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28/03/2010

Diplomata espanhol informou Franco dos horrores de Auschwitz

El País
Juan Diego Quesada
  • Inscrições na entrada no antigo campo de concentração de Auschwitz

    Inscrições na entrada no antigo campo de concentração de Auschwitz

O governo de Franco soube dos horrores dos nazistas contra os judeus. O jovem diplomata Sanz Briz, representante em Budapeste em 1944, enviou a Madri um informe que avisava sobre o extermínio em Auschwitz. Até agora o documento era “confidencial”

Numa manhã, descem dos vagões 45 mil judeus chegados de Salonica, abatidos e famintos. Cerca de 10 mil são selecionados para os campos de trabalho e o resto é enviado diretamente para o crematório. Os que se salvam, amontoados em barracões, não suportam as duras condições do lugar e em pouco tempo adoecem de malária. Os guardas alemães, com suas botas militares e seus cães, recomendam que eles vão ao hospital do campo de concentração, algo que os prisioneiros veteranos desaconselham. Eles sabem o que acontece ali. Apesar das advertências, os gregos se apresentam ao centro médico, onde à medida que vão passando recebem no coração uma injeção de fenol que acaba com suas vidas. Seus cadáveres são empilhados mais tarde na porta do bloco de enfermaria, onde o sol nunca entra. Isso não tem nenhuma importância aqui, em Auschwitz-Birkenau, 1943.

Estes detalhes do dia a dia no maior campo de extermínio da Alemanha nazista, onde foram aniquiladas entre 1,5 e 2,5 milhões de pessoas, foram relatados num informe que dois jovens eslovacos escreveram depois de escapar do lugar. O texto, escrito a máquina e num francês precário, chegou às mãos de Ángel Sanz Briz, um jovem diplomata espanhol enviado à Budapeste ocupada pelas nazistas. Depois de lê-lo, enviou o documento em agosto de 1944 ao ministro de Assuntos Exteriores, José Félix de Lequerica. Não consta que Sanz Briz tenha recebido uma resposta.

O punhado de papéis que o diplomata enviou a Madri foi precedido de uma carta a “Vossa Excelência” na qual informa “sobre o tratamento dispensado aos judeus nos campos de concentração alemães”. Revelava que haviam chegado “elementos da junta diretora da organização sionista da capital”. “Sua origem”, disse na carta, “os tornam suspeitos de reações emocionais. Entretanto, pelos informes que pude obter de pessoas não diretamente interessadas na questão e de meus colegas do corpo diplomático daqui, a conclusão é que grande parte dos fatos que eles descrevem são, infelizmente, autênticos.”

Os papeis estavam até agora nos arquivos do ministério, numa pasta marcada como “confidencial”. Agora servem para confirma até que ponto o governo de Franco, simpatizante de Hitler na 2ª Guerra Mundial e ambíguo em suas posições até o final da contenda, conhecia em detalhes o plano que os nazistas estavam levando a cabo para exterminar os judeus.

Na Budapeste ocupada pelos nazistas, Sanz Briz era um homem elegante, jovem, que ia todos os dias à missa. Ele havia chegado na capital da Hungria para substituir Miguel Ángle Mugiro, um homem muito crítico em relação aos dirigentes húngaros que se mostravam servis com os nazistas. Mugiro denunciou várias vezes a Madri os abusos que eram cometidos contra os judeus no país, injustiças que ele havia visto com seus próprios olhos, como o saque aos comerciantes. O governo de Madri o substituiu pelo jovem Sanz Briz para melhorar as relações com a Hungria. Mas não foi o que aconteceu.

Quase desde sua chegada a Budapeste, Sanz Briz participou de reuniões secretas com diplomatas de outros países neutros, incluindo o núncio apostólico [representante da Igreja], nas quais buscavam uma forma de ajudar os milhares de judeus húngaros que naquele momento eram transportados aos campos de extermínio. Enquanto aconteciam esses encontros secretos, também andava pelas ruas da cidade Adolf Eichmann, um dos criadores da chamada Solução Final, o plano da Alemanha nazista com o qual se pretendia realizar o genocídio da população judia. Eichmann, meses antes, havia negociado com os aliados a troca e um milhão de prisioneiros por uma quantidade de dinheiro que o permitisse continuar custeando a guerra.

