua eleição como novo presidente de Israel em 2007. O Prêmio Nobel da Paz (junto com Isaac Rabin e Yasser Arafat) em 1994 pelos Acordos de Oslo, dos quais foi o principal artífice, e sua condição de referência para a esquerda israelense durante tantos anos compõem uma figura formidável, de uma presença fértil e contínua no cenário político e diplomático do Oriente Médio. A conversa transcorre em seus escritórios em Jerusalém, em um espaço cheio de livros, dias antes da última polêmica por causa da construção de novas residências para israelenses na parte árabe da cidade, anunciada durante a visita do vice-presidente americano, Joseph Biden.

Peres não perdeu nada de sua cordial vitalidade, apesar dos 89 anos, nem de sua curiosidade, e só sua complexa agenda o impede de prolongar a conversa além do tempo combinado, assim como retomá-la à tarde, como me propõe inicialmente. Seus assessores, respeitosos mas firmes, o impedem. E efetivamente também é inevitável lembrar a dimensão histórica de Peres na construção de Israel e do Oriente Médio atual quando, em um momento da entrevista, ele reflete, baixando um pouco a voz: "Ben Gurion sempre me dizia..."

2. Tambores de guerra

Bastam alguns dias em Israel, exponho antes de mais nada a Peres, para escutar com clareza os tambores da guerra. Estende-se pelo Oriente Médio a ideia de que a guerra é um cataclismo praticamente inevitável e que, para utilizar aqui as mesmas palavras que escutei de um inteligente analista político israelense durante o jantar na véspera, "em pouco tempo haverá guerra; o que não se sabe ainda é contra quem ou contra quantos".

Os sinais estão se multiplicando. O exército distribuiu máscaras antigás, os exercícios militares se aceleram; o Banco Central acumula reservas de divisas, sem que ninguém se atreva a afirmar com certeza se efetivamente o país se prepara para uma guerra ou se trata de uma manobra do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, para convencer o mundo a deter a corrida dos aiatolás sob pena de que um ataque preventivo de suas forças armadas acabe com o programa nuclear iraniano e, com toda a certeza, provoque um conflito que pode arrastar todo o Oriente Médio para uma conflagração de consequências imprevisíveis.

O pesadelo de Israel se chama Mahmud Ahmadinejad. O presidente iraniano ameaça ritualmente apagar Israel do mapa, o que evoca, de modo compreensível, as piores lembranças do Holocausto, e transformou o Irã no problema número 1 do Estado judeu, acima de qualquer outra consideração ou circunstância. Poucos acreditam em Israel que as sanções que os EUA possam pactuar na ONU sirvam a seu objetivo final: impedir que o regime iraniano ingresse no clube das potências atômicas. E confiam menos ainda em que Obama atue pela força se as sanções acordadas (caso se chegue a algo razoavelmente dissuasivo) falharem. A consequência disso tudo é que a região inteira está se desestabilizando em velocidade vertiginosa e novas e perigosas fraturas surgem com mais rapidez do que seria possível fechá-las.

Tambores de guerra?, pergunto a Peres.

- Há algumas mudanças básicas no Oriente Médio que são acontecimentos muito recentes. Um deles é claramente o eixo que substitui o conflito palestino-israelense. Porque, dito cruamente, o mundo árabe - sobretudo os sunitas - suspeita de que os iranianos querem deter o controle do Oriente Médio. Ahmadinejad quer estabelecer uma hegemonia persa na região. Utiliza o conflito árabe-israelense como desculpa, porque não tem uma forma de convencer os sunitas que não seja com uma política anti-israelense. Depois há o Hizbollah no Líbano e o Hamas em Gaza. E há um conflito oculto em andamento, que pode ter um significado verdadeiramente crucial, que é a questão do Iraque. Se o Iraque se unir a esse lado (os xiitas no Iraque são muito importantes para o Irã), desestabilizará o equilíbrio atual. Por outro lado, o Irã terá uma bomba...

