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27/03/2010

A Europa avançou sobre um rio gelado

El País
J. M. Martí Font
Em Barcelona
  • Homem com guarda-chuva com o logotipo da União Européia, em Berlim (Alemanha)

    Homem com guarda-chuva com o logotipo da União Européia, em Berlim (Alemanha)

Uma exposição e um ensaio de Ruiz-Domènec revisam o processo de construção do continente

Em meio a uma das piores crises financeiras e econômicas dos últimos cem anos, nos dispomos a atravessar o equador da presidência espanhola da União Europeia, a primeira desde que passou de 15 para 27 membros, e a pergunta não é mais "Para que serve a Europa?", mas "O que é a Europa?" Uma exposição na Biblioteca Nacional, "Europa em Papel", e um ensaio do historiador José Enrique Ruiz-Domènec, “Europa”. As chaves de sua história" (RBA), tentam, cada um a seu modo, responder a essa pergunta.

A primeira coisa que fica óbvia quando cai o Muro de Berlim e se encerra o despropósito da Guerra Fria - embora muitos ainda resistam a reconhecê-lo sem subterfúgios - é que a Europa não é Ocidente. Também, que há periferias e periferias. Varsóvia, por exemplo, está mais próxima de Bruxelas que Madri, e isso é algo que alguns eurocratas vão demorar em assimilar.

"A Europa não é Ocidente", confirma Ruiz-Domènec, "pode ser ocidental ou não, mas seu destino não pode ser ocidental". A unificação da Alemanha, ele acrescenta, foi a unificação da Europa, tanto quanto a Guerra Fria foi um período de exceção "porque foi desenhada por duas pessoas que, por razões obviamente diferentes, não queriam que a Europa existisse: Roosevelt e Stálin".

A exposição da Biblioteca Nacional insiste na herança da Grécia clássica e situa no Império Romano o ponto de partida do sonho europeu. Nos sistemas sociais, na arte, no direito, na literatura, na filosofia, na arquitetura ou nos mosaicos de Pompeia. Uma idade de ouro que de repente, no século 5º, se precipita por um buraco negro - a idade das trevas - que se prolonga até o mundo carolíngio e inclusive até bem entrado o segundo milênio, já perto do Renascimento. Segundo essa teoria, o continente se recompõe com a Ilustração.

Ruiz-Domènec, um medievalista, vê a coisa de outra maneira. "Não é Roma que configura a Europa. Um dos preconceitos mais difíceis de mudar é a crença de que Roma é um império europeu. É um império pan-mediterrâneo que dura dez séculos quando no Ocidente já desapareceu."

Então quando nasce a Europa? Quando começa a idade obscura com a queda do Império Romano (do Ocidente). O historiador lamenta que nosso sistema educacional não dê a esse período a importância que tem. Poucos sabem quem foram Boécio - um Émile Zola "avant la lettre" -, Gregório de Tours, Beda o Venerável ou Alcuíno de York, entre outros pensadores daquele momento crucial da história.

E em seu livro relata como a multidão de povos que se moviam do outro lado do limite formado pelo Reno e o Danúbio, e que conheciam perfeitamente as vantagens de ser romanos, decidiram sê-lo. "A miséria não impulsiona um povo a emigrar longe de seu lar, senão o desejo de imitar o mundo dos ricos", escreve. "Na noite de São Silvestre do ano 406, o Reno congelou. Milhares de homens, mulheres e crianças lançaram suas carroças sobre o rio e o gelo aguentou. Não precisaram de pontes para atravessá-lo. As tropas imperiais ficaram assoberbadas pela avalanche; mas nunca suspeitaram do papel que a história lhes reservava. Com esse gesto começaram as invasões bárbaras no Ocidente. A muralha rachou. Nunca voltaria a ser restaurada."

Foi então que nasceu a Europa, afirma Ruiz-Domènec. E só um medievalista como ele é capaz de explicá-lo, porque trabalha com as origens e as raízes de forma interdisciplinar: usando a antropologia, a arqueologia ou a sociologia.

"A Europa é um jogo de espaços políticos muito diversos, na qual intervêm múltiplas tradições, incluindo a bizantina, que não podemos esquecer porque faz parte de um núcleo duro da Europa, que chega até a Rússia." A história do continente é feita de contrapontos e não se pode prescindir de Bizâncio, menos ainda do Ocidente e das duas grandes potências marítimas periféricas: as ilhas Britânicas e a península Ibérica. "A Europa precisa seduzir e evitar o isolamento da Grã-Bretanha e sua inclinação para os EUA e também a Espanha, que, como a Inglaterra, custou muito a se integrar."

