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27/03/2010

Uma bancarrota moral

El País
Miguel Mora
Em Roma
  • O papa Bento 16, que vem sendo acusado de acobertar casos de pedofilia envolvendo sacerdotes

    O papa Bento 16, que vem sendo acusado de acobertar casos de pedofilia envolvendo sacerdotes

Ratzinger se calou diante das denúncias contra o abusador de 200 meninos. o papa foi alertado por um bispo americano quando dirigia o Santo Ofício. O Vaticano alega que não agiu porque o pederasta era idoso e doente

O Vaticano parece cada dia mais arrasado pela crise da pederastia clerical. A reportagem exclusiva publicada na quinta-feira (25) pelo jornal "The New York Times" sobre o falecido sacerdote Lawrence Murphy, que abusou durante anos de cerca de 200 meninos surdos em Wisconsin (EUA) e nunca foi denunciado ou expulso da Igreja, interpela diretamente o papa e seu número 2, o secretário de Estado, Tarcisio Bertone.

Os documentos publicados parecem provar que os dois altos funcionários do Vaticano tentaram encobrir o caso quando dirigiam a Congregação para a Doutrina da Fé. Em 1996, o então prefeito Joseph Ratzinger deixou sem resposta duas cartas sobre o assunto enviadas pelo arcebispo de Milwaukee. Nela se contavam os abusos cometidos por Murphy, que trabalhou como educador de meninos surdos entre 1950 e 1974.

Oito meses depois de Ratzinger ter recebido as cartas, seu secretário Bertone ordenou aos bispos que começassem um julgamento canônico secreto que poderia ter levado à expulsão de Murphy. Mas pouco depois suspendeu a ordem. Escreveu a Ratzinger pedido que o deixasse morrer em paz. A Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida por Ratzinger entre 1981 e 2005, tem desde 2001 a competência exclusiva sobre os abusos.

"Tentativa de atingir"
Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, explicou que o Vaticano decidiu não castigar Murphy porque quando conheceu as acusações o padre já estava "muito doente". E lembrou que Ratzinger só foi informado do caso no final dos anos 90, mais de 20 depois de a investigação civil do pederasta ter terminado sem resultados. O jornal "L'Osservatore Romano" negou as imputações e acusou o "New York Times" de "uma evidente e ignóbil tentativa de atingir a todo custo Bento 16 e seus colaboradores".

Segundo Lombardi, Murphy não foi expulso "porque em casos semelhantes o direito canônico não prevê punições automáticas, mas recomenda que se emita uma sentença que não exclua a pena maior, a demissão do estado clerical". Lombardi reiterou também que "as normas da Igreja nunca proibiram denunciar às autoridades judiciais os abusos contra menores", transferindo assim a responsabilidade para os bispos locais.

A afirmação salienta o gigantesco problema que vive o Vaticano. A Santa Sé pune desde 2001 com a excomunhão os que traem o papa revelando os casos investigados pelo Vaticano. A pena é executada "latae sententiae", isto é, sem processo, e só é revogável pelo pontífice. Por outro lado, os abusos são castigados com penas variáveis que dependem da gravidade: suspensão temporária, proibição, privação e, nos piores casos, demissão do estado clerical, a pena máxima canônica.

A instrução "Crimen Sollicitationis", revisada em 2001 por Ratzinger e Bertone mediante a carta intitulada "De delictis gravioribus" (Sobre os delitos mais graves), ordenou aos bispos que abrissem investigações de abuso quando houvesse indícios suficientes e as comunicassem a Roma; e ampliou o prazo de prescrição dos delitos de pederastia: os dez anos anteriores começavam a correr quando a vítima completava 18 anos. A intenção era "aperfeiçoar as normas processuais e as sanções" para adaptá-las aos novos códigos.

Não aumentaram nem a transparência, nem as condenações, nem as denúncias à justiça comum. Nos últimos oito anos, segundo as cifras oficiais apresentadas há alguns dias, o Vaticano investigou 3 mil sacerdotes acusados de pederastia e suspendeu do estado clerical cerca de 300, enquanto outros 300 pediram a dispensa aceitando sua culpa.

Quando se diz que se trata de cifras ridículas, o promotor de justiça do antigo Santo Ofício Charles J. Scicluna assume a defensiva e explica que a prudência extrema preside os processos canônicos. "O sistema canônico é muito garantista, protege ao máximo os direitos e a intimidade dos acusados. Quando um culpado se arrepende de seus atos, é absolvido de forma automática; se não conhece a pena que o espera, não pode incorrer nessa pena. ... Mas isso não significa que tenhamos evitado que nos casos mais graves a justiça civil atuasse, não seria justo dizer isso."