Os países árabes do Oriente Médio conviveram durante décadas com a convicção de que Israel possui um arsenal atômico. No entanto, esses mesmos países não se resignam agora a aceitar uma bomba atômica xiita. Egito, Arábia Saudita, Jordânia: ninguém quer ver como Teerã consegue a arma nuclear. Os responsáveis israelenses afirmam que o motivo é simples: seu país não mantém qualquer conflito com eles; suas fronteiras estão delimitadas ou ao abrigo de conflitos territoriais e em última instância sua organização política, o caráter e a profissão de sua fé ou suas relações exteriores lhes parecem indiferentes, desde que não representem uma ameaça para Israel.

Todos esses países árabes, no entanto, temem Teerã, um regime revolucionário dentro de suas fronteiras e fora delas. A mera possibilidade de que o regime dos aiatolás construa uma bomba atômica lhes causa calafrios por sua capacidade de influência não só em organizações (Hizbollah, Hamas) vistas como uma ameaça a sua estabilidade, mas também no coração e na vontade de milhões de cidadãos islâmicos (moderados ou não) que desconfiam tanto de seus governos como estes deles.

O que acontece se, de toda forma, o Irã construir uma bomba atômica?

- Então todo o Oriente Médio se tornará nuclear. Antes que isso ocorra, se chegar a ocorrer, o que já existe é uma guerra encoberta ou de baixa intensidade na região, uma guerra que é travada também por métodos convencionais, velhos como a própria guerra e cujos únicos vestígios visíveis são a série de assassinatos de inimigos de Israel, operados onde cometem um erro ou mostram a fragilidade de se expor a tiros; como Imad Mughniyah, o chefe militar do Hizbollah e estreito aliado de Teerã, liquidado em 2008 em Damasco com uma bomba dentro do encosto de cabeça de seu carro; ou Mahmud al Mabhuh, considerado a ligação do Hamas com a Guarda Revolucionária do Irã, eliminado em janeiro passado por uma nutrida equipe cujas evoluções sincronizadas no saguão, nos elevadores e corredores do hotel Rotana em Dubai, gravadas pelas câmeras de segurança, foram contempladas com raiva ou admiração, alternadamente, por milhões de pessoas em todo o Oriente Médio.

Há algo mais que indícios de que Israel não está só nessa guerra, mas que dispõe de certo grau de colaboração por parte de vários países árabes, que consideram que o islamismo radical ameaça a estabilidade dos seus regimes tanto ou mais que o Estado de Israel. O jornal árabe "Al-Quds al-Arabi", editado em Londres, sugeriu que no assassinato de Mughniyah colaboraram vários países árabes.

E no meio da conversa com Peres, em resposta a uma pergunta sem relação com os dois assassinatos que citei antes, o presidente oferece uma reflexão sobre a colaboração entre os serviços secretos de seu país e os de seus vizinhos, que ilustra quão espessa é a rede que se teceu na região e por que tudo - Irã, a bomba atômica, Gaza, as conversações de paz, os palestinos da Fatah por um lado, os palestinos islamistas do Hamas por outro, o Líbano - forma um magma que não pode senão abrasar tudo o que toca. E por que nesta região do mundo, talvez com mais intensidade que em outras, nada é o que parece.

- Hoje as relações secretas entre os diversos países são muito mais reveladoras que as diplomáticas. Tem mais sentido e é muito mais poderoso manter relações entre as diversas organizações de inteligência, porque já não se luta contra exércitos, mas com os serviços secretos. Não se limita a um país, não se limita a uma nação. É uma batalha de cérebros, mais que de tropas. E não se trata de ganhar depois do confronto, mas antes. Isto é: descobrir algo significa ganhar. Se não se descobre, perdeu-se. Não se luta contra um exército, luta-se contra uma organização. Nem mesmo contra uma organização, luta-se contra um poder estabelecido em diversos lugares, sem organizar, com tecnologias modernas. E se você prestar atenção nas relações formais na Jordânia, Israel, Egito e Palestina, é uma coisa. Mas se se aprofundar, sabe que seu inimigo não é realmente... seu inimigo é o Hamas, e isso é outra coisa. Por isso se tem constantemente essa espécie de relação encoberta por um lado, e depois as relações formais por outro.