E a ilustração? Não é esse o elemento definitivo das sociedades europeias que nos leva até o presente? Ele também não comunga plenamente com essa ideia. A Europa seria mais romântica que ilustrada. "A ilustração francesa e alemã não entraram em acordo. O mundo de Goethe não conseguiu estabelecer contato com Les Lumières e a Revolução Francesa pôs fim aos possíveis contatos", explica. "Desse fracasso, o romantismo forma a síntese. O romantismo se apropria dos valores da ilustração, mas os subverte. E hoje em dia o romantismo está em plena vigência, o que prova que a ilustração não se cristalizou como os ilustrados teriam desejado."

Desse romantismo saem alguns dos piores demônios da Europa. "Os fascismos são românticos, em boa parte, pelo menos em seu caldo de cultivo: é a ideia da terra, do sonho como terror. Tudo isso não era pensável pela ilustração, que teria criado outro tipo de estados autoritários, outro tipo de desastres, se se quiser, mas não a loucura do nazismo".

O romantismo seria o ideal sobre o qual construímos a Europa atual. "Gostamos do lugar que ocupam a terra e a língua de cada um dentro de um cosmo mais ou menos ordenado; gostamos das velhas cidades reconstruídas, gostamos de Rotemburgo, Carcassona ou do Bairro Gótico de Barcelona. O europeu criou seu patrimônio cultural e ninguém o discute, mas essa reconstrução, essa restauração de um passado, é a antítese do pensamento ilustrado, que propunha desfazer-se de um passado obscurantista e construir sobre ele, mesmo destruindo-o. E com o romantismo também se introduz a religião, o fato religioso, que tem hoje, em pleno século 21, uma presença extraordinária. Se Jean-Paul Sartre levantasse a cabeça nos tomaria por loucos."

A Europa, mais que os Estados e os impérios, mais que as religiões, são as cidades. E isso é algo que se vê com extraordinária clareza na exposição da Biblioteca Nacional. E a Europa está construída sobre o senso moral dos artesãos, dos construtores de catedrais, que não é uma moral religiosa, mas um sentido do trabalho, da relação humana, do imperativo categórico kantiano e da liderança moral de Max Weber.

"Os espanhóis não acreditamos"
A Europa sempre funcionou à base de contrapontos. Não são os impérios que a compõem, nem Carlos 5º nem Napoleão, mas sim um mosaico complexo, contraditório e complicado de administrar, começando pelo fato da multiplicidade de línguas. Ruiz-Domènec considera que o único sistema para que funcione é o da música polifônica, que, "como é um invento medieval, é a harmonia do diverso". Se tiver êxito, "a Europa pode gerar no mundo a percepção da harmonia do universo".

A música é na realidade a linguagem comum dos europeus, a que não precisa de tradução e se move pelo continente, como o grande tecido com que todo mundo se entende acima de localismos e línguas, de religiões e classes. "Ninguém pergunta quando escuta uma missa ou uma paixão de Bach se foi escrita para uma igreja protestante ou católica, nem tem outro interesse senão o fato anedótico de que Mozart fosse um menino católico que se tornou maçom".

Mas a Europa, o sonho europeu, passa neste momento pelo vale das dúvidas. Nada é irreversível. A exposição na Biblioteca Nacional mostra que, assim como construiu espaços de liberdade e sociedades justas - ou que pretendiam sê-lo -, esse aprendiz de continente - na realidade não mais que um apêndice asiático - foi capaz de destruir tudo. Por exemplo, sua essência transversal ainda não se refez do quase extermínio das comunidades judias pelos nazistas, que fizeram desaparecer um dos elementos chaves das sociedades europeias que atuavam como transmissores no comércio, nas finanças, na cultura e inclusive entre classes sociais e territórios. "O que se explica porque para os nazistas a Europa era demais."

Agora se enfrenta uma grande onda migratória, "um problema que vem do futuro e não do passado, embora tenha suas origens nele", explica Ruiz-Domènec, e lamenta a atitude da Espanha, "porque não está entendendo as mensagens que a comunidade islâmica lança".

A presidência espanhola da UE gerou somente o livro de Ruiz-Domènec e a exposição da BN. Em qualquer outro país as livrarias dedicariam vitrines inteiras para mostrar a avalanche de títulos que um acontecimento semelhante teria gerado. "Os espanhóis não nos consideramos Europa, o que é muito perigoso porque a maioria das decisões que afetam nossas vidas é tomada lá."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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