"Parece-me uma solene estupidez, sabemos há tempo que temos um grande ignorante na frente da equipe jurídica da congregação", afirma o sacerdote e professor de direito canônico Filippo di Giacomo. "É inútil esconder-se atrás do dedo. A realidade é o que é. Os bispos não observaram a lei canônica. Na Irlanda como em Roma. Foi o papa quem disse. Amém."

Indignado, Di Giacomo acrescenta: "A tolerância da Cúria pelos abusos tem uma raízes evidente: o descaramento de muitos de seus membros. Se o chamado lobby de veludo, isto é, o grupo rosa, tivesse decidido menos nomeações de altos funcionários, talvez se tivessem cumprido mais as normas e havido menos compreensão com a pedofilia. A sodomia e a pederastia foram vistas como um elemento de cooptação dentro dos muros do Vaticano. É sabido que há cardeais e bispos argentinos, americanos, italianos, alemães, de vida afetiva nada casta nem heterossexual, e secretários de cardeais que foram transferidos de Nova York, Guatemala e Chile ou devolvidos à Colômbia depois de ser caçados pela polícia pecando contra o sexto mandamento em companhia masculina. Esse ambiente ajuda muito pouco a compreender os relatórios que chegam à congregação. Mas a culpa não é de Ratzinger. Ele não tem a colaboração de quase ninguém. Está cercado de covardes."

Roberto Miraile, presidente da Caramelo Bom, associação italiana de vítimas da pederastia, ativa há 13 anos, também pensa que o papa é hoje o único membro da Cúria que luta contra os abusos. "Nem os bispos em suas dioceses nem sequer o tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé enviaram um só padre à prisão por um crime de pedofilia. Ao contrário", concluiu, "limitaram-se a transferir os culpados, permitindo que os criminosos continuassem abusando impunemente e transformando-se em cúmplices com o agravante da autoridade moral."

Na quinta-feira (25) algumas vítimas do padre Murphy protestaram contra o papa a poucos metros da Praça de São Pedro, em território italiano, junto de membros da associação SNAP. "Bento 16, como chefe da congregação, ignorou diversos pedidos de três bispos para expulsar do clero o abusador em série Lawrence Murphy", dizia um dos cartazes. Os manifestantes foram presos pela polícia quando falavam com jornalistas. Mais tarde foram libertados. Em contraste, à tarde cerca de 70 mil pessoas lotaram São Pedro na jornada mundial da juventude, animando o papa no fim de um dia amargo para ele.

Inferno em Verona
Sem tempo para digerir os horrores, outro espantoso caso de abusos maciços de crianças surdas-mudas, muito semelhante ao que ocorreu em Wisconsin, voltou na quinta-feira ao primeiro plano na Itália. Ocorreu entre 1955 e 1984 nos Institutos Provolo de Verona (Itália). Durante 30 anos vários educadores religiosos dessa instituição de caridade católica para crianças com problemas auditivos abusaram de dezenas de vítimas, meninos e meninas, todas surdos-mudos. Trata-se do escândalo mais grave de pederastia clerical conhecido na Itália, e foi revelado há um ano pela revista "L'Espresso", que documentou dezenas de sevícias, algumas delas cometidas inclusive sob o altar e no confessionário. A denúncia foi assinada por 67 ex-alunos, embora se acredite que as vítimas possam ser muito mais. Os abusados citaram 25 padres e religiosos como supostos pedófilos: 13 deles ainda vivem e sete continuam alojados no instituto.

O silêncio, a dissimulação e a ocultação marcaram inicialmente a reação da diocese de Verona, que tentou negar a história e chegou a acusar as vítimas em público de mentir e de querer chantagear a Igreja; até que finalmente, a pedido de Roma, se abriu uma investigação. Agora a Congregação para a Doutrina da Fé tem finalmente em seu poder o sumário. Mas a associação de vítimas continua criticando a atuação do bispo Giuseppe Zenti e lamenta que nenhum deles tenha sido escutado durante a instrução.

Segundo "L'Espresso", nenhum dos acusados foi afastado ainda do centro escolar, frequentado por centenas de crianças e jovens. O único expediente de expulsão foi aberto contra um padre que relatou à revista os abusos que havia cometido.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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