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24/03/2010

"Os meninos se prestavam", diz professor espanhol acusado de abusar sexualmente de seus alunos

El País
María R. Sahuquillo
Em Madri
  • Colégio San Viator de Madri, onde José Ángel Arregui deu aulas entre 1993 e 95

    Colégio San Viator de Madri, onde José Ángel Arregui deu aulas entre 1993 e 95

O religioso espanhol detido no Chile justifica como naturais seus abusos a menores. A promotoria pede para ele três anos de prisão efetiva no julgamento que começa nesta quarta-feira na capital chilena

José Ángel Arregui (nascido em Bilbao, norte da Espanha, em 1957) gostava de ver pornografia pela Internet, possuí-la, colecioná-la. Baixava tudo o que conseguia. Qualquer tipo de imagem. Preferia os vídeos de menores praticando sexo. Cenas fetichistas, sadomasoquistas... tudo o que aparecia. Uma vez por dia tinha seu momento de recreação. Dedicava uma hora e meia a revisar todo o seu material e a procurar mais. Mas foi um desses vídeos de pornografia infantil, que ele examinava depois com deleite, que o levou em agosto de 2009 a uma prisão chilena.

Uma investigação rotineira da Brigada do Cibercrime o localizou em uma comunidade pedófila. Quando foram detê-lo, encontraram, além dos vídeos que tinha baixado, dezenas de gravações em que o próprio Arregui se filmou abusando de menores que foram seus alunos na Espanha. A Guarda Civil identificou pelo menos 15 supostas vítimas. Esse professor de educação física, que chegou a Santiago do Chile para cumprir seu sonho de dar aulas na universidade, enfrenta um julgamento por armazenamento de pornografia infantil. A promotora pedirá para ele a pena máxima por esse delito: três anos de detenção. E também recomendará que ele os cumpra na prisão.

As diversas análises psiquiátricas a que Arregui foi submetido desaconselham que passe parte de sua pena na rua. Seu comportamento, "que tende a naturalizar" o ocorrido, faz que qualquer medida de liberdade vigiada seja "ineficaz", dizem os médicos. Eles afirmam que Arregui tenta acreditar que seu comportamento era normal - incluindo os supostos abusos a menores na Espanha. "Os meninos se prestavam a isso", ele diz.

Os relatórios dos psiquiatras encarregados pela promotoria chilena, aos quais o “El País” teve acesso, descrevem o religioso espanhol como uma pessoa "agressiva" e com um "discurso manipulador".

Muito para trás ficou aquele menino doentio que ingressou com 5 anos em um sanatório para menores tuberculosos ou enfermos, devido ao seu baixo peso. Uma das lembranças mais tristes de uma infância que o próprio Arregui descreve como tranquila e feliz, ao lado de sua família. Seu pai, torneiro mecânico, trabalhava muito. Sua mãe, uma mulher carinhosa, mas firme, era quem cuidava da casa e das contas. Suas duas irmãs mais velhas o mimavam constantemente.

Aos 18 anos o jovem Arregui ingressa na congregação Clérigos de San Viator. "Chamava minha atenção a ajuda aos outros e esse tipo de coisa", conta em uma das declarações aos médicos. Nunca lhe interessou ser sacerdote, por isso dedicou-se a tarefas não estritamente religiosas. Então começou a estudar magistério e mais tarde a especialidade de educação física. Sempre dentro das escolas da congregação. Voltaria a algumas delas depois como professor. Em 15 anos passou por sete centros viatores para dar aulas de língua, ginástica, religião ou sociais.

"Isso dos vídeos aconteceu depois", admite Arregui em sua declaração. Quando a Brigada do Cibercrime chilena o deteve, encontrou em seu poder cerca de 2 mil imagens e mais de 400 horas de vídeos de alto conteúdo sexual, nos quais apareciam menores. Algumas dessas gravações eram as que o religioso espanhol havia feito com câmera oculta enquanto abusava de menores. Gravações realizadas, segundo Arregui, entre 1992 e 2004 e que o religioso havia conservado desde então.

Não explica como começou a fazê-lo. Diz que foi algo progressivo. No início se dedicava só a olhar. Descobriu que, como professor de ginástica, tinha grande facilidade de acesso aos menores sem que ninguém prestasse atenção. Depois começou a "experimentar". Para isso usou a desculpa de sua tese de doutorado sobre o crescimento físico na adolescência e a influência da flexibilidade.

