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31/03/2010

Liga do Norte se transforma na chave italiana

El País
Miguel Mora
Em Roma

A formação do Piemonte, que alcança 12,8% dos votos, sai reforçada das regionais, marcadas por uma abstenção recorde

Os resultados definitivos das eleições regionais italianas confirmam o estancamento dos grandes partidos nacionais e o avanço histórico da Liga do Norte. O partido mais eficaz e melhor implantado no país, velho aliado de Silvio Berlusconi, quase triplica seus votos de cinco anos atrás e obtém 12,8% em escala nacional.

Eleições regionais apontam avanço da direita italiana

  • Arte UOL

A mensagem visceral e concreta de Umberto Bossi, a abstenção mais alta da história republicana, e a ligeira melhora da centro-esquerda, que se limita a salvar 7 das 11 regiões que governava, permitem que Berlusconi não pague o habitual pedágio de meio de mandato, arrebatando quatro jóias dos "comunistas": Piemonte, Lácio, Calábria e Campânia.

A marcha triunfal "padana" oferece solidez e raízes para o líquido partido de Berlusconi, que apesar da sensação de vitória perde 4 pontos em relação às eleições europeias de 2009 e transforma Bossi em motor e chave da política nacional.

Ser refém da Liga, um partido contraditório, regionalista, reformador, xenófobo e racista em relação ao sul, oferece riscos e vantagens evidentes. Mas a fatura promete ser cara. As hostes de Bossi, apresentando-se só no centro-norte, conseguem quase a metade dos votos que o Povo da Liberdade (PdL) obtém em todo o país: 2,7 milhões.

À primeira vista, a virada para a extrema direita do eleitorado conservador parece indiscutível. O norte, que produz e gera riqueza, exige mão dura contra a imigração e, sobretudo, uma nova distribuição federal dos tributos. Tanto pago, tanto recebido.

Berlusconi triunfa em eleições regionais

A conta será paga pelo sul, abandonado nas mãos das máfias por uma centro-esquerda incapaz de apostar a fundo na legalidade, exceto em Apúlia, onde o governador Nichi Vendola sai reforçado como única esquerda digna de tal denominação.

A primeira consequência das eleições é que nos três anos de legislatura que restam a Liga imporá sua agenda e seu modelo de (des)coesão territorial. Gianfranco Fini, o aliado moderado de Berlusconi, contará cada vez menos diante dos slogans do "panzer" padano, seu oposto intelectual. Propostas como a cidadania em cinco anos para os estrangeiros passarão à história. Haverá, sim, salas de aula separadas para emigrantes, sabão para se lavar quando tocar um estrangeiro...

A Liga oferece gestão direta, estilo de taberna e razões de peso. Com o vilipendiado Partido Democrata (PD), é o único partido que melhora seus números: rompe seu teto histórico, alcança picos de 40% no Vêneto e na Lombardia e consegue uma vitória inédita no Piemonte com um candidato jovem e de temperamento medíocre como Roberto Cota, duplicando sua porcentagem para 16%. Além disso, voa na Lombardia de 15% para 27%; na Ligúria obtém 10% e em regiões vermelhas como a Emília Romana triplica seus votos, para 14%; nas Marcas e na Toscana beira os 6%, e já baixa até a Úmbria, onde supera os democratas-cristãos da UDC. Bossi começou logo a pedir, e em grande estilo: ontem reivindicou a prefeitura de Milão. O PDL declinou entregá-la. Mas se insistir...

Paradoxalmente, o plebiscito que Berlusconi reivindicou aos eleitores acabou desta vez em fraude pessoal do primeiro-ministro. Apesar do triunfalismo da mídia conservadora, a dele próprio, e do derrotismo dos progressistas, "Il Cavaliere" ficou muito longe de arrebatar as massas. Não se afunda como Sarkozy, é claro, mas apenas consegue 100 mil votos a mais que os "comunistas": 5,9 milhões, contra 5,8 milhões.

Em relação às últimas eleições, Berlusconi perde força de modo evidente: quatro pontos percentuais sobre as europeias de 2009 e quase nove sobre as gerais de 2008. Inclusive comparando com seu desastre de cinco anos atrás, sai pior.

O primeiro-ministro interpretou o resultado como "um prêmio para o governo e uma vitória do amor". Enquanto dizia isso, seu ministro Renato Brunetta perdia a prefeitura de Veneza para o candidato de centro-esquerda e culpava a Liga: "Quando votam em seus candidatos, não hesitam; se votam na coalizão, têm problemas". Outro ministro, Raffaele Fitto, demitiu-se do cargo depois da derrota de seu candidato na Apúlia. Uma leitura atenta dos dados deixa outros sinais de advertência para Berlusconi. O norte está disposto a deixá-lo pela Liga quando se descuidar.

E o grande vencedor da jornada não é ele, nem mesmo Bossi, mas o desafeto, o cansaço, a resignação e a antipolítica: a abstenção cresce 8 pontos em relação a cinco anos atrás, e os 63,6% de participação são a porcentagem mais baixa desde que nasceu a República Italiana em 1948: 14 milhões de pessoas ficaram em casa, e uma em cada três preferiu não se molhar. Visto de seu lado, se a social-democracia dá sinais de asfixia, significa que o projeto acultural, midiático e autoritário está emperrando. Quanto pior, melhor.

Foi o que lembrou na terça-feira o presidente da República, Giorgio Napolitano: "A distância dos cidadãos da política, que se refletiu na baixa afluência às urnas, deve ser superada por um processo de reformas respeitoso dos valores da solidariedade e dos equilíbrios constitucionais". A abstenção atingiu todos os partidos nacionais, mas causa mais danos ao PD, não só porque a renúncia ao voto tem quase sempre esse efeito (na verdade cresce mais nas regiões vermelhas), mas porque no norte a concorrência com a Liga mobiliza o eleitorado do PD. O líder de centro-esquerda, Pierluigi Bersani, resumiu essa sensação: "No norte desabafam assim: se querem castigar Berlusconi, votam em Bossi".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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