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23/03/2010

O papel de Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos EUA, na aprovação da reforma da Saúde

El País
Antonio Caño
Em Washington
  • A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, é aplaudida por congressistas após a assinatura da reforma da Saúde, no último domingo (21)

    A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, é aplaudida por congressistas após a assinatura da reforma da Saúde, no último domingo (21)

A presidente da Câmara superou grandes obstáculos em um ano de debate

Quando Barack Obama se reuniu no sábado pela última vez com os democratas na Câmara dos Deputados, referiu-se a vários legisladores que haviam tido papéis de destaque nessa longa e acidentada viagem para a reforma da saúde. Mas ao mencionar o nome de Nancy Pelosi, a presidente dessa Câmara, fez uma breve pausa, lhe deu um sorriso cúmplice e acrescentou: "Essa líder extraordinária".

Para o bem ou para o mal, Pelosi teve uma relevância sem precedentes na gestão dessa votação histórica. Sem ela, simplesmente o ato de domingo não teria sido possível. Alguns acreditam que foi um erro, que deixar a responsabilidade nas mãos da cabeça visível da instituição mais desprestigiada do país dificultou o debate e o privou do afeto popular. Outros, pelo contrário, consideram que esse era o único caminho para a vitória, que sem a cumplicidade da pessoa que melhor manipula os cordões do Capitólio todo o processo teria se estagnado há tempo.

Em 28 de janeiro, quando a desorientação ainda reinava na Casa Branca depois da derrota democrata nas eleições parciais em Massachusetts, Pelosi declarou em uma entrevista coletiva: "Passaremos pela porta. Se a porta estiver fechada, saltaremos o muro. Se o muro for alto demais, usaremos uma escada. Se essa também não funcionar, utilizaremos um pára-quedas. Mas vamos aprovar esta reforma da saúde".

Essa convicção estimulou Obama, que recuperou energias para reerguer das cinzas seu projeto político. Em 22 de fevereiro, o presidente apresentou suas ideias sobre o sistema de saúde e pediu ao Congresso que buscasse os meios para aprovar a lei. Esse foi o movimento decisivo.

Nada teria se movido no Congresso se Pelosi não tivesse se dedicado a isso com todas as armas que acumulou em mais de 23 anos de atividade sob a célebre cúpula: instinto, perseverança, luva de seda para expor seus desejos (tem o costume de oferecer chocolates aos convidados a seu gabinete) e mão de ferro para defendê-los.

Foi Pelosi quem apostou com mais força para levar adiante a reforma com maioria simples no Senado, e foi ela quem garantiu que se o líder democrata no Senado, Harry Reid, lhe escrevesse em um papel os nomes de 51 senadores dispostos a votar sim, ela cuidaria para que a reforma fosse transformada em lei. Mais preocupado com a incerteza sobre sua própria reeleição, Reid teria sido incapaz de atuar sem o empurrão de Pelosi.

Seus companheiros de partido descrevem sua atividade nos corredores do Capitólio nestes últimos dias como a de um caçador emboscado em toda esquina, disposto a se lançar sobre qualquer congressista hesitante.

Leva essa marca em seu sangue italiano. Seu pai, Thomas d'Alesandro, foi um político que ficou famoso pela explosividade de seu caráter e a contundência de suas opiniões. Também foi membro do Congresso e prefeito de Baltimore, cidade em que Pelosi nasceu há quase 70 anos.

Instalada desde jovem em San Francisco, o símbolo do movimento progressista nos EUA, Nancy Pelosi fez carreira como representante da esquerda do Partido Democrata. Embora católica, é uma das mais firmes defensoras do direito ao aborto.

Seus companheiros a elegeram presidente da Câmara depois da arrasadora vitória democrata de 2006, com certo receio por suas credenciais esquerdistas. Mas Pelosi demonstrou ofício e pragmatismo. Um exemplo disso foi sua renúncia a incluir na reforma da saúde uma opção pública, o que foi decisivo para a sobrevivência da iniciativa. "Pelosi não é presidente ["speaker", ou oradora] por seus dotes oratórios, por sua ideologia ou por sua visão", escreveu seu biógrafo, Marc Sandalow, "é presidente por sua maestria no jogo interior."

Essas qualidades não evitaram que Pelosi seja neste momento a figura democrata mais odiada pelos conservadores, à frente até mesmo de Obama. Foi ela quem deu a cara neste envenenado debate da saúde. Foi ela quem recebeu mais violentamente os golpes. E talvez seja ela quem possa receber mais frutos se esta reforma, que merece levar seu nome, acabar sendo um sucesso.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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