UOL Notícias Internacional
 

19/03/2010

A internet não vai acabar com os jornais impressos

El País
José Luis Barbería
  • Motoristas leem jornal junto a ônibus parados próximos à Prefeitura de São Paulo

    Motoristas leem jornal junto a ônibus parados próximos à Prefeitura de São Paulo

Alguns preveem o fim da imprensa escrita por causa da explosão da internet. O verdadeiro dilema, no entanto, não está entre jornalismo impresso ou digital, mas, como sempre, entre bom ou mau jornalismo

Na rede já proliferavam as narrativas do terremoto, e também vídeos falsos como o que as televisões recolheram no YouTube, mas o mundo só fez uma ideia precisa da catástrofe do Haiti quando os enviados especiais puseram seus pés lá. Só então chegamos a ter uma medida da tragédia, a aspirar o odor adocicado da cadaverina, a sentir as mãos dos meninos perdidos que se agarravam às dos jornalistas.

Um sentimento de orgulho profissional percorreu as redações de meio mundo quando os "nossos" chegaram ao Haiti e começaram a cumprir seu ofício: descrever o que há, averiguar o que acontece, apalpar o sofrimento, remexer consciências e responsabilidades, desencadear a onda solidária. "Ei, companheiros, vejam: não estamos acabados, ainda podemos fazer bem as coisas", veio a ser essa mensagem. Orgulho, sim, porque o jornalismo anda com a moral deprimida. Muitos leitores, sobretudo jovens, já não visitam outro quiosque senão o totalmente grátis da rede, e sem negócio não há independência econômica nem informativa.

O panorama internacional projeta uma sombra preocupante: fechamento de veículos, redução de plantéis, migração de anunciantes para a web, previsões apocalípticas de que o jornalismo escrito tem os dias contados. "Outubro de 2044" - anote essa data porque, segundo as extrapolações do professor de jornalismo Philip Meyer, nessa data os jornais americanos perderão o último de seus leitores. No entanto, a análise das notícias divulgadas por 53 canais de informação de Baltimore mostrou que a imprensa generalista, seja em papel ou na web, produz 48% das notícias por elaboração própria; os jornais especializados, 13%; as televisões locais, 28% e as rádios, 7%, contra 4% das novas mídias: jornais digitais, blogs, sites locais, Twitter...

De acordo com esse estudo do gabinete de ideias Centro de Pesquisas Pew, os canais da internet, imbatíveis para dar a notícia em primeiro lugar, geralmente se limitam a reciclar as informações das mídias convencionais, sem dar maior valor agregado. Seria um triste paradoxo que a notícia verificada e contextualizada fosse engolida exatamente pela avalanche planetária atual de fontes emissoras e multiplicadoras de dados e opiniões. Que notícias (notícias, não comunicados de imprensa, destilações do marketing, doutrinas ou pregações) serão difundidas na internet quando esses "dinossauros" estiverem extintos? A eliminação da imprensa escrita acarretará o desaparecimento do jornalismo e dos jornalistas, pelo menos como os conhecemos até hoje?

No papel, o nascimento da internet - livre, gratuita, simultânea, horizontal, ilimitada - só poderia ser motivo de satisfação: chegou a mudança de paradigma, o novo vínculo entre imprensa e cidadania que permite transmitir todas as vozes, difundir as verdades que a mídia cala devido às pressões do poder. Acaba-se finalmente o oligopólio informativo que a elite profissional vinha exercendo sobre um público majoritariamente passivo. Está inaugurada a "democracia comunicativa".

Especialista dá soluções para crise no jornalismo impresso

À espera dos ajustes econômicos, jurídicos, técnicos e jornalísticos, o risco hoje consiste em jogar fora a água suja da banheira com a criança dentro. É essa a incerteza própria das situações em que o velho não acaba de morrer e o novo não acaba de nascer, ou simplesmente a angústia da adaptação forçada que o jornalismo escrito já conheceu com o surgimento do rádio e da televisão?

Além do anonimato, a internet deve ter algo para que, nestes primórdios, atraia tantos navegantes na intolerância que veem no bate-papo em grupo não um espaço para debater e rebater, mas um campo de batalha. Por que pululam aí pessoas inclinadas a denegrir ou vilipendiar, mentes preguiçosas que não leem o que desqualificam e soltam a primeira coisa que lhes passa pela cabeça? Não são só os "trolls", internautas especializados em provocar e irritar, que assaltam os fóruns e arrasam o diálogo racional comedido. São, sobretudo, internautas que veem sentido em arruinar o crédito e a reputação alheios, enquanto pontificam sobre o divino e o humano.

