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06/04/2010

Partido Trabalhista avança nas pesquisas e abre ainda mais a disputa eleitoral no Reino Unido

El País
Walter Oppenheimer
Em Londres
  • Integrantes do Partido Conservador comemoram no Reino Unido a perda de força dos blocos partidários tradicionais, que perdem espaço no Parlamento Europeu

    Integrantes do Partido Conservador comemoram no Reino Unido a perda de força dos blocos partidários tradicionais, que perdem espaço no Parlamento Europeu

A possibilidade de que nenhum partido obtenha maioria absoluta esquenta a pré-campanha eleitoral britânica. A reforma fiscal monopoliza o debate político.

Gordon Brown vai anunciar nos próximos dias a convocação de eleições gerais no Reino Unido. O mais provável é que o atual primeiro-ministro, que chegou ao cargo no meio da legislatura, em junho de 2007, quando substituiu o polêmico Tony Blair, comunique na terça-feira à rainha sua decisão de dissolver o Parlamento e convocar os britânicos às urnas em 6 de maio. Serão as primeiras eleições desde 1997 com aromas de mudança política, embora a ressurreição dos trabalhistas nas pesquisas dos últimos meses possa pôr em dúvida o até há pouco tempo esperado triunfo do Partido Conservador.

Brown diz que tem chance de ganhar as eleições britânica

Embora em eleições gerais entrem em jogo muitos fatores, a economia e o choque de personalidades entre o trabalhista Brown e o conservador David Cameron se desenham como os elementos chaves para os eleitores. À diferença do que é habitual nas eleições britânicas, desta vez parece realmente possível que nenhum partido obtenha a maioria absoluta, o que poderá deixar a chave da formação de governo para o Partido dos Liberal- Democratas liderado por Nick Clegg.

Apesar de a City ter fechado em queda devido ao temor do que os britânicos chamam de "hung Parliament", um parlamento em suspenso devido à ausência de maioria absoluta, muitos eleitores parecem ter chegado à conclusão de que talvez seja a melhor saída em um momento político em que os cidadãos não parecem entusiasmados nem com a ideia de que os trabalhistas obtenham uma quarta vitória consecutiva nem com o retorno dos conservadores ao poder.

Significativamente, uma pesquisa da ICM publicada no sábado pelo jornal "The Guardian" reflete uma queda de 2 pontos na intenção de voto, tanto para os conservadores (38%) como para os trabalhistas (29%), enquanto os liberais crescem 3 pontos e alcançam 23%. Embora a vantagem conservadora possa parecer muito ampla, com o sistema eleitoral britânico não é garantido que obtenha a maioria absoluta. O renascimento trabalhista levou os conservadores a aumentar a agressividade de suas mensagens nas últimas semanas e redobrar os ataques contra Gordon Brown, um primeiro-ministro que neste verão parecia politicamente morto, mas que se recuperou na medida em que a situação econômica melhorou.

Mas tanto a posição de Brown como a da economia ainda são frágeis. A influência que a situação econômica pode ter no resultado final das eleições se fez sentir com força nas últimas semanas e especialmente nos últimos dias da pré-campanha. Até a semana passada, os trabalhistas haviam conseguido capitalizar o debate econômico a seu favor. Não só porque atribuíam a sua própria gestão o retorno do crescimento ou o papel desempenhado por Brown nos momentos mais críticos da crise bancária mundial, mas porque os vaivéns econômicos dos tories e seu empenho em dar mais destaque à grave situação das contas públicas do que à própria recuperação da economia parecia os estar afastando dos eleitores.

Há alguns meses esse debate girou em torno de um assunto de aparência bastante acadêmica: devem-se implantar cortes de gastos de forma imediata para sanar as finanças públicas, como dizem os tories, ou é preciso adiar o ajuste por um ano e manter os níveis de gastos públicos para consolidar a recuperação, como defendem os trabalhistas?

Esse debate quase metafísico baixou à terra na última semana, pela mão do Partido Conservador, quando seu porta-voz de economia e aspirante a chanceler do Exchequer, George Osborne, anunciou que se ganharem as eleições cancelarão o aumento de 1 ponto nas cotizações para a Previdência Social, aprovado no ano passado pelos trabalhistas e que deveria entrar em vigor em 1º de abril de 2011, proporcionando à Fazenda britânica receitas adicionais de 6,8 bilhões de euros.

Como compensação, os tories identificaram áreas de cortes de gastos públicos nesse mesmo valor para este ano e em mais 6,8 bilhões no seguinte. A proposta conservadora causou certa perplexidade no início, porque parece contraditória com sua determinação a sanar as finanças públicas. Se esse é o objetivo, por que anunciar agora um corte de impostos?

A resposta veio em seguida na forma de uma carta ao jornal "The Telegraph" assinada por 23 executivos de grandes empresas ou organizações empresariais, como Marks & Spencer, Next, easyGroup, Sainsbury's ou as Câmaras de Comércio Britânicas, apoiando a iniciativa
conservadora: "Cortar o desperdício do governo não vai pôr em risco a economia, mas aumentar as cotizações sociais sim, a colocaria em risco", dizem. A manobra conservadora pegou os trabalhistas de surpresa. "É uma reação de pânico", denunciou Gordon Brown. "Os empresários assinaram essa carta enganados", afirmou o poderoso ministro Peter Mandelson, responsável exatamente pela pasta mais diretamente ligada aos empresários.

Mas o pânico parece surgir mais do quartel-general trabalhista porque uma proposta tão simples pode acabar alterando completamente o debate econômico e fiscal da campanha. Por enquanto, deslocou o centro de gravidade desse debate da dicotomia dos últimos meses (ajuste fiscal agora ou no ano que vem) para um território em que os atores estão muito mais à vontade: reduções fiscais e do gasto público ao mesmo tempo.

Mas também pode ter uma dimensão mais diretamente política, ao reforçar a associação dos conservadores com o mundo dos negócios e os trabalhistas com o contrário. Uma arma de dois gumes para os dois partidos, porque reforça a imagem dos conservadores como o partido da classe dominante e convida a ressuscitar o velho clichê dos trabalhistas como um partido incapaz de aceitar como próprio o mundo dos negócios.

Exatamente os dois estereótipos que os dois grandes partidos britânicos mais tentam combater. Talvez seja essa a melhor maneira de reforçar silenciosamente as opções do Partido dos Liberal-Democratas...

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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