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17/03/2010

"Tea Party" reanima nacionalismo xenófobo nos Estados Unidos

El País
Miguel Ángel Bastenier

Em 1773, um grupo de colonos disfarçados de índios atirou ao mar no porto de Boston um carregamento de chá, em protesto pelo monopólio colonial do transporte e comércio do produto. A historiografia pátria consagrou aquele modesto motim como um dos primeiros atos de rebeldia contra a metrópole britânica, que acabaram por conduzir à guerra de independência. E a presidência de Barack Obama funcionou curiosamente como galvanizador de um nacionalismo xenófobo que se faz chamar de "Movimento do Tea Party", que, ainda sem líderes oficiais nem aparato, já reúne milhões de seguidores.

Os movimentos "nativistas", ou de busca de essências patrióticas incorruptíveis, nunca andam longe da superfície na vida política norte-americana. A fundação dos EUA não se realizou como a Revolução Francesa, em nome da humanidade para fazer tábua rasa do passado, e sim para recriar no Novo Mundo um suposto governo parlamentar de gente acomodada, que as despóticas autoridades coloniais violavam; queria ser uma restauração.

Foi assim que nasceu em 1845, para efêmera fama, o movimento dos "Know-Nothing" (os que nada sabem), que fundou o Native American Party (Partido Nativo Americano) contra a então maciça imigração de irlandeses, que além de estrangeiros tinham a peculiaridade de ser católicos.

Esse "americanismo" áspero era antipapista, antinegro, antijudeu e anti tudo o que fosse diferente como reivindicação de identidade do branco, anglo-saxão e protestante. E se seus componentes tivessem um gosto não demonstrado pela leitura sua bíblia contemporânea seria "Quem somos nós" (2004), do cientista político já falecido Samuel P. Huntington, um grito angustiado da anglo-saxonidade contra a "invasão" latino-americana, também e ainda majoritariamente católica, em nome de valores que, como dizia o autor, "não são os nossos".

O cientista político Richard Hofstadter tinha cunhado o termo "status anxiety" ("ansiedade da posição social") em seu "O Estilo Paranóico da Política Americana" (1965), no qual descreveu os que temem ver-se deslocados na sociedade pela maré do "outro", o que inclui qualquer tipo de modernidade, por mais sóbria que seja. O próprio Obama falou em sua campanha eleitoral de "eleitores que se aferram desesperadamente às armas de fogo ou à religião, mostrando-se contrários a tudo o que não seja igual a eles". Palavras tão bem escolhidas que teve de se retratar imediatamente pelo escândalo que se formou.

O Movimento do Chá pode se esfumar como tantas outras tentativas de criar uma terceira força, e nem sequer foi dito que pretenda um dia se transformar em partido, mas pode escorar fortemente a formação política republicana que os mentores do último Bush já tinham levado para a direita. Essa tomada de poder interna possivelmente agradaria a um dos inspiradores mais visíveis do pessoal, a líder do pensamento político cristão Sarah Palin - nascida católica e hoje devota protestante -, que foi candidata à vice-presidência com o republicano John McCain. O movimento também olha com ilusão para tele-evangelistas da política como Rush Limbaugh e acusa o presidente de estrangeiro e estrangeirizante; socialista; frágil ou mesmo agente do islamismo, do terrorismo e do comunismo, para que ninguém duvide contra quem estão.

Mas na rua os hipotéticos eleitores do chá abominam e se assustam diante dos cabelos compridos, do feminismo ruidoso, do poder negro, da conspiração judia, do braço armado de Roma - a imigração latina - e, como compêndio de tudo isso, qualquer governo que possa sentir a mais mínima tentação social-democrata. Assim poderia se travar um combate entre as duas almas do Partido Republicano: populismo contra elitismo; liberalismo anarquizante contra o mais insignificante intervencionismo de Estado; fanatismo religioso contra a relativa moderação em questões morais da aristocracia republicana.

Essa "intifada" fundamentalista nada deve a um Edmund Burke, o compilador de tudo o que, respeitavelmente, caberia dizer contra a Primeira República francesa e a guilhotina. Ao contrário, é uma fúria desatada pela presença de um afro-americano na Casa Branca, porque entre os clichês criados na época da eleição de Obama talvez o maior tenha sido que havia se rompido o tabu da cor para a presidência. Os brancos, como sempre, elegeram McCain, e se o democrata triunfou foi pela afluência absolutamente inédita de latinos nas urnas. O paradoxo consiste hoje em que o presidente que despertou no mundo as maiores e melhores expectativas está extraindo dos EUA o pior de si mesmo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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