UOL Notícias Internacional
 

24/03/2010

Obama entoa de novo o "Yes, we can!"

El País
Antonio Caño
Em Washington

Tanto ruído fizeram nas últimas horas o movimento conservador e a tropa do Tea Party, que era difícil na segunda-feira (22) medir em toda a sua dimensão a revolução social que representa a lei da reforma da saúde aprovada na noite de domingo pela Câmara dos Deputados. Quem fez isso com mais precisão foi o deputado negro James Clyburn, um velho combatente do racismo: "Esta é a lei de direitos civis do século 21".

Ao assinar, Barack Obama se transforma no presidente que levou seu país à reforma estrutural mais profunda em meio século. Isso não lhe garante o êxito de sua presidência, mas, sim, um lugar na história, junto de presidentes como Franklin D. Roosevelt ou Lyndon Johnson, que deram os primeiros passos para o Estado do bem-estar norte-americano.

Esta reforma não representa a homologação da sociedade americana aos parâmetros de justiça social que regem a Europa. Nunca será assim, porque os valores que regem os EUA (individualismo, concorrência, êxito) são intrinsecamente diferentes dos europeus. Mas a lei que a Câmara dos Deputados aprovou por 219 votos contra 212 contém os instrumentos necessários para corrigir um sistema de saúde que sobrecarregava a economia americana e deixava literalmente morrer sem assistência milhões de pessoas.

Isto é obra de uma combinação de fatores, dentre os quais não têm menor importância a persistência da presidente da Câmara, Nancy Pelosi; a habilidade do chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel, para tecer acordos e a urgência que muitos congressistas democratas sentiram sobre seu papel diante da história.

Mas nada teria sido possível sem a vontade de Barack Obama de tornar realidade sua promessa de mudança. Esta lei é a mudança, não a vitória eleitoral de Obama. Presidentes vêm e vão rotineiramente, mas muito poucos se atrevem a tocar os cimentos do edifício nacional, por mais alarmante que seja seu estado de conservação. Obama se atreveu (ou não teve outro remédio senão fazê-lo).

"Nos revoltamos contra as influências indevidas e os interesses especiais. Não nos rendemos à desconfiança, ao cinismo ou ao medo. Em vez disso, demonstramos que ainda somos um povo capaz de fazer grandes coisas", declarou Obama na Casa Branca à meia-noite de domingo, minutos depois da votação no Congresso, em um discurso que lembrou os melhores momentos do "Yes, we can!"

"Yes, we can!", gritaram muitos deputados depois de votar. Essa vitória dá novos brios aos democratas para levar adiante a agenda política da Casa Branca, mas, sobretudo, dá ao presidente uma fé renovada em sua missão. Algumas iniciativas estacionadas depois do impacto sofrido em janeiro nas eleições parciais de Massachusetts, como a reforma energética, a educação ou a lei de imigração, voltam a estar no Salão Oval.

Também em relação à política externa se podem apreciar algumas mudanças. Um presidente fortalecido internamente é um presidente com maior capacidade de pressionar (Rússia, China) ou apostar em opções arriscadas (Irã).

A aprovação da reforma sanitária muda com efeito muitas coisas. Mas ainda é cedo para saber exatamente em que direção. É cedo inclusive para dar por encerrado esse debate, já que não só restam alguns detalhes legislativos por resolver, como os republicanos não parecem ter a menor intenção de dar essa batalha por perdida.

O primeiro confronto será vivido certamente amanhã no Senado, convocado para a aprovação do pacote de emendas que a Câmara dos Deputados aprovou imediatamente depois da reforma da saúde. Essas emendas incluem as demandas pactuadas com os membros da Câmara em troca de que estes aprovassem sem alteração o texto da reforma que o Senado aprovou no último Natal. Esse pacote de emendas forma, portanto, parte inseparável da lei da reforma, mas será esta que o presidente assinará.

Os democratas contam no Senado com 59 escanos, oito a mais que os necessários para aprovar as emendas por maioria simples. Mas o procedimento legislativo americano, pensado para favorecer a minoria, lhe dá essa multidão de instrumentos para dificultar o processo. A batalha principal, em todo caso, ocorrerá diante do público. Obama prevê ir nesta quinta-feira a Iowa explicar o que é que foi aprovado. "Vamos provar que este governo do povo e pelo povo trabalha para o povo", disse o presidente.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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