A constante ascensão do Hamas desde sua fundação em 1987, sua influência crescente (especialmente desde que conseguiu o controle de Gaza em 2007), por sucessivos ataques terroristas contra Israel, tanto suicidas como através de mísseis, e sua luta de morte com os palestinos da Fatah só fizeram complicar ainda mais o já complexo tabuleiro do Oriente Médio. Quanto a sua relação com os aiatolás, Peres mostra-se meridianamente claro:

- Gaza está sob o domínio do Irã. É um organismo iraniano. O dinheiro é dado por eles.

O problema, afinal, consiste em: o que fazer com o Irã? Peres afirma que transformar o Irã em um problema exclusivamente israelense, do qual a comunidade internacional possa se desentender quando chegar o momento do confronto aberto, constituiria um erro, e com isso concordam milimetricamente todas as opiniões que pude recolher nestes dias em Israel, tanto de altos responsáveis do governo como da oposição, como se de repente toda a sociedade israelense compreendesse que no momento supremo da verdade, quando chegar o cara-a-cara definitivo com Teerã, o mundo se sentirá comprometido com seu destino. Ainda mais se se considerar que a comunidade internacional não poderá aceitar as duas únicas sanções que, segundo se acredita em Jerusalém, poderiam dobrar Ahmadinejad: um embargo total da venda para o Irã de gasolina e combustíveis refinados (o país só pode refinar 40% do combustível de que necessita), o que produziria uma paralisia total, e um embargo à compra de cru, o que afetaria suas fontes de divisas.

- A política sobre o Irã deveria consistir em três partes. Para mim, a primeira é a mais importante: não as sanções econômicas, mas as sanções morais. Deveríamos chamar Ahmadinejad por seu nome: é um ditador, tem a ambição de criar um império, é astuto, tem uma organização terrorista, ameaça destruir Israel, enforca sua própria gente. Seria incompreensível que não o conseguíssemos. Está quase se transformando em um herói cultural! Se isso ocorrer, sairá triunfante. Supõe-se que eu devo ser um político pragmático, eu sei. Mas, sendo pragmático, considero que o apelo moral é o mais poderoso, antes de tudo o mais. O segundo ponto são as sanções econômicas. E depois, medidas de defesa contra os mísseis iranianos por toda parte, para que os países do golfo Pérsico ou os países árabes não sintam que a catástrofe paira sobre eles. Os EUA começaram introduzindo vírus antibalísticos no golfo Pérsico. E creio que todo o Irã deveria estar cercado por esses mísseis. É preciso mudar duas coisas: deve-se deter a produção da bomba, mas também permitir que a população iraniana... animá-la a mudar de governo, como se faz com todas as ditaduras. Isso é o que eu creio que deveria ser feito.

E se tudo isso fracassar, pode-se descartar um ataque preventivo de Israel?

- Olhe, Israel não intervém nem atua de forma unilateral. Creio que é algo que Israel não deve tentar monopolizar. O problema é mais amplo e mais profundo. O problema envolve todo o Oriente Médio. Israel desempenhará seu papel.

- O senhor crê que o presidente Obama está em situação de liderar uma saída para o problema?

- Não tem outra opção.

- Desculpe?

- Ele não tem outra opção. Ele mesmo anunciou um plano A, um plano B. E agora tem um problema com sua própria credibilidade. Creio que ele tem consciência disso. Não o estou criticando. Creio que pensava que precisava ter um pouco de tempo para animar os russos e os chineses. Ele acredita que teve um certo sucesso com os russos, e são um ingrediente importante. E não quer fracassar no Conselho de Segurança da ONU. Por isso creio que vai demorar algumas semanas se quiser formar uma coalizão.

3. Os palestinos

- Por que é tão difícil fazer as pazes com os palestinos?

