UOL Notícias Internacional
 

22/03/2010

Movimento a favor das armas ressurge nos EUA por medo de que Obama as proíba

El País
Yolanda Monge
Washington (EUA)
  • Policial faz a guarda da Bolsa de Valores de Nova York

    Policial faz a guarda da Bolsa de Valores de Nova York

Ao que parece, não há motivo para preocupação só porque algumas dezenas de homens – e também algumas mulheres – armados com revólveres na cintura entram no restaurante Fuddruckers de Annandale (Virgínia, a 40 minutos de carro de Washington sem trânsito). Eles estão apenas exercendo um direito, que não é só o de se reunir – neste caso, para sair para jantar onde quer que os agrade e com as pessoas que desejem -, mas o de portar armas, como estabelece a segunda emenda da Constituição dos Estados Unidos.

Outro grupo passará no Starbucks que fica próximo da delegacia de polícia desta mesma cidade da Virgínia para tomar um café no meio da tarde. Eles também irão armados, em sua maioria com revólveres Smith & Wesson, ou pistolas semiautomáticas Glock. A intenção de todos eles é provocar, e estão conseguindo. O debate legal e político sobre as armas fica em segundo plano. Em vez disso, entra em cena um homem – ou mulher – comum, que pede um hambúrguer ou toma um café, armado com um 38.

Eles vão armados onde quer que seja. Têm orgulho de agir assim e demonstrar, esta é a chave da ação. De acordo com a ideia de que “um direito que não se exerce é um direito que se perde”, alguns cidadãos deste país – que contribuiu com a expressão “lei do Oeste” para o vocabulário mundial – decidiram desafiar a sociedade e sair à rua armados.

Por quê? Porque podem e querem continuar podendo. Porque a lei o permite. O objetivo é transformar a presença de armas em algo normal; conseguir que os revólveres passem tão despercebidos quanto um iPod no bolso da jaqueta ou o celular colado à orelha. Onipresença, é esta a palavra que eles querem associar às armas de fogo, que um revólver seja algo definidor de uma pessoa, e não motivo de exclusão.

Mike Stollenwerk, cofundador da organização OpenCarry, asegura que “chegou o momento para que os portadores de armas saiam do armário nos Estados Unidos”. Sottlenwer – antigo tenente do Exército, hoje estudante de direito em Georgetown – e seu companheiro de armas John Pierce fazem parte da campanha que os defensores e portadores de armas estão colocando em prática há alguns meses. “Eu carrego armas em público há quase dez anos e nunca tive nenhum problema”, explica Stollenwerk. “Se alguma vez me impediram de entrar em algum local, sempre houve outros lugares que me liberaram a entrada”.

Quando o primeiro presidente negro dos Estados Unidos assumiu seu cargo há mais de um ano, o lobby que defende as armas de fogo se sentiu ameaçado, entrou em alerta e acionou todos seus alarmes. A sensação geral e o temor dos mais fanáticos era de que Barack Obama os separaria de seus bebês (como muitos dos entrevistados chamam seus revólveres) e de sua munição. Foi assim que começou a campanha de sair armado em público, no caso de alguém ter se esquecido de que ter armas é um direito constitucional e carregá-las visivelmente em público é legal em 43 dos 50 Estados norte-americanos.

Entretanto, não houve nenhum projeto de lei contra. Aconteceu exatamente o contrário. Não só Obama manteve um silêncio sepulcral sobre o tema polêmico, como muitos Estados expandiram os direitos dos portadores de armas de fogo.

Em Indiana, por exemplo, as empresas já não podem mais proibir que os empregados tenham armas em seu local de trabalho.

Na Virgínia, foi aprovada uma lei que permite que os clientes de bares e restaurantes que servem álcool carreguem armas sem que elas tenham que estar à vista. São as chamadas “concealed weapons”, as armas escondidas ou encobertas, pelas quais a NRA (Associação Nacional do Rifle, na sigla em inglês) luta insistentemente com as assembleias legislativas estaduais. Como disse o já falecido Charlton Heston, ator e presidente da NRA: “O rebanho fica mais seguro quando os lobos não conseguem distinguir entre quem são os leões e quem são os cordeiros.”

No Tennessee são permitidos revólveres nos campos de esportes e parques infantis.

Se por um lado a lei permite o porte de armas, também permite que um estabelecimento impeça o acesso a qualquer pessoa que ande armada. Este foi o caso de algumas franquias como a California Pizza Kitchen ou o Peet’s Coffee and Tea. Não é o caso da onipresente Starbucks, que com cerca de 17 mil cafeterias em todo o mundo, permite que seus clientes nos EUA andem armados enquanto degustam um “frappuccino” ou se deleitam com um “café latte”. A pergunta frequente de um garçom do Starbucks a um cliente que vai gastar três euros num café, se ele quer um “single or double shot” - ou um café simples ou duplo, usando a palavra “shot”, ou disparo, como jargão para a quantidade de café que é servida – já não é mais tão inocente quando em várias mesas há pessoas que levam munição suficiente para resistir a um assalto.

Starbucks na mira

A campanha Brady de Prevenção à Violência com Armas já tem mais de 29 mil assinaturas recolhidas contra a política da Starbucks de permitir a entrada de pessoas armadas em seus estabelecimentos. “Todo mundo têm o direito de se sentar num restaurante ou café sem se sentir ameaçado pela presença das armas, estejam elas à vista ou não”, declara Peter Hamm, porta-voz da campanha Brady, que leva esse nome por causa de Jim Brady, assessor de imprensa de Ronald Reagan que ficou paralítico depois de ser ferido à bala numa tentativa de assassinato ao então presidente republicano. Desde então, em 1981, Brady dedica sua vida a promover a restrição do acesso às armas.

“Bem-vindos os ‘shots’ de café, e não os ‘gunshots’ [tiros de armas]”. Este é o lema da campanha Brady contra o Starbucks, a quem pedem para que os estabelecimentos sejam declarados “livres de revólveres”. O certo é que a atitude da rede surpreendeu aos que a consideravam “progressista”. Mas para a organização OpenCarry – defensora de portar armas em público –, o que a Starbucks está fazendo é “ser coerente”. “Se você defende os direitos individuais, tem que defender todos os direitos, não só os que casam com a sua ideologia”, diz John Pierce. “Aplaudo a decisão da rede de não limitar a liberdade de ninguém”. Bem-vindo seja o café com revólver. 

“Não gosto de me sentar ao lado de alguém que carrega uma cartucheira carregada com um revólver”, diz um cliente regular do Starbucks de Annandale, perto de Washington. “Eles dão medo e podem resolver seus conflitos a tiros”. “Se o Starbucks não mudar sua política, perderão um cliente”, assegura.

Tradução: Eloise De Vylder

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