UOL Notícias Internacional
 

17/03/2010

Israel controla 60% da Cisjordânia através de 120 colônias

El País
Juan Miguel Muñoz
Em Jerusalém
  • Manifestantes palestinos atiram pedras contra a polícia israelense em Jerusalém Oriental. O grupo islâmico palestino Hamas convocou um Dia da Ira para protestar contra as ocupações

    Manifestantes palestinos atiram pedras contra a polícia israelense em Jerusalém Oriental. O grupo islâmico palestino Hamas convocou um "Dia da Ira" para protestar contra as ocupações

A política de fatos consumados impede a criação de um Estado palestino

O muro de concreto; os alambrados; as torres de cimento cinza; as estradas segregadas; os controles militares e os caminhos cortados por blocos de granito, barreiras metálicas ou montes de areia desenham a paisagem ondulada da Cisjordânia ocupada, tudo isso coroado pelas belas colônias israelenses e suas casas de telhado vermelho.

Quase 43 anos depois da conquista do território, mais de 500 mil colonos o habitam - cerca de 200 mil em Jerusalém Oriental -, inseridos entre 2,5 milhões de palestinos. Povoam 120 assentamentos, muitos deles dispersos, outros agrupados em três grandes blocos: Ariel, Maale Adumim e Gush Etzión. Neste último, bastião do sionismo religioso, nasceu a aventura de uma colonização que dispõe de um maquinário esplendidamente azeitado pelo fanatismo messiânico e o apoio de governos que nunca confrontaram, ou não quiseram, os mais extremistas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu os considera seus "irmãos".

Levy Eskhol governava Israel em 8 de junho de 1967, quando, horas depois de Jerusalém ser conquistada pelo exército israelense, David Ben Gurion afirmou: "Agora controlamos Jerusalém, o que representa um dos maiores acontecimentos. Uma das primeiras coisas que temos de fazer é construir bairros, assentar judeus no bairro judeu da cidade velha. Se há casas árabes vazias, colocaremos judeus nelas. O mesmo se estende a Hebron. Estou convencido de que as pessoas irão". E foram. Os colonos chamaram e exigiram rapidamente do primeiro-ministro Eskhol autorização para construir comunidades no que os judeus denominam Judeia e Samária.

São 42 anos de fatos consumados e violação da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU. Nunca se perdeu tempo. Shimon Peres redigia, lá por setembro de 1967, as linhas mestras da política do Rafi, o partido que havia criado com seu mentor, Ben Gurion. Peres defendia a construção de bairros no norte, sul e leste de Jerusalém, e acrescentava: "Os lugares abandonados em 1948 serão renovados". Assim se fez. Em Hebron, Kfar Etzion, Kedumim ou Elon Moreh, os líderes fanáticos que ainda hoje encabeçam a colonização não escondiam seus desejos. Durante quatro décadas os sionistas religiosos encabeçaram um plano que sempre contou com o apoio do direitista Likud, sob a batuta de Ariel Sharon. Mas também do trabalhismo, que competiu para se erguer em porta-bandeira da expansão colonial.

Dias depois daquela guerra já se escutavam vozes que alertavam sobre o risco de se apoderar da Cisjordânia. Mas a euforia cegou grande parte dos dirigentes israelenses. "A Jerusalém unificada permanecerá em território de Israel (...) Como fase interina, a situação militar permanecerá na Cisjordânia (..)." O comunicado do governo de 19 de junho de 1967 não foi totalmente premonitório. A ocupação militar logo deixou de ser transitória.

  • Nati Shohat/EPA

    Jovnes palestinos queimam pneus em protesto contra as ocupações de territórios por Israel

Sem acordo
Além das 120 colônias, mais uma centena de pequenos assentamentos são hoje o lar de jovens religiosos educados na promessa de redimir a terra sagrada de Israel, desde o Jordão até o Mediterrâneo. São a ponta-de-lança de um movimento radical que nega qualquer possibilidade de compromisso com os palestinos. "A terra de Judeia e Samária foi outorgada por Deus aos judeus. Ponto”, costumam afirmar. Também não se esforçam demais para fazer saber suas intenções aos governantes israelenses.

Chegam com sua caravana a uma colina ou ladeira de uma montanha e montam sua casa pré-fabricada. Meses depois, desfrutam de luz e água e, é claro, de proteção do exército. São assentamentos ilegais, segundo o próprio governo israelense, que várias vezes prometeu desmontá-los. No entanto, floresceram como fungos.

Esse emaranhado de colônias, os espaços de segurança ao seu redor e as áreas militares fechadas comem até 60% do território da Cisjordânia. Os acordos de Oslo a batizaram como zona C. Áreas sob completo domínio israelense, onde os palestinos não podem construir. O território em que a Autoridade Palestina exerce o poder se limita a 20%. Nada de soberania. Batidas quase diárias do exército israelense, enormes dificuldades para se deslocar para estudar ou ir aos hospitais, problemas muitas vezes insolúveis para viajar ao estrangeiro, a destruição de plantações e o ataque de colonos a povoados deixaram de ser novidade. A atividade econômica, sempre ao compasso dos acontecimentos políticos e das alterações violentas, tropeça com o labirinto burocrático e a arbitrariedade dos comandos militares e de qualquer soldado de guarda em um posto isolado. Um tormento para a população palestina.

É possível fundar um Estado palestino sem desmantelar grande parte desse tramado? Impossível. Um líder palestino aceitaria um Estado sem Jerusalém Oriental como capital? Não nasceu esse dirigente. Enquanto isso, os funcionários continuam fazendo projetos urbanísticos para assentar judeus nos bairros árabes da cidade santa. Às vezes, como aconteceu com o anúncio feito durante a visita do vice-presidente dos EUA, Joseph Biden, saem à luz no momento menos oportuno, ou talvez no momento desejado.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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