Não sou eu quem faz a pergunta, mas o próprio Peres. E a verdadeira e até honesta surpresa que parece encerrar a mera formulação dessa pergunta mede com precisão a descomunal distância que separa israelenses e palestinos, apesar de todas as mudanças que estão ocorrendo nos últimos meses. Peres não se perguntou por que é tão difícil fazer as pazes com os israelenses. Ou por que é tão difícil que israelenses e palestinos façam as pazes. Ele se pergunta, apesar de toda a experiência de seus quase 90 anos, por que é tão difícil fazer a paz com os outros, a eterna pergunta de todo conflito desde que se que inventaram os conflitos.

A mais transcendente dessas mudanças recentes é sem dúvida o anúncio de Netanyahu de que está disposto a aceitar um estado palestino, feito em junho do ano passado em um discurso na Universidade de Bar-Ilan. Muitos observadores críticos de Israel salientam que as exigências que Netanyahu detalhou naquele discurso são tantas e tão inaceitáveis para os outros que na prática nada mudou para os palestinos, e que o primeiro-ministro buscava somente aplacar um Obama que havia se comprometido com o mundo árabe em sua famosa conferência do Cairo, pronunciando em voz alta as duas palavras que Washington e o mundo esperavam dele: "Estado palestino".

Esse futuro Estado palestino, sejam quais forem suas possibilidades, é no entanto uma ideia amplamente aceita tanto pela sociedade israelense atual como pela classe política, a direita e a esquerda. Todo mundo concorda que os palestinos precisam ter um Estado. O que antes era patrimônio da esquerda é hoje uma posição compartilhada por todo o espectro político, que parece ter compreendido finalmente que Israel precisa de fronteiras definidas com a Palestina e que necessita delas com urgência crescente. Altos membros do governo e das diversas oposições afirmam em particular que dentro de poucos anos a demografia dificultará ou impedirá definitivamente uma solução para o conflito. A porcentagem de alunos árabes ou judeus ultraortodoxos aumenta sem parar todo ano nas escolas israelenses, sem contar com o desafio que poderia representar para o Estado judeu se dentro de alguns anos os palestinos renunciassem a pedir um Estado próprio e começassem a batalhar pela igualdade de direitos, começando pelo voto, nos territórios ocupados.

Todas as forças políticas (e também Netanyahu) estão conscientes de que, para chegar a um acordo, será necessário fazer importantes concessões territoriais (retirada de muitos assentamentos), emocionais (reviver as cenas de colonos chorando, rezando e abraçando seus soldados que foram vistas em Gaza) e inclusive, talvez o mais doloroso, histórico-bíblicas (Judeia e Samária perdidas para sempre), mas mostram-se seguros de que a maioria da população (entre 65% e 70%) apoiaria essa solução em troca, sim, de que os refugiados não voltem e da desmilitarização da futura Palestina. O presidente israelense percebe essa mudança histórica e se dá conta das implicações que representa tanto para o processo de paz como para a dinâmica política interna em Israel.

- Deve-se entender que uma solução que preveja dois Estados é uma revolução para Netanyahu. Para mim é natural porque nesse debate histórico os revisionistas eram a favor da integridade de Israel. Hoje, no entanto, o antigo líder desse campo, Netanyahu, afirma que a solução de dois Estados para ele é a revolução. Para mim é normal. Havia uma clara distinção: a esquerda apoiava a ideia de dois Estados e a direita era contra. Veja, Olmert, o primeiro-ministro anterior, foi muito mais longe que a esquerda de Israel, e era de direita. A líder da oposição, Tzipi Livni, é de direita. O primeiro-ministro chegou a uma solução que previa dois Estados. Acabaram-se as definições antigas. Há uma nova situação e há novos problemas e novas promessas.

- E por parte dos palestinos?