“Nos vagões do caminho até os campos de concentração não vão só homens, mas também mulheres, crianças e idosos. É difícil acreditar que eles vão para trabalhar...”, disse Sanz Briz em uma de suas comunicações com Madri. Depois de insistir muito, autorizaram-no a repatriar “alguns” judeus de origem espanhola. A Hungria, o último país ocupado pelos nazistas, o permitiu expedir 200 passaportes. Mas o diplomata conseguiu um salvo-conduto para fazer tramitar centenas de passaportes e cartas de proteção nas quais garantia a origem sefardi de milhares de judeus que na verdade não o eram. Sempre marcava as cartas com números inferiores a 200, o que despistou a burocracia húngara.

O documento enviado a Madri em 26 de agosto de 1944 era semelhante em muitos aspectos ao que Rudolf Vrba e Alfred Wetzler, prisioneiros de número 44.070 e 29.162, elaboraram depois de fugir em abril de 1944. Neste caso não foram especificados os nomes dos protagonistas, mas apenas que se tratava de jovens eslovacos, deportados em 1942, que passaram dois anos no campo de concentração e que “milagrosamente” conseguiram escapar sãos e salvos. “Hoje em dia estão em países neutros”, esclarece o texto, no qual estão incluídos esquemas do campo de concentração e das câmaras de gás. Ele também acrescenta números aproximados dos assassinatos que aconteceram, guardados nas memórias das testemunhas, que asseguram que só relataram fatos que haviam visto. Por prudência, nem sequer foram registradas as macabras histórias que outros prisioneiros lhes contavam.

Não é por acaso que os presos destacam que tudo o que escrevem, toda a putrefação dos cadáveres, os tiros na nuca, o gás das câmaras, tudo isso, eles viram, escutaram e sentiram. Ficaram em suas memórias a fumaça das pistolas, as pisadas das botas dos militares da SS. Não é por acaso. Na 1ª Guerra Mundial, alguns grupos contaram crimes que em muitos casos não haviam acontecido, e isso ficou na memória da geração de Sanz Briz, obcecada por verificar (“sua origem os torna suspeitos de reações emocionais”) a certeza dos relatos.

Um ano e meio antes que este documento chegasse a Madri, os governos aliados publicaram uma declaração conjunta que denunciava a matança sistemática de judeus. A partir desse momento, pode-se dizer que havia conhecimento geral sobre o Holocausto. Nos países ocupados pela Alemanha foram lançados folhetos anunciando que quem colaborasse com a barbárie seria julgado.

Mas outra coisa era conhecer os detalhes concretos, a história de dentro dos campos. E esta parte até então desconhecida na Espanha foi a que Sanz Briz fez chegar ao governo do general Franco: “Aí se demonstra que Franco conhecia com exatidão o tamanho da matança. Não há dúvidas”, afirma por telefone Bernd Rother, historiador alemão e autor do pretigiado livro “Franco e o Holocausto”.

Rother, que investigou durante anos nos arquivos confidenciais espanhóis que foram abertos, assegura que o informe que Sanz Briz começou a circular pelas esferas de Budapeste em maio de 1944. Os rumores de que a Solução Final caminhava a passos firmes eram insistentes e confirmam que entre abril e julho foram deportados 450 mil judeus húngaros para os campos de extermínio. Até para membros da resistência antinazista era difícil imaginar que algo assim estivesse acontecendo, por isso os documentos que contavam com exatidão o que acontecia nesses locais cercados tinham relevância. “Sanz Briz demonstrou mais uma vez sua coragem”, aponta Rother. O historiador se surpreende inclusive com o fato de que, mesmo depois de ter expedido os falsos passaportes e ter enviado a história dos jovens poloneses, ele não tenha sido destituído. Depois chegou inclusive a continuar com uma carreira diplomática bem sucedida que o levou para vários países do mundo.