Pedia aos menores que participassem de um estudo que estava realizando e lhes fazia uma série de medições. E aí, nas instalações dos colégios, entre fita métrica e tabela de estatísticas, em horário escolar, ocorriam os supostos abusos. Sentia curiosidade pelas reações dos rapazes durante as medições. Reconhece também que essa prática lhe produzia "um certo prazer", um "desafogo sexual".

Agora, anos depois, alguns dos menores que aparecem nos vídeos falam das práticas de Arregui. "Eu me sentia incômodo. Minha única ideia era vestir-me rapidamente", narra um deles à Guarda Civil. Outro descreve a situação como muito "agressiva". "Era desagradável. Ele tinha de introduzir o termômetro no meu ânus para medir a temperatura", lembra. O religioso, porém, que escolheu os rapazes entre o grupo de alunos da 7ª e 8ª séries, afirma que os meninos se prestavam a isso. Ele filmou abusos em três colégios espanhóis (o San Viator de Madri, o San José de Basauri (Vizcaya) e o San Viator de Vitoria, estes dois últimos no País Basco).

No entanto, nunca houve, segundo os responsáveis pela congregação Clérigos de San Viator, denúncia oficial contra Arregui. Ninguém, que se saiba, falou do que acontecia durante as sessões de medição. Nenhuma de suas supostas vítimas levantou a voz para denunciá-lo nesses anos, mas muitos de seus alunos daquela época achavam o religioso "esquisito". "Nós cheirávamos alguma coisa. Havia rumores no colégio de que ele gostava muito de meter a mão nos alunos pequenos", explica um de seus alunos San Viator de Madri que prefere manter o anonimato. "Era um professor muito pouco sério", descreve um de seus companheiros durante sua época de professor no País Basco.

Alguns de seus alunos de Madri lembram especialmente um episódio que consideram representativo. Um dia em que Arregui estava "especialmente agressivo" e, depois de repreendê-los na classe, atirou um monte de exercícios e exames pela janela. "Ninguém lhe dizia nada", conta um de seus ex-alunos, que critica que nenhum responsável do colégio controlasse o religioso.

Mas para Arregui a imagem daqueles anos é radicalmente diferente. Ele conta, por exemplo, que alguns dos "poucos" amigos que tem são seus ex-alunos.

As coisas mudaram em 2004. Nesse ano Arregui deixa as aulas com uma licença por depressão. Um estado que o conduz inclusive à beira da morte. Esteve internado três dias no hospital por tentativa de suicídio. Após alguns meses de tratamento, volta às aulas. Em 2006 apresenta sua tese de doutorado e obtém menção honrosa.

"Depois desse doutorado ele nos informou que queria dar aulas na universidade. Tinha muito interesse, por isso tentamos ajudá-lo", explica Pedro Lahora, responsável provincial pelos Clérigos de San Viator. Pouco depois Arregui conseguiu um lugar de professor na Universidade Santo Tomás de Santiago do Chile. Mas suas expectativas duraram pouco. Arregui só deu aulas durante um semestre. Depois, por motivos que nem a universidade nem a congregação no Chile quiseram revelar, perdeu seu trabalho. E voltou a mergulhar na depressão. Começa um tratamento psiquiátrico e a trabalhar em administração e contabilidade para os viatores no Chile. Quase não sai da casa da congregação que compartilha com três pessoas. No Chile não tem mais amigos além dos religiosos.

"Nenhum de nós suspeitava do que acontecia", diz Eduardo Millán, responsável pela congregação no Chile, por telefone. Ninguém sabia das atividades de Arregui, das gravações ou dos abusos, ele diz.

A congregação pôs à disposição do religioso um dos advogados mais caros do país. Seu caso será julgado nesta quarta-feira e pode ser que se resolva. Caso seja assim e se realize o processo abreviado, o veredicto será conhecido em poucas horas. Caso seja condenado, se saberá na quinta-feira. Arregui também está denunciado na Espanha em um caso de supostos abusos sexuais pelos vídeos que estavam em seu poder. O juiz que instrui o caso aguarda agora conhecer a sentença chilena para tomar seu depoimento e decidir se solicitará sua extradição.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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