- O que Ben Gurion fez, que não tinha precedente, foi construir um Estado sem fronteiras. Eu falei longa e calmamente com os palestinos: "Façam o mesmo! Construam um Estado e depois falaremos das fronteiras". Agora começaram com Fayad. Está construindo um Estado. Mas os palestinos dizem que não confiam que estejamos dispostos a deixá-los construir um Estado. Tenho uma relação com os palestinos, falo com eles, e lhes disse: "Olhem, o que acontece é que vocês julgam tudo pelos discursos e os artigos". Se fôssemos contra um Estado palestino, não estaríamos tentando construí-lo. O fato é que agora estamos construindo uma força defensiva. Estamos construindo uma economia. E estamos desmantelando postos de controle. Estamos animando as pessoas a investir. Estamos construindo suas instituições, elaborando suas instituições. Se fôssemos contra... Sabe? Eu falei longa e calmamente com Arafat. Ele me disse: "Se o mundo árabe nos apoiasse como o mundo judeu apoia vocês, não teríamos problemas". Mas o apoio era só verbal, só de palavra.

Seja qual for o futuro dessas negociações que hoje ninguém sabe com certeza se sequer chegarão a ver a luz, poucos não veem que existe um descomunal buraco-negro no centro do conflito, que ameaça engolir com uma força devastadora todos os esforços para conseguir a paz de ambos os lados, que fragiliza a posição negociadora de Mahmud Abbas ou mesmo a anula, que põe em risco seu incipiente projeto de Estado e que levou às cúpulas políticas dos EUA e do Egito a concordar na singular conclusão de que ambos compartilham fronteiras com o Irã: Gaza, ou mais especificamente o controle de Gaza por parte do Hamas.

Os ataques suicidas que aterrorizaram a cidadania israelense, primeiro, e a utilização do território como base para lançar milhares de foguetes sobre cidades, kibutzim, plantações e estacionamentos esgotaram a paciência dos diversos governos israelenses e levaram o exército a lançar uma operação em Gaza que durante três semanas, no inverno de 2008-2009, causou centenas de mortes, incluindo de mulheres e crianças, destruiu escolas, hospitais e numerosas instalações civis. Houve relatos sobre a utilização de fósforo branco e de abusos e excessos por parte das tropas israelenses. A percepção das opiniões públicas europeias foi majoritariamente negativa em relação a Israel, um clima que o relatório do juiz sul-africano Richard Goldstone, encarregado pela ONU, fez mais que consolidar, ao acusar de crimes de guerra ambos os lados, mas insistindo na maior responsabilidade de Israel.

- Depois da operação que realizamos em Gaza, todo mundo pergunta: "Por que não aceitaram que fosse criado um comitê de investigação?" E eu digo: "Esperem um pouco. Não concordamos com o corolário que vocês insinuam. Se querem realizar uma investigação internacional, por que não começar por Kosovo? Morreram 600 civis e a embaixada chinesa foi bombardeada. Por que não realizar uma investigação? Por que não investigam o que aconteceu no Afeganistão ou na Somália, ou no Sudão, no Iraque ou na Chechênia? Por que querem que sejamos nós os primeiros?" Sabe por quê? Porque há uma maioria constituída contra Israel. Essa é a única razão. Se investigassem tudo isso, veriam que o que Israel fez foi com um cuidado incrível. Agora, há dois ou três dias, 27 civis foram assassinados no Afeganistão. Alguém diria que foi de propósito? E vocês têm seus próprios problemas com os terroristas na Espanha e sabem o que lhes fizeram. Para um país que cumpre as leis é extremamente difícil lutar contra uma organização que não o faz. Vocês também sabem disso. E nós também nos perguntamos: "O que querem de nós? Saímos de Gaza. De que tipo de ocupação estão falando?" Sharon teve a coragem de tirar todos os nossos colonos de Gaza. Tivemos de mobilizar 45 mil policiais. Custou US$ 2,5 bilhões. Então por que estão nos lançando mísseis? Oito anos! E todo mundo diz: "Deveriam ter utilizado outros meios". E eu pergunto: "Está bem, que outros meios creem que deveríamos ter utilizado?"

- Arrepende-se de como efetuou a operação?

- Gostaria que não tivéssemos precisado efetuá-la. Não tínhamos qualquer outro objetivo que não fosse a defesa própria. Não fomos para voltar a ocupar Gaza. Não.

- Acredita que foram cometidos erros?

