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31/03/2010

Menino de 11 anos é o símbolo da reforma da saúde de Barack Obama

El País
Yolanda Monge
Em Washington
  • Obama assina reforma da saúde ao lado de líder de seu partido no Congresso

    Obama assina reforma da saúde ao lado de líder de seu partido no Congresso

Sua mãe morreu de um mal cujo tratamento não pôde pagar porque não tinha seguro-saúde

Na primeira hora da manhã de segunda-feira da semana passada, tocou o telefone na casa dos Owens em Seattle, no estado de Washington. Era a Casa Branca. "Marcelas Owens?" "Sou Gina, a avó dele." "Por decisão do presidente, vocês dois estão convidados para a cerimônia de assinatura da lei da reforma da saúde", informaram. A avó e o neto mal tiveram tempo de lavar a roupa, preparar uma mala e voar na madrugada do dia seguinte para Washington. Desnecessário dizer que estavam emocionados.

Marcelas Owens, de 11 anos, perdeu sua mãe quando tinha 7. Ela morreu de uma doença cujo tratamento não pôde pagar porque não tinha seguro médico. Não tinha seguro porque perdeu o emprego. Perdeu o emprego porque estava doente demais para cumprir os horários e obrigações em um restaurante. Um círculo infernal. Tiffany Owens fazia parte das estatísticas que dizem que 32 milhões de americanos não têm cobertura de saúde. Desde 2007 engrossou outro número, o dos mortos. Owens sucumbiu à doença que um dia, no pronto-socorro de um hospital de Seattle, lhe disseram que não poderia ser curada, mas sim tratada. Morreu uma semana depois com 27 anos. Junto com Marcelas, outras duas crianças ficaram órfãs. Nas fotografias dessa família nunca existiu um pai.

O caso desse menino negro de rosto redondo, que na última terça-feira vestiu seu único terno - a gravata tinha praticamente as mesmas cores da do presidente Obama -, ficou conhecido no início do debate no Congresso sobre a necessidade de uma reforma do sistema de saúde. A senadora democrata pelo estado de Washington Patty Murray colocou Owens e sua mãe como exemplos da necessidade de uma mudança profunda na saúde americana. "Senhor presidente, nosso sistema de saúde está quebrado", declarou Murray há mais de um ano. "Está quebrado para mães como Tiffany, mães solteiras que trabalham para sustentar suas famílias e das quais as empresas cobram até 50% a mais em seus seguros do que cobrariam de um homem."

"A isso chegamos", disse a senadora. "Este é o momento", concluiu. Entre essas palavras e a aprovação da lei da reforma sanitária, na noite de domingo passado, foram 14 longos meses cheios de ásperos debates políticos; o surgimento de um movimento reacionário chamado Tea Party, insultos, jogo sujo, um presidente que se reinventou ao longo do processo e, finalmente, "uma nova era para os EUA". O país desenhou a reforma estrutural mais profunda em meio século. Embora a nova lei não represente a homologação da sociedade americana aos parâmetros de justiça social que regem a Europa, se acabará com a literalidade de deixar milhões de pessoas morrer sem assistência. Como foi o caso de Tiffany Owens.

A colérica extrema-direita, que ultimamente faz tanto ruído e tantas ameaças, denuncia a prostituição que os liberais estão fazendo da figura de Marcelas e da morte de sua mãe. "Sua mãe estaria morta de qualquer maneira", disse indiretamente ao menino Marcelas o irado locutor de rádio Rush Limbaugh. "O 'Obamacare' não entra em vigor até 2014", proclamou. "Isto é simplesmente exploração, um menino de 11 anos forçado a contar sua história em benefício do Partido Democrata e de Barack Obama", insistiu.

"Onde estava a avozinha quando a mãe estava doente?", perguntou-se outro grande agitador do medo das massas, o apresentador da Fox Glenn Beck. "Onde estavam todos esses esquerdistas que agora passeiam Marcelas quando sua mãe vomitava sangue?", disse Beck em seu programa do último dia 15.

Fora da tropa do Tea Party e da extrema-direita, que se conjuraram para fazer fracassar o projeto no qual sucumbiram de Truman a Clinton, passando por Johnson e Nixon, os Owens tiveram seus 15 merecidos minutos de fama na última terça-feira, durante a cerimônia em que Obama assinou com 22 canetas, letra a letra e garrancho a garrancho, a lei que introduz os EUA no Primeiro Mundo.

"Toque aqui, rapaz." Lá estava Obama diante das câmeras que transmitiam o ato para o mundo, com a palma de sua mão direita erguida para bater na mão do pequeno Owens. Missão cumprida, "Mister President". Boa sorte Marcelas, porque até agora seu caminho não foi fácil.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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