Em Auschwitz, enquanto isso, não paravam de chegar vagões repletos de judeus. Na entrada encontravam-se com um imponente cartaz: “O trabalho os libertará”. Os recém-chegados recebiam cada dia um pouco de margarina e uma colherada de geleia, com café ou chá frio, segundo diz o documento de Sanz Briz. A sopa que era servida ao meio-dia era cheia de água suja e uma beterraba, e à noite eles dividiam, em tese, 300 gramas de pão, ainda que no final costumava ser metade disso. Um Instituto de Higiene foi aberto no campo, num bloco isolado dos outros. Lá havia internos, infectados e pacientes cirúrgicos. Em seu interior, eram provocados ferimentos de guerra para ver como eles se curavam depois, eram feitos estudos raciais com os esqueletos dos prisioneiros e doenças contagiosas eram tratadas. Além disso, investigavam os efeitos da altitude, das baixas temperaturas ou da ingestão de água do mar. Sempre com os presos como cobaias e contra sua vontade.

O primeiro crematório foi inaugurado em março de 1943, com 8 mil judeus de Cracóvia que passaram pela câmara de gás e foram incinerados. Os jovens eslovacos narram que na ocasião chegaram oficiais militares e civis de Berlim que viam a situação como uma festa. “Comprovavam satisfeitos o que acontecia na câmara de gás e no final davam seu total consentimento.” Na porta do crematório foi colocado um paredão de fuzilamento, antes situado em outra parte do campo.

A nova localização facilitava o trabalho de limpeza dos sonderkommandos, unidades de trabalho compostas por judeus, encarregados de colaborar com seus próprios carrascos em troca de mais alguns meses de vida. Eles eram encarregados de retirar os cadáveres das câmaras de gás e de roubar os pertences dos mortos. Os demais prisioneiros evitavam aproximar-se deles por causa do cheiro que desprendiam e da sua fama de violentos. “Assisti a uma cena na qual um jovem judeu polonês explicava a um homem da SS o verdadeiro modo de matar um homem sem nenhuma arma.” Eram capazes de fazer isso com as mãos. E isso em Auschwitz não era um crime. O morto era simplesmente recolhido com um carrinho de mão e o número do preso era anotado num documento onde se registravam as baixas. Sem especificar como a morte havia acontecido. Isso não tinha importância neste lugar, afinal, tratava-se de judeus.

O testemunho dos jovens eslovacos sobre como eram acionadas as câmaras de gás é pungente. Eles contam que o interior delas tinha um aspecto de banheiro normal. Sem janelas, exceto por um ventilador no teto. As execuções eram organizadas de uma maneira industrial, quase mecânica. Os condenados chegavam de caminhão, acompanhados por um médico, e quando entravam na câmara, rodeada de arame farpado, tiravam as roupas, todos juntos. Os guardas confiscavam relógios, medalhas, pingentes, fotografias, com a promessa de devolver tudo em breve. Os prisioneiros recebiam na sequência uma toalha e um pedaço de sabão. A chicotadas, eram obrigados a espalhar-se por toda a câmara. As portas eram fechadas e de repente, com um chiado metálico, as aberturas do ventilador lançavam o gás e dez minutos depois tudo havia acabado. Um grupo de judeus tirava os cadáveres do local para dar lugar aos próximos. Os primeiros a serem executados pensavam que iam tomar banho, mas à medida que a verdade sobre o que acontecia ali foi se espalhando, foram cada vez mais frequentes as tentativas de não entrar nas câmaras. Os guardas resolviam a situação dando tiros ou coronhadas.