- A guerra é um erro que produz erros. A guerra não é um baile em um hotel de Viena. Isso é besteira. Eu disse várias vezes o que sinto. Quero acrescentar uma coisa que é muito importante. Nós investigamos nossos próprios erros, e o fazemos com consequências. Para investigar não preciso de uma terceira parte. Penso que se tivermos de permitir a participação de Khadafi e de Ahmadinejad, de que estamos falando? Porque a ONU não é um tribunal, é um Parlamento no qual Israel não tem a menor possibilidade de obter uma resolução justa. Nunca teve.

- O que Israel vai fazer com Gaza no futuro?

- Esse é seu problema, não nosso. Nós só queremos uma coisa: que não haja mais mísseis. Isso é tudo. Não estamos interessados em Gaza, nem em voltar a ocupá-la nem em administrá-la. E deveremos apoiar claramente a superioridade de Abu Mazen [Mahmud Abbas] no que se refere a Gaza. É nosso parceiro. E que façam que tiverem de fazer.

- Os palestinos parecem confiar muito em que Obama possa pressionar Israel.

- Com base em minha experiência, em minha maturidade, não espero que os palestinos sejam antiárabes. E aconselharia os árabes a não esperar que os americanos sejam anti-israelenses. Não deveriam esperar algo assim, não deveriam. Por isso precisamos negociar. Os países árabes podem dar uma grande contribuição. A Europa pode dar uma grande contribuição. Mas as negociações têm de ser realizadas entre as duas partes.

4. Conclusão: O discurso moral

Quanto tempo um país pode viver em guerra sem arruinar sua democracia? Quanto tempo uma sociedade pode sofrer os embates do terrorismo mais cruel sem ver sua estatura moral cambalear? Muitas vozes em Israel, e singularmente as de escritores como Amos Oz ou David Grossman, alertaram sobre o dilema moral e o risco para a democracia que a sociedade israelense enfrenta, sem deixar de indicar a incompreensão geral dos europeus para com o sentimento de vulnerabilidade e solidão diante da violência que sofrem os israelenses.

Se já é certamente inimaginável uma vida humana isolada, em termos individuais, sem nunca conhecer a paz, como é marcada uma sociedade que não gozou de alívio nos últimos cem anos? Que gerações inteiras, avós, filhos, netos não tiveram outra experiência além da guerra, o confronto, a hostilidade dos vizinhos? As distorções morais são então inevitáveis e Israel não é exceção: uma certa indiferença da maioria pelo sofrimento dos palestinos; uma certa atrofia da sensibilidade que, por exemplo, leva a batizar a operação contra o Hamas em Gaza de Chumbo Derretido, com sua ressonância de castigo cruel, de proporções bíblicas, embora exista uma explicação na tradição judia para essa escolha tão singular. Peres mostra-se firme:

- Creio que somos democráticos e morais.

A questão, naturalmente, é por quanto tempo. Como indicou Grossman com preocupação, Israel é uma nação de guerreiros que elege guerreiros para governá-la e que pensa antes de outra coisa em subjugar o adversário antes de falar com ele. E esse ciclo, que se sucedeu a si mesmo irremediavelmente durante gerações, parece que tem os dias contados porque os fanatismos em ascensão de ambos os lados ameaçam pôr fim a ele de forma violenta. Nos últimos minutos da conversa, Peres também se mostra firme diante do que talvez represente o maior desafio intelectual e moral para um político israelense de sua envergadura.

- Continuaremos existindo e continuaremos sendo democráticos. Não temos outra opção. Se deixarmos de ser democráticos, deixaremos de ser judeus. Se se deixa de existir seria despedir-se, acabou-se. Isso não é absolutamente negociável. Isto não é uma reflexão "en passant". Assim estamos vivendo há 3 mil ou 4 mil anos. Não vamos voltar à escravidão. Isso terminou. E nosso problema e nosso ponto forte é que, apesar de todas as imagens, o apelo moral é nosso guia. E se tivermos de defender nossa vida defenderemos nossa vida. E algumas pessoas que não precisam fazê-lo nos criticam. Gostaria que este país fosse como a Suécia. Então criticaria a Suécia.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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