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28/03/2010

Os jovens líderes da África do Sul

El País
Lali Cambra
Cidade do Cabo (África do Sul)
  • Policial sul-africano olha crianças que protestam contra a morte de quatro pessoas atropeladas pelo rapper Jub Jub

    Policial sul-africano olha crianças que protestam contra a morte de quatro pessoas atropeladas pelo rapper Jub Jub

O materialismo da sociedade capitalista atual se impõe aos ideias do Congresso Nacional Africano, o partido de Mandela. Ao lado dos novos milionários, 48% da população vive, segundo dados de 2005, com menos de 32 euros (R$ 76,8) por mês

Os Mini Cooper são os carros da moda entre os jovens com recursos dos guetos sul-africanos. São caros, bonitos, pequenos e rápidos, ideais para fazer rachas. Em 8 de março, um conhecido rapper local chamado Jub Jub e seu amigo cruzaram a toda velocidade uma das ruas mais movimentadas de Soweto num Mini Cooper. Ele estava sob efeito de cocaína; seu amigo, bêbado. Às 16h atropelaram um grupo de estudantes que voltava a pé para casa. Quatro morreram. Nos dias seguintes, milhares de estudantes tomaram as ruas de Soweto para protestar e pedir a cabeça de Jub Jub. O episódio gera mais indignação porque o rapper era considerado um modelo para os jovens e porque era um adepto do “bling”, que, no jargão do hip-hop, significa brilho e ostentação.

O conceito calou não só os rappers, mas também as classes dirigentes do Congresso Nacional Africano (ANC, em inglês), partido que gerou homens de integridade exemplar como Oliver Tambo ou Nelson Mandela. “Sim, a ideia já faz parte da realidade sul-africana”, diz Prince Mashele, diretor do Centro de Pesquisa Política, “tanto como acontece no Ocidente, onde os modelos de comportamento são criados através da televisão, do rádio e dos jornais. Quem dirige o melhor carro, quem exibe roupas mais vistosas ou bebe as marcas mais caras é mais venerado pela juventude atual.”

Mashele fala no geral, mas poderia estar falando especificamente do líder das juventudes da ANC, Julius Malema, um jovem de 28 anos sem estudos, mas com conexões políticas. Malema cobra 2 mil euros (R$ 4.800) da Liga Jovem, tem duas casas, vários carros de luxo e um estilo de vida brilhante que, segundo os jornais locais, deve-se aos contratos que o governo concedeu a suas empresas. Malema celebrou seu último aniversário aparecendo na imprensa com uma champanhe Moet Chandon num estádio de futebol alugado para uma das festas em sua homenagem. “O ANC lutou pelo estilo de vida de Malema”, diz Ndoda Ngemtu, porta-voz da Liga Jovem do ANC no Cabo Ocidental, para justificar seu líder.

Mas não é apenas Malema. Há algumas semanas, o jornal “Mail and Guardian” denunciou que o ministro das Comunicações, Siphiwe Nyanda, hospeda-se nos hotéis mais luxuosos e caros quando visita a Cidade do Cabo, apesar de ter uma residência oficial num bairro também luxuoso. Tudo isso acontece no país africano mais industrializado, mas também um dos mais desiguais do mundo, onde ser branco ainda significa ganhar seis vezes mais e no qual se calcula que seja preciso construir dois milhões de casas para substituir barracos. Um país no qual o desemprego entre a população negra alcança 28% e onde 48% vive, segunda dados de 2005, com menos de 32 euros (R$ 76,8) por mês.

“As pessoas já não se filiam ao ANC por idealismo, como antes. A sociedade evoluiu e o ANC é um reflexo da sociedade atual. Portanto, essas atitudes também acontecem dentro dele”, explica Mashele.

Para o escritor e jornalista William Gumede, esse gosto pela ostentação se transformou-se numa cultura: “Significa que a pessoa teve sucesso. Ninguém precisa mais estudar ou trabalhar duro. Basta procurar atalhos. Ter um amante rico, ser ligado a um político influente ou aliar-se com um chefe mafioso”. Num artigo recente no jornal “The Sowetan”, Gumede escreveu: “A cultura do 'bling' alimenta a corrupção, o ser desonesto, corrompe nossas almas. De fato, contradiz todos os valores nos quais se baseou a luta pela libertação”. O jornalista acredita que as políticas de ação afirmativa da população negra também contribuíram para o auge desta moda. Outros, como Zwelenzima Vavi, líder da central sindical mais poderosa do país, a Cosatu, alertam sobre uma poderosa elite do ANC, conduzida por “materialistas e negociantes de concorrências públicas”, cujas ações ameaçam destruir o partido.

São poucos e fazem parte da elite e da emergente classe média-alta negra. Mas brilham até cegar. O jovem Malema visitou o rapper Jub Jub na prisão e dias depois o juiz o soltou sob fiança. Enquanto isso, os estudantes, aqueles que antes se maravilhavam com o Mini Cooper prateado do rapper, repetiram cenas de 1976 sob os disparos das balas de borracha da polícia.

Tradução: Eloise De Vylder

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