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05/04/2010

Os males de trabalhar pouco

El País
Joan Carles Ambrojo

Você passa toda a jornada de trabalho esperando que acabe? Aborrece-se com tarefas monótonas? Sente-se profissionalmente mal aproveitado? A desmotivação e o desinteresse pelo trabalho não são um fenômeno novo, mas aumentaram exponencialmente nos últimos anos. Alguns especialistas a chamam de síndrome do "boreout" (algo como "tédio insuportável", em inglês), que viria a ser o pólo oposto do trabalhador queimado por excesso de tarefas ("burnout"). Da mesma forma, a desmotivação prolongada também pode ter consequências psicossomáticas.

Em um ambiente de desemprego recorde, como repercute a insatisfação no trabalho? Mais de 7 em cada 10 empregados declararam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com seu emprego, segundo a Pesquisa de Qualidade de Vida no Trabalho publicada pelo Ministério do Trabalho em 2008. No entanto, os pesquisados destacaram como o maior risco laboral a monotonia ou rotina no emprego, acima do estresse. Em outro estudo do mesmo ano, 1 em cada 3 empregados se declarou desmotivado, passo perigoso e anterior à categoria de desconectado. Em outra pesquisa realizada em 2005 pela consultoria TMI com 100 mil trabalhadores - 1 mil deles espanhóis -, 80% disseram não se sentir envolvidos em seu trabalho, desmotivados para aprender e melhorar, assumir responsabilidades ou iniciativas e, o que é pior, indiferentes aos sucessos ou fracassos de sua organização.

O "boreout" surge quando as tarefas são distribuídas entre um círculo de empregados do qual o afetado não faz parte. O desinteresse aparece diante de trabalhos de conteúdo pobre e simples para seu nível. A ocupação torna-se rotineira, pouco estimulante, sem responsabilidade nem significado, dizem os autores da obra "A Nova Síndrome Laboral - Boreout", Philippe Rothlin e Peter R. Werder. Aborrecimento somado a um sentimento de tempo vazio que se prolonga, sem conteúdo. Os ponteiros do relógio parecem não avançar. "Esses trabalhadores se transformam em preguiçosos por causa dessas circunstâncias externas, e posteriormente encalham, sem saber mudar sua situação", acrescentam.

Outros especialistas discordam. Em situações de apatia laboral, muitos trabalhadores não se perguntam o que querem fazer na vida, indica Iñaki Piñuel, psicólogo e professor da Universidade de Alcalá. "A maioria afirma trabalhar para ganhar a vida, praticamente ninguém vê o trabalho como uma realização pessoal ou tarefa significativa. A inércia os leva a todo tipo de trabalho. Cedo ou tarde surge uma crise existencial na qual a pessoa está de corpo presente e de mente ausente", explica.

Os estados alternativos à felicidade laboral são o estresse (situações que superam o indivíduo por estar menos capacitado) e o tédio (destreza excessiva para a tarefa encomendada). "Cada pessoa deve encontrar a forma de obter em seu trabalho essa experiência ótima ou fluxo, ou um equilíbrio entre o estresse e o tédio, como explica o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, da Universidade de Chicago", diz Piñuel.

Ao alcançar o estado de fluidez ou de fluxo, o trabalhador se encontra completamente centrado, dedica toda a sua energia psíquica à tarefa, as horas passam em minutos e o funcionamento pleno leva a pessoa a uma harmonia existencial em que a vida ganha todo o seu sentido. "Não se trata de trabalhar longas jornadas, mas de que sejam experiências gratificantes por si mesmas", acrescenta Piñuel.

"Todo trabalho é repetitivo entre 40% e 60%", diz José María Prieto, catedrático de psicologia na Universidade Complutense de Madri. "O problema é que poucos chegam a perceber que inclusive o repetitivo já é um privilégio." Algumas pessoas são capazes de contornar uma situação de dique seco, "a veem como uma oportunidade para o crescimento pessoal", acrescenta. Um dos elementos chaves para abordar um ambiente de trabalho negativo é, uma vez recebida a ajuda psicológica necessária, assumi-lo como uma estratégia para progredir e alcançar novas metas.

"Pessoas que crescem, por exemplo, em situações de assédio laboral, automaticamente buscam outras saídas profissionais, não permitem que tomem sua vida impossível e possuem estratégias positivas para abordar seu próprio valor. Enquanto aquelas que afundam são pessoas que tendem à depressão", diz Prieto. O assédio laboral funciona porque o afetado atribuiu aos outros impunidade e a si mesmo, vulnerabilidade; e, vice-versa, o chefe atribui vulnerabilidade a esse empregado, afirma Prieto. "Podemos contestar essas atribuições ou considerá-las válidas", acrescenta o catedrático.

"Em muitos casos, além de tê-los explorados, com trabalhos precários e em muitos casos assediados, ainda exigem que tenham boa cara", acrescenta Piñuel.

Ele acusa os gurus do "coaching" de culpabilizar por seu mal as vítimas de chefes ou companheiros tóxicos, "como se a infelicidade pessoal fosse anterior e os levasse a transformar seu trabalho em um inferno". Ambientes de trabalho envenenados ou rarefeitos, líderes que não o são, competitividade, dimensionamento escasso de plantéis, falta de ética e capitalismo de precariedade e feudalismo são coisas das quais ninguém fala, salienta Piñuel. "Não é correto falar das opções de mudança de um trabalhador sem levar tudo isso em conta."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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