UOL Notícias Internacional
 

04/04/2010

Escândalos de abusos sexuais reabrem o debate sobre o celibato na igreja

El País
Josep Garriga e Emilio de Benito
  • Padres passam junto a um pequeno boneco representando Jesus quando bebê, durante missa pelo Nascituro, na Igreja da Candelaria, no RJ

    Padres passam junto a um pequeno boneco representando Jesus quando bebê, durante missa pelo Nascituro, na Igreja da Candelaria, no RJ

Especialistas sustentam que não há relação direta entre a castidade e a pedofilia; os últimos escândalos reabrem o debate sobre a norma que proíbe o casamento

Os escândalos de abusos sexuais na Igreja Católica reabriram o debate sobre se há na instituição – e, mais especificamente, no voto de castidade que ela exige de seus membros – algum fator que faça com que os sacerdotes e outros religiosos sejam mais propensos à pedofilia. Ou, se ao contrário, a ampla dedicação à docência e à igreja e o fato de tratar-se de uma instituição fechada e protetora com seus membros a transforma num refúgio preferido por aqueles que a veem como um meio para ficarem mais próximos de suas vítimas.

A combinação desses comportamentos – a opção pelo celibato e a de manter relações não consentidas com menores de idade – faz com que seja difícil encontrar dentro da hierarquia eclesiástica pessoas que queiram opinar sobre esse assunto controverso. Para começar, a Conferência Episcopal Espanhola, a quem isso poderia ser um tema de interesse, é a primeira que se nega a comentar este aspecto, segundo manifestou seu porta-voz Isidro Catela à reportagem.

Todos os especialistas consultados concordam em negar qualquer relação direta entre o celibato e a pedofilia. “Ser sacerdote ou celibatário incentiva à pedofilia? Claramente não. Ser pedófilo incentiva ao sacerdócio? Sim, porque a igreja atua como elemento protetor, como um guarda-chuva, uma vez que o pedófilo sempre pensa que é melhor cair nas mãos do bispo que da justiça”. Esta é a opinião de Pere Font, diretor do Instituto de Estudos da Sexualidade e da Pareja de Barcelona, com mais de três décadas de experiência no assunto. Font considera que a Igreja, sem querer, transformou-se num refúgio para os abusadores de menores. “Os instintos pedófilos aparecem na adolescência e nos primeiros anos da juventude. Ou seja, quando eles entram no seminário já apresentam alguns estímulos. Dito isto, quero esclarecer que o celibato complica mais esta situação porque não oferece uma saída diferente para as necessidades sexuais de um pedófilo. Mas a Igreja não fabrica pedófilos. Definitivamente não.”

A análise de Font coincide com a de Francisco Alonso Fernández, presidente do Instituto de Pesquisas da Língua Espanhola. “Indubitavelmente, entre o celibato e a pedofilia há uma dupla ligação estatística, um duplo vínculo causal”. Centrando-se no que ele define como pedofilia primária (a que não obedece a uma situação transitória no desenvolvimento da pessoa ou aos efeitos de um transtorno mental), ele afirma que as pessoas que sentem uma atração por crianças “escolhem profissões” que as permitam estar em contato com elas. “Os estudos mencionam os monitores, os treinadores esportivos, os sacerdotes e frades e os motoristas de ônibus escolar”, afirma. Eles escolhem essas profissões “para mascarar sua pedofilia”, acrescenta. “Não há muitos pedófilos trabalhando em instituições geriátricas”, acrescenta Pere Font.

E, ao mesmo tempo, pensando no caso dos religiosos, Francisco Alonso aponta que o celibato “pode ativar a tendência em relação aos meninos”. “É lógico que uma pessoa que não é capaz de ter uma relação com um adulto busque refúgio num grupo que o obriga a manter-se casto”, afirma. Mas ele destaca que esse tipo de comportamento se dá “em todos os contextos sociais, culturais e religiosos, e não só entre os católicos”. E os dados deste catedrático emérito da Universidade Complutense comprovam: “Em três entre cada quatro casos de pedofilia já existia uma relação anterior entre a criança e o adulto; em 15% das vezes o adulto era um professor.”

Na mesma linha, o vice-presidente da Associação Espanhola de Psiquiatria Legal, Alfredo Calcedo, aponta que “está provado que as pessoas com inclinações pedófilas buscam trabalhos nos quais estejam em contato com crianças”. E Font recorda, por exemplo, o caso do bairro de Raval, em Barcelona, em que Xavier Tamarit, condenado a 66 anos de prisão por oito delitos de abusos sexuais a menores, atuava como educador infantil.