O governo de Franco teve uma posição ambígua em relação à Solução Final idealizada pelos alemães. Antonio Marquina, professor da Universidade Complutense de Madri e um dos primeiros estudiosos da figura de Sanz Briz, destaca que o fato de a Espanha ter aderido ao Pacto de Aço, que dizia que os inimigos da Alemanha também eram inimigos da Espanha, marcou a estratégia do país. Basta recordar o encontro entre Franco e Hitler em Hendaya em 1940. Quatro anos depois, na época em que Sanz Briz enviou o relato do ocorrido no campo de extermínio, Marquina disse que era preciso ressaltar que o Desembarque da Normandia já havia acontecido, fazia tempo que Mussolini já havia sido derrotado e os aliados consolidavam seu avanço. A Alemanha estava encurralada. O diplomata atua então por sua conta, sem instruções de nenhum tipo, intuindo que a posição espanhola a respeito da guerra devia ter variado à força.

O historiador Julián Casanova acredita que Sanz Briz foi valente, enviando os documentos, ainda que nesse momento já tivesse o vento a seu favor, sobretudo quando o sentimento anti-judeu era menor. “Ainda corria risco porque o tema do Holocausto queimava Franco, que tinha muitas dores de cabeça. Quase tantas quanto a própria Igreja”, diz. E Haim Avni, reconhecido professor da Universidade Hebrea de Jerusalém, acrescenta: “Sua ação é importante simplesmente porque o Holocausto na Hungria começou um pouco antes, em março, quando o Exército alemão ocupou o país, e ele envia o documento no verão (26 de agosto). O horror estava diante de seus olhos, e ele o denunciou. Nem todos se atreveriam a fazê-lo.”

Com Serrano Suñer, por exemplo, um ministro pró-nazista, o que Sanz Briz fez teria sido um suicídio. De qualquer forma, Marquina considera que há poucos documentos que refletem com certeza o fluxo de informação que o governo de Franco recebeu nesta época por meio dos serviços de inteligência e dos militares. A história, pois, ainda está para ser escrita.

O caso é que além de enviar o informe, Sanz Briz continuou com seus trabalhos diplomáticos. Os judeus que ele protegia foram recolhidos num gueto, à espera de qualquer movimento por parte dos nazistas. O diplomata alugou então 11 prédios nos quais pendurou um cartaz no qual se lia: “Anexo à Embaixada Espanhola. Edifício extraterritorial”. Os funcionários da Embaixada encarregaram-se de fornecer alimentos e higiene aos refugiados. Com o Exército Vermelho às portas de Budapeste e as queixas constantes dos nazistas a Franco, Sanz Briz viu-se obrigado a deixar o país. Seu trabalho continuou com um colaborador seu, Giorgio Perlasca, um italiano que se fez passar por espanhol (mudou seu nome para Jorge) e assumiu o papel do diplomata espanhol dizendo que este havia saído por pouco tempo. Os dois salvaram cerca de 6 mil pessoas. Outros diplomatas franquistas dessa época também ajudaram a salvar centenas de vidas, como é o caso de Julio Palencia, enviado a Sofia (Bulgária), ou José Ruiz Santaella em Berlim.

Sanz Briz incluiu no envelope que enviou a Franco, o relato de uma senhora e seu filho. Enojada pelas condições de higiene que suportava no campo de concentração no qual estava presa, pediu sua transferência a Birkenau, onde havia ouvido dizer que os presos não eram tão maltratados. Ao chegar ao local, ficou impressionada com o cartaz que dizia que o trabalho os tornaria livres. “Tive a impressão de ter feito uma boa mudança”, contou mais tarde. O páteo limpo, os prédios de ladrilho e a grama verde causaram uma boa impressão. Mas logo ela se deu conta de seu erro. Rasparam sua cabeça, tatuaram um número em seu braço esquerdo e, dessa forma inesperada, transformou-se numa prisioneira política. Certo dia a conduziram à câmara de gãs e ela entrou em pânico, embora dissessem que era para um reencontro do grupo. Ela teve sorte: conseguiu escapar e com a ajuda de alguns camponeses conseguiu chegar à Hungria.

Este fragmento de terror também esteve nas mãos de Francisco Franco, o ditador espanhol. Mas ele nunca respondeu ao jovem Sanz Briz.

Tradução: Eloise De Vylder

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