UOL Notícias Internacional
 

07/04/2010

Afeganistão, um poço sem fundo

El País
Ricardo Martínez de Rituerto
  • Soldados em Cabul; déficit de militares ocidentais para dar formação aos afegãos é de 1.901

    Soldados em Cabul; déficit de militares ocidentais para dar formação aos afegãos é de 1.901

Um exército afegão, uma sociedade civil digna desse nome: são os objetivos da missão internacional em Cabul. Mas seus chefes preveem diversos obstáculos para estabilizar o país

Adolescentes afegãs com elegantes uniformes escolares saem dos colégios e passam sob cartazes que anunciam outros centros de ensino bilíngue em Cabul, enquanto bandeirolas anunciam exames de inglês nas ruas da capital afegã, repleta de carros que se deslocam sem semáforos sobre um piso esburacado. A poucas dezenas de quilômetros na direção nordeste, campos verdejantes irrigados e salpicados de cerejeiras em flor alegram a vista, do helicóptero na província de Kapisa.

Duas cenas de uma sociedade pobre e martirizada por 30 anos de guerra que quer voltar a viver e que se despedaçam de imediato. A imagem ideal das escolares desvanece diante da realidade dos 86% de analfabetismo no Afeganistão. A estridente Cabul abarrotada de gente é um oásis neste país, como é uma miragem o oásis no vale do Tagab, em Kapisa.

No alto do povoado de Tagab, uma base avançada francesa vive sitiada por talebans e semelhantes. Executar ali uma simples operação policial representa mobilizar cerca de 700 soldados em tarefas de proteção e segurança. "Sejamos realistas. Estamos na Idade Média", diz um chefe militar francês aos jornalistas que visitam o lugar por iniciativa da Otan.

O Afeganistão acaba de estrear o ano 1389 de seu calendário, possivelmente comparável ao século 14 de nossa era em hábitos e tradições, valores, crenças e relações de poder. A comunidade internacional está atolada ali desde 2001, tentando aprender, compreender e buscando soluções. A crua estrutura medieval afegã é aguçada pela corrupção, o narcotráfico e os interesses geoestratégicos em conflito dos vizinhos, com o Paquistão à frente.

"Estive aqui em 2004, e não se falava da corrupção porque nosso conhecimento era zero", comenta o general canadense Eric Tremblay, porta-voz da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf, dirigida pela Otan). Também é um veterano do Afeganistão o tenente-coronel americano Michael Loos, hoje destinado no Centro de Instrução Militar de Cabul (KMTC), o acampamento nas redondezas da capital onde será formada toda a oficialidade e a metade dos soldados com que se quer reforçar o exército afegão, conforme a nova estratégia do general Stanley McChrystal, voltada a criar um Afeganistão estável, capaz de se valer por si mesmo e em paz com seus vizinhos.

As missões anteriores de Loos foram de combate e, segundo ele, foram "muito menos importantes que a de agora, formar um exército o quanto antes". O empenho assumido em janeiro passado pela comunidade internacional é que o exército nacional afegão (ANA) passe dos atuais 100 mil efetivos para 171.600 até outubro do próximo ano. "Me surpreendeu como eram duros. Seu espírito é de autênticos guerreiros", lembra Loos de suas estadas anteriores e seus encontros com os soldados improvisados.

Também são cerca de 100 mil os policiais afegãos. A previsão é de que cheguem a 134 mil em outubro de 2011, conforme outro programa paralelo de formação que busca dar a Cabul forças de segurança (soldados e polícia) de 305.600 homens, número considerado necessário para ocupar o terreno e começar a preparar a transição para a plena chefia da segurança nacional pelos afegãos. Medida que será respondida com a progressiva evacuação das forças da Isaf e dos EUA, que neste verão chegarão a cerca de 140 mil soldados

A formação das forças de segurança afegãs é travada pelo analfabetismo, as deserções e a necessidade de buscar um equilíbrio étnico que reflita a complexa demografia nacional de pashtuns (44%), tadjiques (31%), hazaras (11%), usbeques (9%) e outros grupos menores. Os responsáveis militares e policiais confiam no êxito final, agora sombreado pela escassa participação no projeto (3%- 5%) dos pashtun do sul. Sua inclusão é politicamente crucial, porque esses pashtun constituem o núcleo da resistência taleban.

