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06/04/2010

Governo chinês veta Bob Dylan

El País
Diego A. Manrique
Em Madri
  • Bob Dylan (à frente) se apresenta em cerimônia de premiação do Grammy em Los Angeles

    Bob Dylan (à frente) se apresenta em cerimônia de premiação do Grammy em Los Angeles

Pequim limita as visitas de artistas estrangeiros depois que Björk se manifestou ao vivo a favor do Tibete. O cantor norte-americano cancelou sua turnê asiática.

O governo chinês acaba de dar uma decepção aos fãs asiáticos de Bob Dylan. Foram negadas as permissões para seus concertos em Pequim e Xangai, o que por fim causou o cancelamento de toda a turnê prevista, que também incluía paradas em Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan. Segundo o produtor, Jeffrey Wu, o principal interesse de Dylan era se apresentar na China continental. Há algumas semanas Dylan se apresentou no Japão, mas conhecer o gigante do sudeste asiático era o grande atrativo para um cantor e compositor que passa a maior parte do ano na estrada.

Aparentemente, as autoridades comunistas temem que os visitantes usem o palco para criticar suas políticas internas. Foram poucos os cidadãos chineses que souberam que Björk, quando cantou em Xangai em 2008, terminou seu “Declare Independence” com gritos de “Tibete! Tibete!”. Mas a islandesa foi duramente criticada por ferir “os sentimentos do povo chinês”. Desde então, é aplicado um filtro às propostas de shows de artistas ocidentais.

Qualquer solista ou grupo com simpatia pela causa tibetana é proibido. Isso foi comprovado em 2009, quando impediram que a banda Oasis se apresentasse em Xangai. Os serviços de inteligência constataram que Noel Gallagher havia aparecido em 1997 em um festival celebrado em Nova York, com o tema “Tibete Livre”, na companhia de Radiohead, Blur e U2. Caracteristicamente, Gallagher não se lembrava de nada daquele evento; nem sequer opina sobre o problema do Tibete. Mas as novas regras parecem pensadas para os participantes desses shows: “aqueles artistas que tomam parte de atividades que prejudicam a soberania de nossa nação não poderão se apresentar de forma alguma na China”.

Até o incidente de Björk, os governantes chineses se contentavam em exercer seus poderes de censura. Os Rolling Stones, que passaram décadas tentando abrir o mercado chinês, sofreram essas mudanças. Em 1979, se apresentaram diante da Embaixada da República Popular em Washington, definindo-se como defensores das massas proletárias, flagelos da classe alta e outros exageros. Mick Jagger se recorda da seguinte passagem em uma entrevista para este jornal: “reuni-me com o embaixador e não consegui aguentar sua hipocrisia: um regime que matou 70 milhões de seus cidadãos por decisões absurdas de Mao e que tinha objeções para letras que tratam de sexo... por favor! E eu ainda não sabia dos resultados de outras barbáries que Mao instaurou, como o Grande Salto Adiante”.

Com o tempo, Jagger moderou sua indignação. Os Rolling Stones tocaram ali em 2006, depois de eliminar de seu repertório canções de conteúdo erótico, como “Honky Tonk Woman”, “Brown Sugar” ou “Let’s Spend the Night Together”. Não houve margem para distúrbios: os altíssimos preços das entradas garantiram que a maioria dos espectadores fossem residentes estrangeiros na China; em geral, os nativos presentes eram namoradas e esposas de ocidentais. O único sinal de heterodoxia foi quando convidaram para subir no palco um dos pioneiros do rock local, Cui Jian, perseguido em outros tempos e atualmente tolerado.

No caso de Dylan, pode-se imaginar que temem o autor de “Blowin’ in the Wind” e outras canções chamadas “de protesto”. Ledo engano: Dylan já não usa esse repertório para agitar seu público. Pode tocar a anti-bélica “Masters of War” durante a primeira Guerra do Golfo, ou diante dos cadetes da academia militar de West Point, mas isso é redundante. Além disso, não parece que Bob se incomoda com os modos com que as superpotências adquirem territórios: recentemente, defendia a moralidade da anexação norte-americana do Texas e outras partes do México, em meados do século 19.

Tradução: Lana Lim

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