Em seu livrinho "Internet, o Êxtase Preocupante", Alain Finkielkraut escreveu que os cidadãos do ciberespaço comemoram como vitória da igualdade a liquefação do autor reconhecido. O filósofo francês acredita que o exercício irresponsável desse "direito a ser autor" que assiste a todo internauta e a possibilidade que oferece a mídia de agir sem compromisso, conduz a um modelo de "liberdade fatal". A escritora Rosa Pereda lembrou que o escândalo, a fraude, o insulto e a maledicência são as formas mais eficazes de controle social. Sua impressão é que na rede se reproduz o tom da discussão tabernal, com a diferença de que hoje estamos diante de uma taberna global permanente, onde tudo o que se diz, fica.

Segundo a Associação de Internautas, 70% dos espanhóis que navegam pela rede têm dificuldade para distinguir os boatos das notícias confiáveis. Embora a tese que nega fundamento à profissão de jornalista esteja no ambiente - "Por que não posso entrevistar Zapatero?", reclamava o orador de um debate universitário -, os internautas pensam que as versões online da imprensa convencional são, apesar de tudo, as fontes mais confiáveis.

É que o jornalismo se consagrou exatamente como filtro eficaz contra o boato. Equivocam-se os que acreditam que o jornalismo na rede pode prescindir da formação, do código deontológico, do estatuto de redação, da ética ou da vergonha mortal. "Ah, como se os jornalistas respeitassem seus códigos", dirão os que pregam o fim do jornalismo. Apesar de tudo, talvez os cínicos jornalistas retratados com maestria em "A Primeira Página", de Billy Wilder, sejam sujeitos simpáticos comparados com o que prolifera por aí. Melhor estar entre os três P's (putas, policiais, periodistas) do que se colocar nas mãos de grupos inescrupulosos ou de aficionados temerários atacados pela soberba.

Os que acreditam que podem suplantar o jornalista sem problemas poderiam fazer o simples exercício de elaborar uma notícia no tempo que os profissionais levam, para compreender que captar o significado, ordenar os dados com critério, contextualizá-los e redigi-los de forma compreensível e atraente é uma tarefa que exige conhecer o ofício. Não vimos escritores consagrados naufragar no gênero da reportagem, e intelectuais perder-se em entrevistas-rio, sem princípio nem fim? Com suas misérias e o pesado lastro de seus outros três P's domésticos - "paro" [desemprego, em espanhol], precariedade e pressões -, o jornalismo, onde o êxito é sempre efêmero e a reputação profissional caminha à beira do precipício, cumpre uma função imprescindível.

Apesar da qualidade indubitável de alguns espaços e do mérito pessoal dos que os animam, nosso universo digital está muito colorido por plataformas sectárias, "confidenciais" onde claudica a regra da verificação, fabulistas informativos que todos os dias rearmam a teoria da conspiração do 11 de Março, tertúlias de boca quente em disputa para ver quem diz a mais gorda. Mas a rede não inventou a mentira. A rentável escola da invectiva nacional já funcionava antes entre nós, como funcionavam os carniceiros que fazem espetáculo do mais sagrado.

Segundo isso, o problema não estaria entre o novo e o velho jornalismos, mas entre o bom e o mau, na urgência de restabelecer a relação perdida com o público.

"Enquanto muitos de nossos concorrentes se retiram, continuamos investindo em mais e melhor jornalismo, conscientes de que essa é a força de nossa marca. Acreditamos em um jornalismo de verificação e valorizamos mais a precisão que a velocidade ou a sensação. Ao contrário do que acontece em muitas redações, alçadas em guerra contra os que dirigem o negócio, em meu jornal nos organizamos para manter um sentimento de união objetiva", explicou Bill Keller, editor de "The New York Times". Ele está convencido de que sobreviverão "alguns dos melhores jornais" porque pensa que a sociedade exige um jornalismo sério. "Apesar de nossas desgraças, creio com todo o meu coração que os jornais, quer cheguem à porta de casa, a seu celular, a seu iPhone ou ao chip implantado em seu córtex cerebral, estarão conosco durante muito tempo", disse.

Portanto, asfixiados e desconcertados, mas ainda não acabados. Busca-se informação rigorosa e honesta sobre o que acontece na rua, ou seja, a receita clássica do jornalismo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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