"Em cada família pashtun há um taleban", comentou recentemente Richard Holbrooke, o emissário do presidente Barack Obama para o Afeganistão e o Paquistão, palavras que provocaram uma tempestade política em Cabul porque o presidente Hamid Karzai também é pashtun. "O que Holbrooke disse é verdade", indica um observador local pashtun que pede para manter o anonimato. Esse analista afirma que os pashtun analfabetos e religiosos são a sementeira dos taleban, rejeitados pelos pashtun com educação, como ele. Aqueles são maioria e estes, os que se relacionam com os ocidentais.

O fato é que a resistência a Karzai vem se ampliando nos últimos anos, com incidentes e ataques por todo o país, em parte como reflexo da frustração dos afegãos pela corrupção e a incapacidade do governo central de governar (dando assim razão aos que querem derrubá-lo a tiros) e porque a irrupção das forças estrangeiras em áreas antes controladas pelos taleban acabou com uma situação que lhes permitia explorar imensas bases territoriais.

A atual ofensiva militar na província de Helmand logo será seguida de outra na vizinha Kandahar, com a capital homônima e berço dos taleban como grande objetivo. Operação complexa pelo tamanho da cidade e porque nessa região manda sem limites Wali, o irmão do presidente. Diante do que acontecia antes, quando a eliminação dos taleban por soldados seguia a retirada militar e o abandono do terreno e, como corolário natural, sua imediata recuperação pelos fundamentalistas, o plano do general McChrystal pede que o território ganho seja consolidado. Daí a necessidade de aumentar as forças de segurança afegãs com as quais ocupar permanentemente o espaço, projeto de formação de soldados e policiais para o qual continuam faltando os prometidos instrutores da Otan e da União Europeia (UE).

Só para a formação militar, a aliança atlântica se comprometeu a enviar 2.325 formadores. A realidade é que em campo só há 424, o que deixa um déficit de 1.901. Os diversos governos aliados disseram que mobilizarão outros 815 instrutores, mas mesmo assim faltam 1.086 homens. O grosso do esforço de formação militar recai nos EUA, que dos US$ 1 bilhão (cerca de R$ 1,75 bilhão) mensais que representa a missão de formação das novas tropas desembolsa US$ 890 milhões (cerca de R$ 1,56 bilhão). Sem ironias, mas deixando as coisas em seu lugar, o general William Cadwell, responsável máximo pelo programa de instrução, faz notar que a dotação financeira que a UE dedica durante um ano inteiro ao plano permite cobrir duas semanas de operações.

Todos os anos são o decisivo para que a comunidade internacional comece a ver a saída do túnel afegão, e este 2010 não poderia ser menos. Assim se dizia desde a derrocada do governo taleban em 2001, e em cada ocasião foi em vão. Serge Labbé, representante civil adjunto da Otan no Afeganistão, acredita que este o é "porque o presidente Obama vai enviar 30 mil soldados a mais", raciocina o canadense. "Creio que tocamos o fundo no Afeganistão."

"Até o fim do ano passado a situação de insegurança continuava se deteriorando, mas já se estabilizou. Agora estamos tentando melhorar", afirma o general transformado em civil depois de uma carreira militar não isenta de sobressaltos (atuação discutível na Somália, da qual foi exonerado) e com anos de trabalho no país asiático assessorando o governo na reconstrução e no desenvolvimento.

Labbé confessa que "até há pouco tempo não estávamos conscientes da tarefa que tínhamos no Afeganistão e só com a operação Mushtarak [lançada há quase dois meses na província meridional de Helmand] se começou a aplicar a estratégia adequada. É a única solução". Segundo ele, até o final do ano não se verá se há tendência para a satisfação das expectativas da comunidade internacional no país centro-asiático.

