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30/03/2010

Iraque luta contra a divisão religiosa

El País
Ángeles Espinosa
Em Teerã
  • Iraquianos protestam contra resultado das eleições

    Iraquianos protestam contra resultado das eleições

A vitória do laico Iyad Alawi nas legislativas mostra que muitos iraquianos, independentemente de etnia e credo, querem um Estado aberto e pluriconfessional

Nem o anúncio dos resultados eleitorais nem a publicação da lista dos novos deputados acabam com o suspense no Iraque. A vantagem de dois assentos que Iyad Alawi tem sobre o primeiro-ministro Nuri al Maliki não garante que o líder do Iraquiya vá encabeçar o próximo governo. Os votos que Alawi obteve no sul do país indicam que é algo mais que "o candidato dos sunitas", mas a divisão étnico-religiosa do país ainda é demasiado evidente. A ilusão do Iraque laico e pluriconfessional que seus vizinhos árabes e o Ocidente veem na eleição de Alawi se choca com a necessidade de negociar.

Desconfiança marca contagem dos votos

"Ao ganhar mais assentos que os esperados no sul e quase tantos quanto Al Maliki em Bagdá, Alawi demonstrou que é algo mais que o candidato dos sunitas", interpreta Reidar Visser, pesquisador do Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais.

Uma simples leitura dos dados deixa claro que o Iraquiya obteve melhores resultados nas províncias do sul que o Estado da Lei nas do norte. A lista encabeçada por Alawi conseguiu 12 deputados nas nove províncias quase exclusivamente xiitas (destacando-se três em Basora e outros tantos em Babilônia), enquanto a do primeiro-ministro só consegue um lugar no resto do país (com exceção da capital), em Diyala, uma província de população mista sunita e xiita.

Alarmados pelos laços das coalizões xiitas com o vizinho Irã, muitos iraquianos urbanos e instruídos deram seu voto para Alawi, que jogou a cartada de uma coalizão ampla centrada na identidade nacional, mais que na confissão religiosa. Mas embora isso indique a existência de bolsões não confessionais entre uma comunidade xiita que nunca foi monolítica, e possa lhe dar maior credibilidade em nível nacional, o Iraque plural e laico que almejam as chancelarias árabes e ocidentais em Bagdá é mais um desejo que uma realidade.

"As divisões étnicas ou religiosas ainda são muito visíveis", afirma em um e-mail Joost Hiltermann, especialista em Iraque no International Crisis Group. Embora admita que Alawi era o único candidato laico verossímil depois do apoio de Al Maliki ao comitê de des-baathificação que desqualificou centenas de candidatos sunitas, insiste em que "o sectarismo perdura". "A maioria dos xiitas votou em partidos xiitas, os curdos em partidos curdos e os sunitas no Iraquiya." Esse fato sem dúvida aumenta as dificuldades de um pacto político.

Para começar, nem sequer está claro se Alawi será o primeiro chamado a formar um governo. A lei estabelece que o presidente (que primeiro tem de ser eleito pela nova Assembléia Nacional) encarregue dessa tarefa "o maior bloco do Parlamento". Até agora se havia interpretado que esse bloco era o que obtivesse mais assentos nas eleições. Uma sentença do Supremo divulgada na véspera do anúncio dos resultados estabelece que também pode ser o que se formar depois das eleições, se for maior que aquele.

Essa eventualidade reaviva as possibilidades de Al Maliki, que impugnou os resultados, se conseguir recompor a aliança xiita que na coalizão com os curdos o levou ao poder em 2005. Parte daquela se apresentou de forma independente como Aliança Nacional Iraquiana, reunindo o Conselho Supremo Islâmico do Iraque (a formação de Al Hakim), os sadristas, o Congresso Nacional Iraquiano de Ahmed Chalabi e outros grupos menores.

As 70 vagas que conseguiu a transformam na terceira força do país, com especial peso dos sadristas (40 deputados). No entanto, estes, que culpam Al Maliki pela perda de Basora, dificilmente vão aceitar que ele tenha um segundo mandato como primeiro-ministro. E ele não parece disposto a ceder o cargo para permitir a continuidade da coalizão.

As opções não são maiores para Alawi, que, assim que foram anunciados os resultados, se declarou aberto "a negociar com todas as forças políticas". Se finalmente receber o encargo de formar o governo, Hiltermann opina que "será muito difícil que tenha êxito". "Apesar de ser um pragmático que poderia conseguir um acordo com os curdos e algumas facções xiitas, um dos principais componentes de seu eleitorado são os nacionalistas árabes (sunitas), que não tolerariam uma aliança com os curdos a menos que estes façam concessões impossíveis sobre Kirkuk e outras áreas em disputa", explica.

Nessas condições, alcançar a maioria simples de 163 deputados parece uma missão impossível. Mas, além disso, há outras regras fora da pura aritmética. "Nem Al Maliki nem Alawi podem se permitir formar um governo sem os curdos ou sem apoio sunita; mesmo que seja possível numericamente, seria politicamente insustentável", adverte Marina Ottaway, diretora do programa de Oriente Médio no grupo de pensadores Carnegie Endowment for International Peace, em sua análise dos resultados eleitorais.

Inclusive no caso de "um governo Al Malawi", uma coalizão entre as listas de Al Maliki e Alawi, ou pelo menos entre os grupos chaves das duas formações, Hiltermann duvida que algum deles vá se transformar em primeiro-ministro. Por mais que desagrade a ambos, e suas diferenças pessoais parecem ser o maior obstáculo para essa coalizão, já que suas plataformas políticas são as mais próximas em alguns problemas constitucionais, o preço para formar o governo talvez seja sua renúncia ao timão de comando.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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