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08/04/2010

Quatro cartas entre velhos inimigos

El País
Maite Rico
Em Madri
  • Cubano lê jornal Granma em Havana; o intercâmbio epistolar entre cantor e compositor Silvio Rodríguez e o exilado Carlos Alberto Montaner começou no dia 30 de março

    Cubano lê jornal "Granma" em Havana; o intercâmbio epistolar entre cantor e compositor Silvio Rodríguez e o exilado Carlos Alberto Montaner começou no dia 30 de março

O intercâmbio epistolar entre o cantor e compositor Silvio Rodríguez e o exilado Carlos Alberto Montaner começou em 30 de março, quando o primeiro escreveu uma carta na qual perguntava diretamente ao segundo: "Se os milhares de cubanos que perdemos a família em atentados da CIA fizéssemos uma carta de denúncia, Carlos Alberto Montaner a assinaria?" A partir de então o intercâmbio continuou. Quatro cartas foram escritas, pelo menos por enquanto, a última datada 3 de abril passado.

Os dois nasceram em Cuba nos anos 1940. Um escapou da prisão em 1961 e, do exílio, começou uma vida de combate ao regime comunista. O outro abraçou a revolução, lhe deu trilha sonora e foi deputado durante 15 anos. Tudo separava o escritor Carlos Alberto Montaner, besta negra do castrismo, do músico Silvio Rodríguez, ícone da causa. Teve de ocorrer a morte do dissidente Orlando Zapata para que os velhos inimigos iniciassem um insólito intercâmbio epistolar, inimaginável em outros tempos. Das antípodas ideológicas, ambos concordam em um ponto: a necessidade de olhar para o futuro.

Tudo começou em 30 de março passado, com um texto poético de Silvio Rodríguez publicado em um site pró-castrista (Rebelión). O cantor-compositor lança uma série de perguntas, uma das quais dirigida a Montaner. "Se os milhares de cubanos que perdemos a família em atentados da CIA fizéssemos uma carta de denúncia, Carlos Alberto Montaner a assinaria?" O escritor respondeu no dia seguinte: "É claro, Silvio, eu assinaria essa denúncia".

Depois de qualificar de "abomináveis" certas posições americanas, incluindo a pena de morte, Montaner devolve a pergunta. O cantor-compositor assinaria uma carta de denúncia dos abusos aos presos políticos e aos dissidentes cubanos, uma condenação "da censura, do partido único, da perseguição por motivos de ideias, crenças ou preferências sexuais"?

"É uma carta na qual diríamos aos Castro que 51 anos é um período longo demais para se continuar impondo aos cubanos um sistema falido e cruel, no qual quase ninguém acredita mais, começando por você, Silvio." Montaner mostra-se seguro de que o cantor a assinaria, como "90% dos cubanos". E defende que "a oposição democrática e os reformistas do regime" busquem juntos uma saída para "o legado dos Castro: um manicômio empobrecido e sem ilusões".

A réplica de Silvio é de 2 de abril, e muito dura. Acusa Montaner de distorcer a imagem de Cuba. "Você compartilha um ódio que derrubou aviões cheios de inocentes." É uma alusão ao atentado contra o voo da Cubana de Aviación cometido em 1976 por círculos anticastristas, que matou 73 pessoas. Antes, Montaner lembrou o naufrágio intencional do rebocador 13 de Março, que causou a morte de 41 pessoas que tentavam fugir de Cuba em 1994.

Não são os únicos episódios da história cubana que se põem na mesa. Montaner lembrou as matanças de somalis pelas mãos de tropas cubanas na guerra de Ogaden. Rodríguez, que combateu em Angola, esgrime o sacrifício dos caídos na África, que promoveu o "fim do apartheid". Montaner lamenta a "perda inútil" de 3 mil vidas "não na luta contra o apartheid", mas pelo desejo de Castro "de se transformar em líder planetário" e fazer "da pobre Cuba o jogador mais agressivo e oportunista da Guerra Fria". Hoje, afirma o escritor em sua segunda réplica ao cantor, "Angola é uma nação capitalista" que deseja esquecer aquele projeto revolucionário.

"Continuo com mais razões para crer na revolução que em seus detratores", escreve Silvio. "Parece-me legítimo", responde Montaner, que defendi olhar para o futuro e construir uma "Cuba tolerante e aberta". Lembra ao cantor que têm filhos da mesma idade. "Não lhe parece criminoso que esses jovens sejam obrigados a apoiar as ideias e os preconceitos de alguns confusos octogenários encharcados no pior dogmatismo?"

A segunda réplica de Montaner ainda é inédita, e a resposta do cantor, se houver, uma incógnita. Mas em uma entrevista publicada nesta terça-feira pelo jornal argentino "Página 12", Silvio Rodríguez defende "superar a lógica da Guerra Fria". "Não podemos ser eternos prisioneiros de nosso passado porque há mais amanhã que ontem esperando-nos", diz. O cantor mostra-se partidário de anistiar os "presos que alguns chamam de consciência". "Minha posição", diz, "é que todos tenhamos direito à informação, a criar uma opinião de cada coisa e a comentar o que for, sem limitações."

No lançamento de seu mais recente disco em Havana, e diante do ministro da Cultura, Silvio pediu mudanças, superar "o 'r' de revolução" e que se imponha a "evolução". Antes dele, outro dos fundadores da Nova Trova, Pablo Milanés, havia censurado o governo pelo tratamento aos dissidentes. Ambos receberam críticas da imprensa oficial. Concretamente, o jornal "Granma" mostrou uma caricatura de um Silvio envelhecido que diz: "Sim, eu cantava para os pobres... isso foi antes de ganhar muito dinheiro com a canção social". O cantor se queixou de que a imprensa capitalista, à qual acusa de demonizar o regime, relegou sua defesa da revolução.

Montaner, que conheceu Silvio em um jantar, espera que o diálogo tenha continuidade e que incorpore "o mundo ao qual a revolução se referia foi derrubado com o Muro de Berlim, e essa ditadura é um velho e desacreditado fóssil aparentado apenas à Coreia do Norte".

Necessidade de que mais vozes se unam a um debate para começar a traçar as linhas do futuro. Pouco a pouco, diversos intelectuais, além dos blogueiros de uma dissidência sem militância política, se uniram. Ena Lucía Portela rompia o silêncio dos escritores consagrados na ilha. Montaner e Rodríguez se conheceram pessoalmente nos anos 80, em um jantar em casa de um amigo comum em Madri. "Pareceu-me uma pessoa absolutamente flexível, crítica. Não se parece com o sistema que defende." "Creio que é muito importante começar o quanto antes a conversar de pontos de vista diferentes e a nos comunicarmos racionalmente. Espero que outras pessoas se incorporem ao diálogo." "Surpreendeu-me que me respondesse e vejo isso como uma boa oportunidade para um debate sério e respeitoso", declara Montaner.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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