Labbé não especula sobre o que aconteceria no caso de um novo fracasso. Prefere limitar-se a advertir que "o tempo joga contra nós". O objetivo final é transferir para os afegãos o controle da segurança de seu próprio país dentro de cinco anos, conforme pediu Karzai em sua posse, em novembro passado. "O fato de se transferir a segurança supõe que terão resolvido todos os problemas de governança e desenvolvimento no Afeganistão?", pergunta-se Labbé. E ele mesmo responde: "Não. A comunidade internacional vai continuar aqui por muito tempo através da ONU". E será cumprido o desejo de Karzai de concluir seu segundo mandato presidencial com toda a segurança do país em suas mãos? "Provavelmente não."

A política e a economia são as outras duas pernas do sistema sobre as quais se quer levantar o novo Afeganistão. A política tem sua primeira grande data na "jirgha" da paz convocada para daqui a um mês em Cabul, uma assembleia de notáveis que provoca ceticismo nos analistas locais versados nos matizes da intricada sociedade afegã. "Será uma perda de tempo", prevê um deles.

Mas nos últimos dias os inimigos de Karzai têm emitido sinais alentadores para Cabul e para uma comunidade internacional desejosa de escapar do labirinto afegão. Essa assembléia de notáveis deve sancionar em Cabul o diálogo com a insurgência e os subsequentes planos de reconciliação e reintegração do governo, aos quais a comunidade internacional deverá dar seu aval político e financeiro em outra conferência a se realizar em junho na capital afegã - primeira da longa série de conferências internacionais sobre o país, iniciada com a de Bonn em 2001.

E a política tem outra vertente muito mais complexa, a de enquadrar o Paquistão no jogo da estabilização. O Paquistão, criador dos taleban e com seculares ambições de influência sobre seu frágil vizinho, é a assombração dos afegãos. "Índia e Paquistão travam sua guerra em nosso território", resume Najiba Ayubi, alta responsável de um grupo multimídia nacional, muito receosa de seu influente vizinho. "O Paquistão criou os taleban para alguma coisa, e não os abandonará se não for por alguma coisa."

"Conseguir segurança não depende só do exército e das forças de segurança, mas consiste em conseguir o apoio da população", indica Mohamed Tariq Ismati, diretor executivo do Ministério de Reabilitação Rural e Desenvolvimento, figura de proa do esforço internacional para salvar o Afeganistão. Ismati defende um "desenvolvimento que respeite os valores e as necessidades do tecido social afegão, e que por isso aproxime as pessoas do governo".

São cruciais para sair bem do desafio afegão a governança e a luta contra a corrupção, o câncer afegão por antonomásia, um fenômeno onipresente do qual todos falam: "Aqui todos os policiais eram corruptos", diz Kai Vittrup, o dinamarquês que dirige a missão da UE para a formação da nova polícia. "Que o governo faça nomeações razoavelmente não corruptas...", recomenda Serge Labbé. E Herman Nicolai, diretor da Isaf, adverte: "Um juiz não pode viver com um salário de US$ 69 (cerca de R$ 120) . Daí a corrupção".

E também será vital para a estabilização a reorganização da contribuição econômica internacional. "O financiamento internacional de projetos deve ser analisado através do governo e do Programa de Solidariedade Internacional, para que os afegãos vejam que o governo de Cabul faz coisas por eles", diz Mark Ward, conselheiro de desenvolvimento na missão da ONU.

No Afeganistão, a comunidade internacional investiu muito, mal, sem coordenação, buscando o benefício próprio e o golpe de efeito propagandístico, em vez de fazê-lo pensando nos afegãos. "É preciso aproveitar o tremendo capital disponível para contratar as companhias locais, que sejam elas que ofereçam bens e serviços aos planos internacionais, que se faça funcionar a economia e se crie emprego e desenvolvimento", insiste Ward.

Caso assim se consiga eliminar o oxigênio que dá vida aos taleban, as escolares de Cabul com seus delicados véus sobre a cabeça terão um futuro. E campos verdes como os de Tagab se transformarão na alternativa ao descarado cultivo da papoula, da qual se extraem 90% da heroína que corre pelo mundo. Para um diplomata cético, com longos anos de aplicado observador dos vaivéns políticos nacionais e internacionais no Afeganistão, parece uma história da carochinha.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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