Calcedo também não acredita que o celibato aumente esta tendência pois afirma que, com toda certeza, entre os religiosos existe a mesma proporção de heterossexuais, homossexuais ou pedófilo “que entre a população em geral”. As únicas estatísticas conhecidas realizadas pela Igreja Católica se referem à Alemanha, onde o escândalo da pedofilia já afeta 19 das 27 dioceses. Desde 1995, foram denunciados 210 mil casos de abusos e apenas 94 envolviam religiosos. O que representa uma taxa de 0,044%. A diferença é que, no caso dos sacerdotes, “houve uma estrutura que os escondeu”, aponta. Font também acrescenta que houve sacerdotes que, “com toda honestidade”, acreditaram que as “profundas crenças religiosas, éticas e morais da Igreja freariam suas tendências à pedofilia”.

O coordenador do Grupo de Andrologia da Associação Espanhola de Urologia, Ignacio Moncada, enfatiza que “o celibato e a abstinência sexual são algo antinatural”. “Não há nada provado do ponto de vista fisiológico que a abstinência sexual conduza a uma maior atração por crianças”, aponta, mas “reprimir o instinto sexual não deixa de colocar a pessoa numa situação de estresse psicológico”. “Como não é algo normal, leva à frustração do indivíduo”.

Claro que esta situação pode ser resolvida “sublimando” o instinto. Não foi provado que isso leve a fazer sexo com crianças mais do que a fazer com mulheres ou homens, segundo a orientação prévia de cada um, admite Moncada, mas “provavelmente, ao tentar evitar relações com mulheres – que é a orientação da maioria – e ficar mais próximo de menores, aparece esse impulso”, afirma. De qualquer forma, o urologista insiste que não há estudos conclusivos e que estas teorias são “uma tentativa de encontrar uma causa para algo que não é perdoável”.

Se os psiquiatras e sexólogos consultados não duvidam em levantar uma barreira intransponível entre o celibato e a pedofilia e incluí-los em compartimentos estanques, a resposta para a pergunta de se a castidade é um elemento perturbador para a saúde do indivíduo não desperta a mesma unanimidade.

“A própria Organização Mundial de Saúde inclui uma definição de saúde sexual como parte do conceito mais amplo de saúde”, comenta Pere Font. O psicólogo se faz a seguinte pergunta: “A sexualidade é uma opção ou uma necessidade?”. E responde: “Quando temos sede, podemos demorar mais ou menos para beber, mas por fim tomamos líquido. O mesmo acontece com a comida. Portanto, a sexualidade também tem um componente fisiológico importante e é uma necessidade mais do que uma opção”. E aponta que carecer de uma vida sexual saudável nos deixa mais suscetíveis, inquietos e irritáveis. “O sexo é uma força da natureza que não se pode impedir, não é domesticável. No máximo acomodável. Não temos um botão de desliga com o qual podemos apagar nosso desejo sexual”, acrescenta.

Entretanto, Jordi Font, psiquiatra e psicoterapeuta, professor de psicologia e psicopatologia das experiências espirituais e religiosas da Fundação Vidal i Barraquer de Barcelona e, além disso, licenciado em Teologia, enfatiza que o celibato não é exclusivo do catolicismo e insiste em diferenciar entre a sexualidade - “a especificamente humana, entendida em todas as suas dimensões” - e o aspecto erótico da mesma. “A pretensão do celibato é viver a sexualidade em sua plenitude priorizando o que tem de mais valor nela, que para o celibatário é a sua dimensão espiritual, a que vai do amor egocêntrico para o amor aos outros”. Por isso que o celibatário renuncia a ter mulher e filhos porque, afirma, “o objetivo de seu amor vai mais além do de uma pessoa concreta, é aberto a Deus e se realiza em todo ser humano.”

Jordi Font reconhece que todas as pessoas têm uma tendência erótica e, portanto, quando o celibatário sente um estímulo erótico deverá saber superá-lo, e não reprimi-lo, “como também o faz o não celibatário livremente quando lhe convém”. Conseguir isso dependerá, em sua opinião, de seu grau de maturidade pessoal e espiritual. E se não conseguir? “Tanto o celibatário quanto um dos membros de um casal podem cometer infidelidades, mas todos devem estar conscientes de que estão rompendo um compromisso adquirido por amor, mas as falhas podem ser perdoadas quando há amor”. E conclui: “O celibato não é só um compromisso com Deus, mas também com os demais.”

Depois de todos esses escândalos, o Vaticano quis esclarecer o debate sobre o celibato para os sacerdotes. Entretanto, o jesuíta e ex-cardeal de Milão Carlo María Martini, voltou ontem a pedir que a Igreja católica reformule a obrigação do celibato, como já havia feito em seu livro Coloquios Nocturnos em Jerusalém. Num artigo no jornal austríaco Die Presse, Martini escreveu: “As questões de fundo da sexualidade devem ser repensadas a partir do diálogo com as novas gerações (…) porque devemos reformular os problemas de base para reconquistar a confiança perdida.”

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host