UOL Notícias Internacional
 

07/04/2010

Febre do ouro se intensifica no Peru

El País
Jaime Cordero
Em Lima
  • Mineiros e familiares peruanos velam corpos de colegas mortos em confronto com a polícia durante protesto contra as medidas que visam impor controle ambiental para a extração de ouro

    Mineiros e familiares peruanos velam corpos de colegas mortos em confronto com a polícia durante protesto contra as medidas que visam impor controle ambiental para a extração de ouro

Milhares de garimpeiros entram em greve contra uma lei do governo

Durante décadas a região de selva de Madre de Dios, situada no extremo sudeste do Peru, viveu com códigos semelhantes aos do faroeste americano. Considerada uma das reservas de biodiversidade mais importantes do mundo, a região abriga vários parques e reservas nacionais, mas também - e essa é sua infelicidade - rios ricos em ouro, que deram lugar a uma atividade de garimpo cada vez mais febril, sempre informal e sempre poluente devido ao desmatamento e ao mercúrio que os mineiros empregam para obter o mineral e depois descartam no rio.

Os que visitaram essas áreas as descrevem como lugares praticamente livres da presença do Estado. "Há regiões onde um jornalista não pode entrar, nem mesmo um policial, porque há 10 ou 15 mil garimpeiros que exercem a atividade informalmente, e nelas inclusive crianças se prostituem", explica Juan Perry, congressista por essa região. O governo agora parece decidido a ordenar e impor limites à atividade, e encontrou uma oposição ferrenha dos mineiros de Madre de Dios, que no domingo iniciaram uma paralisação indefinida que foi apoiada por seus colegas de outras regiões, temerosos de que logo seja imposta uma legislação semelhante.

Ainda não há números oficiais, mas calcula-se que dezenas de milhares de pessoas dependem direta ou indiretamente dessa atividade. Em Arequipa, onde cerca de 6 mil mineiros bloquearam a vital Rodovia Panamericana na altura da localidade de Chala, um confronto com a polícia no domingo terminou com seis mortos.

Os mineiros pedem a renúncia do ministro do Meio Ambiente, Antonio Brack, e a anulação do decreto supremo 012-2010, vigente desde fevereiro passado, que estabelece zonas de exclusão de mineração em Madre de Dios e estabelece pautas para ordenar a atividade, como proibir as embarcações que dragam o fundo dos rios e que segundo o governo são máquinas caras que não podem ser consideradas de pequena mineração.

Também afirma que por trás dos mineiros há empresários de outras nacionalidades que são quem conduz as operações e promove os protestos. De fato, a magnitude do negócio é tal que Madre de Dios é responsável por 9,5% do ouro extraído no Peru, considerado o sexto produtor do metal em todo o mundo. Segundo o Ministério de Minas e Energia, nessa região são produzidas 16 toneladas de ouro por ano, no valor aproximado de US$ 600 milhões (cerca de R$ 1,05 bilhão).

E nos últimos anos a atividade vem aumentando, devido ao fato de os preços internacionais do metal terem alcançado níveis históricos. O Executivo peruano disse que está disposto a negociar com os mineiros que queiram se formalizar, mas descarta totalmente a anulação do decreto de emergência.

O dano ambiental que a atividade causou na região já é considerável: cerca de 18 mil hectares de floresta amazônica destruídos e rios com concentrações de mercúrio e outros poluentes várias vezes acima dos limites aceitáveis, de acordo com o ministro Antonio Brack.

O presidente Alan García qualificou-a de "mineração selvagem" e ratificou que não vai continuar permitindo. "Algum dia o Brasil pode organizar um protesto contra nós porque tudo o que sai de Madre de Dios termina no Brasil ou no rio Amazonas. Como vamos explicar que permitimos uma mineração selvagem que não paga impostos, que não paga salários, que não utiliza uma tecnologia moderna?", declarou o presidente.

O governo enviou um representante a Puerto Maldonado, a capital de Madre de Dios, que continua paralisada pelos protestos, para entabular conversações com os garimpeiros, mas adiantou que não iniciará qualquer negociação enquanto não suspenderem seu protesto e restituírem o livre trânsito nas estradas.

"O Estado se descuidou durante muitos anos e agora a situação é difícil", admitiu na terça-feira o ministro Brack. "Mas agora é preciso impor a ordem", arrematou.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host