UOL Notícias Internacional
 

22/03/2010

Projeto contra enchentes provoca polêmica em Veneza

El País
Milena Fernández
Veneza (Itália)
  • Moradores de Veneza (Itália) caminham por ruas e comércios alagados da cidade, onde as águas da chuva atingiram 1,44 m acima do nível do mar, inundando 60% da cidade durante a última temporada de chuvas na Europa

    Moradores de Veneza (Itália) caminham por ruas e comércios alagados da cidade, onde as águas da chuva atingiram 1,44 m acima do nível do mar, inundando 60% da cidade durante a última temporada de chuvas na Europa

O projeto Mose de comportas submarinas contra o alagamento da cidade histórica provoca protestos políticos e ambientais. A obra custou 4,6 bilhões de euros (R$ 11 bilhões).

"Este inverno foi muito difícil. Passei o tempo todo colocando os objetos em lugares altos ao anoitecer, e no dia seguinte, tentando secar a água da minha loja. Nós venezianos estamos acostumados a conviver com as marés altas, mas vou lembrar deste inverno para sempre.” A queixa é de Anna, proprietária de uma loja de máscaras, nas imediações da ponte de Rialto. Em 2009, sua loja foi inundada 125 vezes. Em 2008, a água entrou em 80 ocasiões.

Na última década, os efeitos das águas foram devastadores na cidade: dificultaram a circulação, danificaram o patrimônio arquitetônico e geraram prejuízos econômicos que alcançaram os 6 milhões de euros por ano (R$ 14,4 milhões). E as inundações são e serão cada vez mais frequentes, porque no século passado a água subiu um total de 23 centímetros na cidade.

Um ambicioso e polêmico projeto de engenharia promete assegurar a sobrevivência da velha urbe durante os próximos 100 anos. Chama-se Mose (sigla italiana para Módulo Experimental Eletromecânico – que também significa Moisés). Ninguém foi capaz de impedi-lo, pois 63% das obras já foram concluídas, apesar dos inúmeros protestos dos ambientalistas, das críticas da prefeitura de Veneza e das mal sucedidas denúncias de impacto ambiental apresentadas à União Europeia. O projeto deverá ficar pronto em 2014, três anos depois do previsto. O custo total (4,6 bilhões de euros) despertou muitas dúvidas. Inclusive por parte do próprio prefeito da cidade, Massimo Cacciari.

O aquecimento global provoca uma preocupante elevação do nível do mar. O aumento da temperatura do planeta é uma ameaça, adverte o engenheiro Paolo Canestrelli, diretor do Centro de Previsões de Marés de Veneza. “Isso leva a um aumento do nível médio do mar, o que é um verdadeiro problema, porque dentro de 100 anos as previsões indicam que o mar subirá 58 centímetros, e Veneza afundará mais dez”.

Na época em que era conhecida como a Sereníssima [do século 9 ao século 18], os venezianos optaram por elevar o pavimento das ruas e casas, técnica que a prefeitura repetiu até quando foi possível. Mas já quase não restam lugares que possam ser elevados para ganhar terreno em relação ao mar. As previsões para o futuro não são otimistas e a antiga cidade corre o risco de desaparecer.

A cidade milenar foi construída no centro de uma lagoa que se comunica com o mar Adriático através de três “portas”: Lido, Malamocco e Ghioggia, as quais, quando o projeto Moiséis funcionar, serão fechadas temporariamente. O Mose é formado por 78 comportas móveis no fundo do mar que, quando a maré supera 1,10 metro (em 2009 isso aconteceu 16 vezes), recebem uma injeção de ar comprimido que as eleva, impedindo a entrada da água. Três horas mais tarde, quando a maré baixa, as comportas voltam a encher de água até chegar de novo ao fundo do mar. A maior parte do tempo, as comportas ficarão submersas, o que, segundo Canestrelli, implicará um “custo de manutenção exorbitante”, se considerar que cada uma pesa 270 toneladas.

Gianfranco Bettin, do grupo municipal do Partido Verde, rejeitou o projeto Mose desde o início, e propõe repensá-lo. “Vale a pena pensar se um projeto antigo, que nasceu há 30 anos, ainda é válido”, diz o político. Ao início da polêmica, o município de Veneza advertiu que o Mose é irreversível e prejudicial para a lagoa. Apresentou 16 projetos alternativos à mesa de discussão da qual participaram especialistas de alto nível. O Consórcio Venezia Nuova é encarregado de realizar a obra. Ele é formado pelas mais importantes empresas de engenharia e construção da região do Vêneto. Mas foi o próprio consórcio que ficou encarregado de analisar as outras soluções, o que faz com que tanto Bettin quanto Marco Favaro, especialista em Ciências Ambientais do Observatório Naturalístico da Laguna de Veneza, suspeitem que foi escolhido o modelo mais caro, colocando em primeiro lugar os interesses privados acima do interesse público.

O engenheiro Pierpaolo Campostini nega com veemência todas as críticas feitas ao Mose, ainda que reconheça que sua funcionalidade poderá ser limitada. Campostini é diretor do Consórcio para a Gestão do Centro de Coordenação das Atividades de Investigação do Sistema Lagunar de Veneza, uma associação entre as Universidades de Veneza e Pádua, que investiga o comportamento da lagoa.

O Mose foi aprovado no primeiro governo de Romano Prodi, em 2003. Silvio Berlusconi e a direita, às vésperas das eleições regionais de 28 de março, defendem o Mose, comenta a porta-voz do consórcio, Monica Ambrosini. O projeto enfrentou muitos obstáculos, mas funcionará em 2014, assegura.

Campostini sustenta que o Mose é a melhor solução para Veneza. “É um sistema flexível: é como uma torneira, pode ser fechada total ou parcialmente. Campostini reconhece que o Mose deve ser usado com “cautela” porque do contrário corre-se o risco de que a lagoa se transforme numa gigantesca piscina de águas estanques. O Mose, assegura ele, responde às necessidades das mudanças climáticas e pode chegar a “frear” até dois metros de maré alta.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host